Chegamos em Praga - República Tcheca - no dia 29 de janeiro, domingo. O trem era tão confortável que as cadeiras opostas uniam-se, virando uma cama improvisada mais do que suficiente para que eu não visse nada da viagem.
Descemos na estação errada, mas pegamos um táxi até o hostel. O taxista não falava inglês direito, mas nos “comunicamos” em um alemão neandertal. O cara era fanático por futebol, e quando soube que éramos brasileiros, nos mostrou um cartãozinho que ele guarda com orgulho de uma partida do Botafogo contra o Vasco, se não me engano, presente de um brasileiro há mais ou menos uma década. Ele me recitou a escalação do Brasil dos anos 70, um por um. Vibrava com uma mão enquanto dizia palavras do tipo “hier, kalt! Brazil, warm!!! Carnaval!!! SAMBA!!!”. Esses estereótipos são um tanto ignorantes, porém nos fazem rir quando vêm de um velho tcheco que nunca deve ter visto uma mulata na vida. O frio absurdo da cidade era de -15, mais ou menos, e o cara não usava luvas. No hostel, fomos maltratados pelo japonês da recepção, a ponto de eu quase discutir com o infeliz. Almoçamos num restaurante ao lado do hostel, comida típica tcheca. Pela primeira vez, eu não sabia sequer UMA palavra no idioma local, o que me deixou muito frustrado; em questão de tempo, aprendi “oi”, “tchau” e “obrigado”, mas já esqueci. No restaurante, resolvi experimentar o sal que havia no potinho. Não tinha como não ser sal. Mas não era sal. Era uma pimenta com um gosto terrível – sem dúvida a pior experiência gastronômica que eu já tive em minha breve existência. Estraguei a comida toda, já que pensei que era sal e espalhei por quase todo o prato. A tcheca do restaurante era uma loira de beleza exuberante.
Demos uma volta na old town square, vimos o relógio astronômico – que a cada batida de hora oferece um showzinho de fantoches robóticos junto de um sujeito vestido a caráter tocando numa corneta uma música muito característica, que ainda não saiu da minha cabeça (e dificilmente sairá). Uma pequena multidão aguarda ansiosa sempre que se aproxima da próxima hora. Por causa do frio, voltamos ao hostel. Desci com o computador até a sala comum, onde já havia um sujeito meio moreno falando no telefone uma língua absolutamente incompreensível; “tudo bem, eu já estou conformado”, era meu pensamento. Não quis nem arriscar sua nacionalidade. Estávamos cada um em um sofá: eu no da direita e ele no da esquerda. Logo, chegou um terceiro cara e sentou entre nós, no sofá da esquerda, puxando um livro. O mais moreno, ainda no telefone, começou a fazer um barulho irritante com os dedos, batendo-os contra o aparelho. Eu, naturalmente, procurei ignorar; entretanto, o leitor olhou para ele e fez um sinal, pedindo que parasse. E funcionou, tendo ele pedido desculpas.
Quando desligou o telefone, olhou para o leitor e pediu desculpas novamente em inglês, tendo aquele respondido que tudo bem, também se desculpando. Depois desse “joguinho de comadres”, perguntou ao outro que livro era aquele, tendo eles começado uma conversa que eu, estando ao lado, inevitavelmente ouvi. Se apresentaram; o leitor era francês, e o moreno era egípcio, sendo a língua que falava no telefone (mais tarde soube que era Skype) simplesmente árabe (!). Mais tarde eu aprenderia várias frases em árabe, como “vou transar com sua mãe assim como um camelo”, “vai se f*der”, “saúde!” e “olá, eu sou um francês viado” (tendo eu feito o francês repetir essa alguns dias depois sem ele saber o significado, é claro). Logo que o Romain disse ser francês, o egípcio Ragaai (que se apresentou como Ray) perguntou se ele sabia daquela política francesa que faz campanha nua nas ruas, uma tal de Cyndi Lee (corrijam-me, por favor). Eu já havia ouvido falar, mas o Romain não (mesmo sendo francês), e, buscando apoio em mim, o egípcio perguntou se eu conhecia. Apresentei-me, pois, conforme me agregaram à conversa. O Romain ficou surpreso quando disse que falava francês, tendo-me feito praticar o resto dos dias; devo muito a ele por isso – principalmente por um episódio de Bratislava mais tarde que também ficará muito vivo em minha memória. Aliás, devo muito a esses dois novos grandes amigos que, sem saber, estava fazendo no momento. Devo a eles todos os vídeos que tenho comigo dessa viagem; mas isso é assunto para mais tarde. Conversamos um pouco, tendo-lhes mostrado o comercial egípcio do Panda – muito engraçado e recomendado a quem ainda não viu; a frase é “nunca diga não ao panda”. O egípcio não conhecia a propaganda, mas sim o produto. Rimos bastante, e logo depois o Romain (sempre ele) sugeriu: “e aí caras, vamos tomar uma cerveja ou não?”.
Tomei um banho e desci. O Ray ainda não havia descido, mas o Romain já estava lá. Este francês é um cara muito complicado. Logo de início, eu tive até certo receio e desconfiança, pois nota-se de longe que ele é dono de uma carga psicológica pesada. Com o tempo, porém, pode-se tê-lo como um grandessíssimo amigo, o que de fato já é. Mas logicamente eu não sabia disso até o momento. Conversamos em francês lá embaixo, tendo eu travado bastante, uma vez que era a primeira oportunidade na qual eu teria um diálogo longo na língua, ainda mais depois de várias semanas longe da França. Ainda assim, o cara foi paciente e elogiou bastante, motivando-me; o fato de ele falar inglês fluente (algo raro a essa nacionalidade) ajudou bastante a comunicação. Disse-me que também falava grego, devido a uma ascendência cipriana. Assim que o egípcio Ray apareceu, fomos a um bar, levados pelo Romain. “Esse é um bar especial. Vocês entenderão”. Eu imaginei centenas de interpretações para “especial”, mas jamais me passou pela cabeça que, ao som de uma panelada, veria cinco meninas tchecas subirem no balcão de shortinho e mini blusa dançando sensualmente por uns quinze minutos. Enquanto os dois fumavam e bebiam suas cervejas, eu comia uma carne generosa, pois não havia jantado. Confesso que fiquei boquiaberto quando vi o espetáculo, e nem preciso dizer a expressão do egípcio (onde ainda não se faz sexo antes do casamento). Quando o Romain viu nossa reação, disse: “isso aqui, caras... isso aqui não é NADA”. Eu não tinha conseguido captar a mensagem que ele tentou nos passar mais de uma vez ao longo dessa noite. Depois do show, continuamos bebendo e comendo e conversando. Descobri que o egípcio Ray (19 anos) estuda alguma engenharia, se não me engano; que o francês Romain (25 anos até aquela hora) começara a fazer medicina na França, mas que agora fazia computação. Disse-me que, para cursar medicina, basta inscrever-se, mas que ao final do primeiro ano de faculdade há uma seleção radicalíssima, onde só uma porcentagem ínfima de alunos consegue prosseguir. Não sendo um desses, resolveu fazer computação. Também descobrimos que era a véspera de seu aniversário, o qual aconteceria em menos de uma hora. Demos os parabéns antecipados. Nessa hora já estávamos levantando.
- Caras, não precisam me dar os parabéns agora. Basta que comemorem comigo. Não perguntem, só vamos.
- Ótimo – disse eu astutamente –, deverias ter dito isso ao Ray antes, porque eu vi que tinham três meninas no quarto dele.
- AH, nem vem, elas já tinham planos pra hoje à noite, eu as convidei! – defendeu-se o Ray.
- Calma, caras. No lugar aonde vamos hoje, essas meninas não iam ser bem-vindas.
Eu e o Ray nos olhamos assustados. Claramente pensamos a mesma coisa: “esse cara é gay”. E claramente concluímos a mesma coisa: “nós somos dois, estamos a salvos”. Não demorou muito para que virássemos a esquina, víssemos um ambiente chamativo e o Romain nos alertasse: “agora, sim, vocês vão conhecer as mulheres mais atraentes de suas vidas”.
Eu confesso que fiquei receoso. Jamais havia entrado em um lugar do gênero, nem mesmo em Porto Alegre. Não me atraem, simplesmente, ambientes deste âmbito, e só a ideia de pagar para ter sexo já me causa certa indignação – sem contar a degradação da imagem da mulher, a banalização do caráter e da intimidade humana, a barbárie que é o tráfico do próprio corpo… ideias nada excitantes para alguém com neurônios em funcionamento. Todavia, o argumento do cara era difícil de rebater: “vou passar meu aniversário sozinho, se não vierem comigo”. Obviamente ele não disse com essas palavras, mas ficou bem claro que seríamos responsáveis por isso, caso não entrássemos nesse que era o “melhor bordel de Praga”. Isso era um dilema só para mim – o egípcio já estaria lá dentro se dependesse dele. Veio um velho argentino ter conosco na rua enquanto decidíamos. Ele queria que fôssemos justamente neste lugar, tendo perguntado de onde era e logo em seguida puxando um português com um sotaque convincente. “Como tu aprendeste português?”, perguntei, tendo ele dito: “morei no Rio. EU morei em vários lugares... eu falo muitas línguas!”. “Quantas?”.
Ele disse que falava simplesmente QUATORZE línguas. Não acreditei no momento, até que chegou e egípcio ao meu lado para verificar se o velho não estaria me assaltando, e, neste momento, o argentino desgraçado começou a falar com ele em ÁRABE.
Conquanto ainda bem contrariado, fora a gota d’água: acabei entrando.
A coisa lá é bem disfarçada: elas parecem muito felizes. Dançavam nuas e seminuas em um palco, revezando-se entre três andares diversas moças de várias nacionalidades – especialmente russas, tchecas, eslovacas e uma americana perdida lá no meio. Confesso que eram mulheres sexualmente muito atraentes, mas para mim não passavam disso. Dias mais tarde, descobriria que para o Romain tampouco. Sem nós percebermos, ele pagou vários Redbulls e uma garrafa de Absolute (o que, acreditem, custou quase um salário mínimo no Brasil). Quando quisemos dividir, ele se opôs mortalmente, dizendo que ele nos tinha trazido ali, que era aniversário dele, etc. O Romain é aquele tipo de europeu pomposo, educadíssimo e cheio de frescuras, querendo pagar tudo aos amigos, agradar a todos sem jamais perder a pose de “cavalheiro românico”. Ele é mais baixo que eu, e aparenta ter uma experiência de vida interessante – o que descobri através das conversas nos dias seguintes. Enquanto eu discordava disso também, tentando repartir o valor, Ray já estava sentado abaixo do palco babando pela americana. Ao longo da noite, ele implorava a ela para que pudesse tocar ao menos em sua perna. Esse egípcio é um das caras mais engraçados que já conheci na minha vida.
Não demora muito para que, após os shows, as prostitutas te procurem. Sentam ao seu lado e começam a conversar, supersimpáticas, agradáveis e, obviamente, falsas. Poucos minutos após, chega uma garçonete (sempre ao mesmo nível de beleza das outras meninas) e oferece para que tu pagues um drink à moça. Na primeira vez que isso aconteceu, o francês havia ido ao banheiro, então pensei “poxa, como vou dizer não? A mulher tá aqui do lado, ouvindo tudo...”, e olhei para o Egípcio. Ele sabia menos ainda o que fazer. Eu pensei “ok, só um drink então”, e olhei o valor. Era algo astronômico, como R$ 60,00. Disse não na mesma hora que fiz o cálculo mental, e a mulher levantou decepcionadíssima. Quando o francês voltou, expus-lhe a situação. Não sei como funciona no Brasil, mas senti-me um inexperiente ao ter-me ele contado que elas ganham uma comissão a cada drink comprado, e que eu fiz bem em não pagar – estávamos ali pelo aniversário, e basta. Pouco mais confortável, sentei de novo. Conforme fomos brindando (franceses gostam muito de brindar), o absolute começou a fazer efeito e eu decidi parar antes que o local e a bebida me persuadissem a fazer algo censurável. O egípcio Ray havia bebido uma quantidade ainda inferior à nossa, mas, por total falta de experiência, acabou ficando totalmente louco. Contou-nos que, no Egito, é praticamente proibido beber, exceto em quatro bares especiais em Cairo – para uma população de oito milhões de pessoas. Ou seja, ele aproveita o resto o mundo mais ou menos como o resto do mundo aproveita Amsterdã. O problema é este: ele fica facilmente alterado. Nem percebemos quando ele se levantou e... sumiu o resto da noite.
Esperamos por mais de uma hora até que ele voltasse. Eu e Romain procuramos o egípcio por todo canto, todos os banheiros, todos os palcos, todos os andares. Nada. E o rapaz ainda deixou a jaqueta com a gente! Fazia um frio de -15 a essa hora da madrugada, quando resolvemos que não tinha o que fazer. Peguei a jaqueta do guri e levei comigo até o hostel. No caminho, o francês – também bem mais feliz – ria muito enquanto discutíamos sobre a brincadeira do “Is this hotdog good? Then why are you selling it?”, algo que parecia muito engraçado àquela altura, de fato.
Na manhã seguinte, o egípcio entrou no meu quarto. Acordei com ele conversando e rindo com a Liliane, enquanto eu devolvia a jaqueta a ele.
- Onde tu te meteu, cara?
- Eu não lembro!
- Meu Deus, como tu achou o hostel?
- Não faço a menor ideia, eu nem sabia como voltar!
Enfim, esse tipo de mistério viria a se tornar comum nas noites seguintes.
Na tarde desse dia 30, fomos à famosa ponte de Praga, a qual possui alguns vários séculos de idade. A vista dela é um dos fatores que tornam Praga uma das cidades mais lindas da Europa, assumindo o topo da minha lista pessoal até o momento. A cidade não foi abalada pelas duas guerras, o que a preservou demasiado – é um verdadeiro museu ao ar livre. No fim daquela tarde, o francês veio me convidar para sairmos. Ainda abalado pela noite extrema, neguei instantaneamente, dando uma desculpa qualquer sobre estar cansado e levemente doente. Ele insistiu um pouquinho, mas viu que eu não iria mudar de posicionamento. Portanto, partiu só, depois de buscar pelo egípcio sem sucesso. O Ray apareceu algumas horas depois, vendo-me na sala. Perguntou pelo Romain, tendo eu dito que não sabia, mas que havia me convidado para dar uma volta e que estava procurando por ele. Pouco depois de procura-lo pelo hostel, concluiu que ele havia saído e começou a me incomodar para sairmos. Eu dei a mesma desculpa, mas dessa vez não funcionou: o cara usou de todos os argumentos possíveis, incluindo o fato de ele não poder sair assim no país dele, tendo que aproveitar o máximo possível, e que seria muito melhor sair com um amigo do que sozinho. Acabei aceitando, e fomos num lugar logo abaixo do hostel, sobre o qual ele “havia se informado na rua”. Nossa aventura noturna foi um fracasso memorável. Acabamos indo mais tarde num outro bar, tendo ele me pagado umas cervejas para “compensar”, a despeito de eu não ter pedido nem cobrado nada. Combinamos de não contar ao Romain, já que este não estava lá, mas mais tarde acabaríamos jogando essa combinação no lixo. Nesta noite, Ray me contou muitas coisas sobre a cultura do Egito. A verdade é que ele parece tão ou mais brasileiro quanto eu, física e até psicologicamente; sendo assim, lhe dói admitir o atraso cultural em alguns aspectos, principalmente referindo-se à sexualidade e à vida pessoal dos egípcios. Disse que perdeu a virgindade com uma americana que fazia um intercâmbio lá, porque se uma egípcia inventar de transar antes do casamento, ninguém vai jamais aceitar o matrimônio. Disse que já teve uma namorada lá, mas que ela queria noivar e casar muito logo, tendo ele concluído (ao meu ver corretamente) que era muito novo. Na noite anterior, já nos havia dito que participou da revolução que teve recentemente para mudar o governo, e mostrou os pelos do braço arrepiados ao contar que um cara a menos de 50cm dele levou um tiro na cabeça. Nessa segunda noite, disse-me que não adiantou tanto a mudança de governo, pois este ainda é muito fechado, tendo proibido as pessoas de irem à praia (ou algo semelhante envolvendo este ambiente). Ele pareceu indignadíssimo perante tais afirmações, e eu finalmente entendi por que ele se sentia tão livre em Praga.
No dia 31 de janeiro, bateu um leve abatimento, o que me fez voltar ao hostel e ficar um tempo a lagartear no quarto, acompanhado de minha escaleta melódica, de um caderninho e de uma caneta berlinense. Depois do revigoramento, bateram na minha porta. Abri. Para a minha surpresa, eram os dois. “Lucá (como me chamava o francês), vamos sair hoje, né? Conforme o combinado! Te esperamos ali embaixo; te arruma rápido, tu não é gay nem nada. Pelo menos eu ACHO”. Depois de dizer uns dos poucos palavrões em francês que eu sei, arrumei-me rapidamente e fui com eles. No quarto do Ray, havia uma costarriquenha, a qual convidamos para ir conosco. Na mesma hora, passou-me pela cabeça fazer com que o egípcio ficasse com ela. “Esse cara precisa saber o que é uma latina”.
Fomos os quatro jantar um peixe empanado num lugar. Eu não sou muito chegado a peixe, mas acabei comendo socialmente, até porque parecia a coisa menos insalubre do cardápio. Neste momento, gravei um vídeo deles declarando algo em seus idiomas. Foi aí que percebi o quanto o francês, Romain, era sensível. Que era depressivo, já sabia desde a primeira noite – basta uma conversa e uma análise rápida. Mas o cara declarou-se absolutamente grato por ter tido a sorte de encontrar amigos assim num lugar tão distante e improvável, tendo-nos agradecido muito por ter podido passar conosco seu aniversário, já que achava que o passaria só. Todos na mesa ficaram um tanto emocionados. O Ray completou dizendo que nunca havia feito tão bons amigos em tão pouco tempo, e que deveríamos aproveitar essas noites como se fossem as últimas. Eu lhes disse a verdade: que os conhecer foi revigorante, especialmente num momento em que eu já estava cansado, abatido e com saudades de casa. Brindamos algumas vezes e fomos os quatro fazer um Pubcrawl.
No primeiro bar, podíamos beber o quanto conseguíssemos. Mas as experiências com destilados nas noites anteriores me haviam calejado o bastante, e optei por moderar. O bar era uma masmorra, cheia de corredores pequenos, estilo cavernas, e pouquíssimo iluminado. O barman também se chamava Lucas, mas era tcheco. Por conta disso, preparou-nos um drink especial com alguma bebida que nunca tínhamos visto, escura e mal cheirosa; não fosse o bastante, tinha um gosto terrível. Não consegui evitar o comentário: “it tastes like sh*t, man!”, disse ao Romain, tendo ele me respondido: “you know why?... because it IS”. Esse humor francês me agrada de alguma maneira, e foi aproveitando isso que lhes ensinei uma música para cantar para o trote da matrícula. Não demorou cinco minutos para que o Romain aprendesse, mas o Ray levou um tempão; claramente atribui-se isso ao fato de que sua língua mãe é... árabe. A costarriquenha também pegou meio rápido, e, em pouco tempo, estávamos cantando todos:
“Chora bixarada, bixarada chora! Chora bixarada que chegou a tua hora!”
Para a minha tristeza, porém, creio que não chegará a tempo para a matrícula, esses outros três vídeos que gravei nessa noite. Mas valeu a recordação.
Logo conheci dois paulistas e duas gaúchas bem bonitas. Foi muito bom ouvir aquele sotaque exageradíssimo de guria porto-alegrense depois de mais de um mês longe de casa. Elas se misturariam, como quase todas as gaúchas, com o povo de qualquer país daquele continente sem grandes dificuldades; mas o jeito aberto, a liberdade e a disposição não negavam a nacionalidade.
Fomos até um pub avermelhado onde, depois de beber um pouco demais, o pessoal começou a dançar enlouquecidamente, e então fez-se um círculo no meio do qual cada um deveria se apresentar de alguma forma dançante. Eu estava quase indo embora quando me forçaram a ir; sem opção – e para não ficar por baixo –, mostrei meus frágeis dotes de break music plantando bananeira e dando um “macaquinho” para frente, o que fez o pessoal delirar por algum motivo inexplicável. Abriram um círculo maior ainda e mandaram eu repetir isso. Envergonhado, fiz mais uma vez e tentei me afastar, tendo então vindo um dos paulistas até mim: “meu, você luta capoeira?”, e eu: “não...”. Ele não ficou satisfeito: “luta sim, vem cá!” e, quando olhei ao meu redor, estava junto do paulista num círculo único que já envolvia a festa toda. Dei uma que outra enrolada e passei para um loiro que estava na espreita, louco para entrar. O cara deu de dez em todos nós. Mais tarde, descobrimos que ele é holandês, mas viveu no nordeste e se casou com uma pernambucana.
Depois desse episódio atípico, fomos para o que considerei o melhor pub em que já estive. Por nada, senão as músicas. Tocou de Hard ’80 a Rammstein, passando por diversas idades rockeiras, como Ramones, Beatles, etc. Apesar de passar o resto da noite sentado numa mesa circular com o francês, o egípcio e sua ficante da noite costa-riquenha, diverti-me como nunca. Não entendi no momento por que o casal latino-faraônico quis ir embora (agora está um tanto mais claro...), mas convenci o francês Romain a ficar mais um pouco no pub. Mais tarde, voltamos ao hostel os dois, mas paramos em uma pizzaria noturna perto para o que seria uma das conversas mais significativas da minha existência.
Ele quis me pagar uma pizza. Eu o mandei se calar e disse que parasse com essa mania de burguês. Ele me explicara, pois, o motivo de agir assim. Ele vê nos amigos a força que precisa para seguir em frente sua vida que, segundo considera, é incompleta. E que acaba os tratando como irmãos, querendo pagar tudo, defendê-los de tudo, agradá-los sempre. Quando o perguntei se ele se conformava com sua existência, respondeu-me:
“É preciso ser sozinho para amar alguém, Lucá. É preciso ser triste para ser feliz. No entanto, o mais difícil mesmo é ser equilibrado. E isso – fez menção à nota que eu tomava no meu celular sobre suas palavras –, isso tu podes anotar”.
Fomos ao hostel num clima depressivo bizarro. Sentamos na sala comum por volta das quatro ou cinco da madrugada e não saímos de lá antes dos primeiros raios de sol surgirem.
Ele me contou a história de amor mais tocante que já ouvi, mas por respeito a ele, resumi-la-ei: sua primeira grande paixão fora correspondida por anos; um dia, ela precisou viajar para a Austrália, e, sem saber por quê, ele decidiu terminar. Ela ficou arrasada, mas ele não voltou atrás. Os detalhes que seguiram foram uma mistura de sofrimento e esperança… O fato ocorrera havia seis anos, e ela ainda o procura até hoje – fato que pude constatar eu mesmo mais de uma vez. Ele diz que não tem mais dúvidas de que sempre gostou dela, “e que isso não mudará”.
- E por que tu não corre atrás dela e diz isso, rapaz?
- É muito complicado, Lucá.
- Complicado? É a tua felicidade que tá em jogo!
- Não é tão simples...
- Cara, não perde tempo, a vida é só uma... liga pra ela agora e diz que tu ainda...
- Ela tá grávida do novo marido, Lucá.
Os momentos de silêncio que seguiram completaram o clima de filme no qual já estávamos inseridos havia muito tempo.
Ele perguntou um pouco sobre a minha vida, mas até eu mesmo sentia sua dor maior do que qualquer que eu o pudesse apresentar até então.
Fomos dormir.
No dia seguinte, encontrei o Ray na sala comum. A primeira pergunta que fiz foi a que qualquer cara faria no meu lugar.
- Hum... eu ACHO que sim.
Olhei incrédulo para ele.
- Como assim ACHA?
- Cara, desculpa te decepcionar, mas eu não lembro de novo!
Ri tanto que perdi o fôlego.
- E então por que tu ACHA?
- Porque ela acordou do meu lado!
- Legal. Eu te descolo uma latina pela primeira vez na vida e tu simplesmente NÃO LEMBRA.
Ele só riu. Repito: o Ray é um dos caras mais engraçados que já conheci. A gente brincava com ele porque, mais de uma vez, após perder a noção da vida, surgira mais de um papelzinho com números de telefone no seu bolso (costume do local), os quais ele só encontrava ao acordar. Além disso, relatou uma dor no joelho que, obviamente, não se recorda como surgiu. É óbvio que fizemos muita graça em cima dessa suposta dor no joelho e a conveniência de “não lembrar dela”.
Naquela noite, a que seria a minha última, o Romain havia chegado com seu amigo de colegial, o Hugo – outra figura. O Hugo lembra o John Lenon: barbudo, alto, magricela, calmo, usa óculos e é muito estranho e bem humorado ao mesmo tempo. Ele fechou o quarteto que marcou minha viagem, e, segundo ele mesmo, “Lucá, foi uma pena não termos nos conhecido antes”. A mais pura verdade.
As saídas com eles que eu procurava evitar no início, agora eram a parte mais esperada do meu dia. A ideia dessa vez partiu do Ray: façamos o segundo pubcrawl oferecido. Fomos jantar, os quatro, no lugar das dançarinas tchecas (da primeira noite). Após, o Romain inventou de levar o Hugo para ver a ponte de Praga. O frio estava absurdo (abaixo de dez graus negativos), então combinamos (eu e Ray) de voltarmos até o hostel e esperar por eles lá. Nesse caminho é que o Ray me contou mais sobre os costumes egípcios.
Olhando de fora, como já disse, o cara parece um brasileiro. Conversando com ele, não fosse pelo inglês, também aparenta ser brasileiro. Ele não é religioso, bebe, fuma, ri, é relativamente mulherengo, é humilde e tem um coração boníssimo. Não que pessoas assim não existam no Egito (na verdade, só conheço ele de lá), mas que ele poderia se passar por um latino, poderia. No entanto, explicou-me como o governo lá é fechado, e que o pós-revolução também não é muito diferente; deu-me uma aula sobre a sexualidade das mulheres de lá, e como elas realmente se preservam para o futuro marido, independente de quantos rapazes namoraram durante a vida. Disse que namorou uma menina por mais de um ano e que nunca a tocou de forma alguma, senão alguns beijos; disse-me que seu amigo foi preso por beijar sua namorada na rua, entre outros relatos que me fizeram querer levar o cara para o Brasil.
Chegamos no hostel e aguardamos; os outros dois nem demoraram muito. Fomos em direção ao pubcrawl, com a condição de que eles não se oporiam ao fato de que eu sairia bem mais cedo, tendo em vista o horário que deveria acordar na manhã seguinte para rumar a Viena. A piada do caminho foi feita pelo Ray, e se baseava num árabe que fora condenado à morte por americanos, tendo ele se exaltado: “Prestem atenção, vocês não podem me matar. Só EU me mato!”. Chegamos num bar onde havia um pebolim; para quê? Gastamos todas as nossas moedas naquilo. Principalmente depois da provocação dos dois franceses, que cantaram alguma musiquinha referente aos 3x0 da copa. Formei um time com o Ray, e foi quando a célebre frase fora proferida: “Olha aqui, Lucas. Se a gente perder, eu me explodo e tu rouba eles depois!”. Ainda bem que não perdemos, o que me levou a crer que era mais uma piada do árabe bem-humorado. Mais tarde, porém, a surpresa: uma guria bêbada do bar abrira uma garrafa de cerveja com uma violência tamanha, que respingou na mesa, no chão e, para o meu pavor, na cabeça do Ray. Ele parou de jogar no ato. Abriu a boca com uma expressão de ódio e franziu a testa, olhando para si mesmo e para a jovem e ousada garçonete, que sequer notara. Quando ele foi tirar satisfações para cima dela, seguramos e tentamos acalmá-lo. “Agora ele vai se explodir de verdade”, pensei. Mas…
Cinco minutos depois, ele dava em cima dela sentado no banco do bar. Pouco depois, serviram-nos um drink grátis, tendo todos nós bebido sem nem cogitar. O gosto era bom, bem doce e não muito forte. Serviram o segundo, bebemos de novo. Quando ela foi servir o terceiro, eu vi a garrafa e quase entrei em choque: haviam minhocas dentro.
Sim, MINHOCAS. O nome da bebida era Cervovice Worm, e era feita de conserva de minhocas. Não houve jeito de eu a tomar de novo, mas o egípcio sentiu ainda mais ânimo quando soube a fonte.
De lá, fomos para o pub avermelhado de novo. Incrível como o lugar parecia outro apenas um dia após. Estava vazio, com pouco mais de uma dúzia de pessoas. Quando olhei para o lado, o Ray já estava agarrado numa russa vestida como uma funkeira. Foi quando o Romain e o Hugo vieram até mim.
- Lucá, vem com a gente.
- Quê? A gente recém chegou, cara, relaxa um pouco!
- Lucá, olha ao nosso redor, não tem ninguém, cara, essa noite tá acabada!
O barulho da música reverberada pela falta de gente tornava aquele diálogo franco muito mais difícil.
- Ah, Romain... eu vou ficar aqui mais um pouco, daqui a pouco tenho que voltar mesmo...
- Lucá, tu não tá entendendo! Eu NÃO QUERO ter que me despedir de ti aqui!
Quando finalmente compreendi, fomos até a saída. Decidi que já iria embora dali, então me despedi do Ray sem tentar atrapalhar muito. “Ok, dude, we’ll keep on touch by facebook!”, e já voltou para os braços brancos e louros da soviética.
Na porta do pub, ainda do lado de dentro, o Hugo me abraçou, dizendo que precisamos manter contato, que havia sido um prazer me conhecer e que, apesar do tempo curto, já me considerava um grande amigo. Disse-lhe palavras semelhantes. O Romain, então, botou a mão no meu ombro. “Lucá, eu não tenho o que dizer mais, senão obrigado. Tu e o Ray marcaram minha vida, e vou levar isso comigo pra sempre. Agora vou parar de falar, antes que eu chore. Vamos, Hugo, vamos lá! Boa sorte Lucá!”
Saiu enxugando os olhos. Controlando minhas emoções, peguei o mapa e saí no frio gélido da noite tcheca.
E pela primeira vez nos últimos dias, caminhei sozinho pela noite de Praga.