PS: A propósito, esqueci de dizer que não – não vendi meu matófono uruguaio de R$ 10,00 pelos R$ 150,00 oferecidos pelo venezuelano.
Dia 25/12/11: o dia em que pegamos três trens - Barcelona-Cerbere, Cerbere-Narbonne, Narbonne-Toulouse. Um dia inteiro de viagem.
Quando chegamos até a fronteira da Espanha-França (Cerbere), tivemos que esperar a pequena estação fronteiriça abrir. A predominância do francês nos avisos era clara, mas ainda havia diversas traduções para catalão. Assim que entrei na gigante fila de... três pessoas para comprar a passagem, um senhor meio atrapalhado foi o primeiro francês a falar comigo em território francês, pedindo para que eu o ajudasse, e virou seu traseiro para mim. Eu fiquei parado, quase em choque. “o que é que esse sujeito quer de mim, caramba?”, até que o ouvi dizer “não consigo pegar minha identidade”. De fato, carregava uma mochila gigante e, considerando os riscos, entreguei seu passaporte (ou seja lá o que for, nem olhei). Depois de agradecer, ficou puxando papo em espanhol, dizendo que o espanhol é lindo. Até que me perguntou de onde era, e eu disse que era brasileiro. Daí ele mostrou seus conhecimentos geográficos e disse “lá vocês falam português, não é? Porque é uma colônia de Portugal!”. Pois é – foi logo na fronteira que notei o abismo entre os ensinos de nossos países.
A educação dos funcionários e das pessoas na rua é muito, muito superior à Espanha. Até agora (já são quase três dias na França) somente uma senhora não respondeu a meus pedidos de informação, mas creio que ela era surda. Não só isso, todos estão dispostos a ajudar, desenhando até um mapa se preciso for (e foi). Na estação de Narbonne, houve a primeira dificuldade de comunicação. O problema não é não gostarem que falem inglês com eles; o problema é que de fato QUASE NINGUÉM fala inglês. Fui pedir duas torradas e uma água. Só que, em vez de pedir “de l’eau”, eu pedi “d’eau”, e ela entendeu “deux”. Isso me rendeu alguns minutos de pé tentando entender por que ela estava me dando duas águas e só uma torrada. Ainda não sei a expressão equivalente em francês para “onde foi que eu errei, meu deus?!”.
Segundo o funcionário a quem perguntamos, o trem deveria chegar à estação de Narbonne às 16:06. E sem brincadeira: às 16:06 o filho da mãe estava estacionando na estação. Iríamos nos atrasar para o check-in de Toulouse, que deveria ocorrer às 20h. Por tanto – e eu temia por isso – precisei ligar para o hostel e avisar de nosso atraso. O cara não falava inglês, e aparentemente meu francês não é bom por telefone, o que nos custou vários minutos. No fim, entendi que ele já tinha compreendido tudo, mas que não sabia como me explicar que eles sairiam da recepção às 20h e que eu precisaria ter um código para entrar no portão, e depois mais um para abrir um cofre, para então pegar uma chave e ir para um quarto chamado Copacabana. Quando ele repetiu vagarosamente essa situação e todos os códigos, tomei nota.
O frio de Toulouse estava ainda pior que Madrid, ou seja, provavelmente foi o pior da minha vida até então. No entanto, quando chegamos no hostel, havia um piano no pátio me esperando. Matei as saudades nas noites dos dias 25 e 26 (ontem). Hoje pela manhã, antes de vir para Bordeaux, ainda dei uma tocada no piano secular parisiense ao frio de provavelmente um ou dois graus. O som era fantástico.
Ao entrar na segunda porta, descobrimos que os dois donos do hostel haviam nos esperado. Na certa não confiaram na minha compreensão, mas de fato tudo estava tranquilo. O que nos recebeu nos ajudou a subir a bagagem até o segundo andar e me chamou para a recepção, onde me daria o “plan du ville” (mapa turístico). A sala parecia um escritório, e a cena que se seguiu foi a mais próxima do Poderoso Chefão que já vi na vida.
Parei na porta dessa sala, onde o cara entrou e sentou na sua cadeira. Ao lado dele, havia outra escrivaninha com um senhor de charuto na boca, vestido a rigor e que sequer levantou os olhos para mim. Depois de alguns segundos, ele levantou os olhos e disse com um ar de mafioso: “Oh, entrez!” e eu dei dois passos para dentro com um certo receio de ser contratado para um serviço, ou simplesmente eliminado. Entre as mesas, um bulldog gigante dormia num colchonete canino e nem mesmo se mexeu com a minha presença. Ainda sem olhar diretamente para mim, o mafioso apontou uma caixa repleta de chocolates caros e disse secamente “prenez un bonbon”. Eu ia dizer que não, mas achei muito mais fácil pegar um e dizer “merci” do que dar uma desculpa em francês sob pressão psicológica. O seu acessor me ensinou a andar na cidade (basicamente são quatro pontos turísticos), e fiquei muito satisfeito quando “fui liberado”. Não tendo levado tiro algum pelas costas, segui para o quarto. O banho era dentro do quarto, E SEM BOTÕES! Tomei um senhor banho, compensando todos os dias de agonia em que a água durava 30s por pressionada.
Toulouse é bonita. É claro que estava deserta no domingo de noite, ainda mais no inverno e na parte histórica. Achamos um lugar árabe para comer (há muitos lá também).
No dia seguinte (26/12), saímos para explorar a cidade. Notamos que ela não é tão deserta, tendo por volta de 400 mil pessoas. Foi preciso parar na farmácia para comprar outra faixa para os pés, mas sem meu dicionário de francês (que inteligentemente enfiei na máquina de lavar em Madrid), eu estava muito apavorado, sem lembrar como era “faixa”. Lembro que na Espanha foi dificílimo já, porque a mulher tampouco falava inglês, tendo eu que fazer um teatro médico para que me entendesse. No entanto, a simpaticíssima farmacêutica francesa (e muito bonita, diga-se de passagem) foi totalmente atenciosa e entendeu de primeira quando pedi, e além disso ainda me passou o nome francês do produto para que eu pudesse comprá-lo posteriormente. Saí de lá incrédulo com a educação desse povo franco-sulino. Logo em frente à farmácia, um senhor nos ajudou com explicações detalhadas sobre como tomar o metrô. Vimos os poucos pontos turísticos de Toulouse após alugar um carro (dica do último hostel, em Barcelona, sobre custo-benefício em território francês). Não foi fácil conseguir alugar, principalmente porque eu havia esquecido como era “devolver” em francês. E até ela entender que queríamos devolver o carro só em Paris levou algum tempo, mas tudo acabou bem. Quando chegamos até o estacionamento para buscá-lo, um casal francês veio me pedir informações. E (estranhamente) eu consegui lhes ajudar.
Fomos até os Jardins japoneses. Nada demais – até a redenção pode ser mais interessante, não querendo exagerar. A única coisa legal de lá é que eles dão sacolinhas para que tu limpes a sujeira do teu cão.
Devido ao engrossamento do frio, foi preciso que eu comprasse uma calça. Entrei sozinho na loja (a mesma loja espanhola) e de cara vi uma calça boa e barata, dupla e com um tecido bem bom. O problema é que era M, mas estranhamente apertava minha cintura (e meu músculo glúteo máximo) enquanto ultrapassava o limite de comprimento das minhas pernas. Achei que o segundo problema era menos adaptável, então pedi ajuda para uma atendente. A francesa olhou para mim quando perguntei se havia um tamanho menor com certo receio, mas depois de hesitar, falou: “c’est pour vous?” (é para ti?), e eu disse que sim. Aí ela concordou apressadamente e foi procurar um tamanho menor para mim… mas meio confusa por algum motivo inexplicável. Quando ela viu que não tinha menor e contou-me, fiquei desolado. “Não tem nenhuma outra calça nesse estilo?” e ela respondeu “tem sim, senhor… mas… é que…”, e eu “oui?”;
- C’est pour femmes...
Fiquei naturalmente envergonhado quando entendi o motivo de tanta hesitação. A calça era feminina. Mas realmente não parecia! Talvez pela cor bege, mas ainda assim, nunca vi calças de inverno europeu, achei que fosse assim mesmo. Enfim, quando expliquei que se tratava de uma confusão, ela me levou até a área masculina, e tudo se ajeitou. Quando saí do provador, ela ainda se sentiu à vontade para me gozar: “essa ficou melhor?”. Não sabia como era “engraçadinha” em francês.
Mas agora sei. Achamos um dicionário Francês-Brasileiro (sim, brasileiro). Parece que tudo passou a fazer sentido depois desse pequeno livro me acompanhar a todo lado. Não vou ao banheiro sem ele. Toulousse tem uma feira muito interessante dentro de uma praça muito medieval, ao mesmo estilo da de Madri. Comemos o famoso crepe de chocolate, que não pareceu nada demais; vi um dog alemão revoltado tentando assumir o controle da própria guia, o que preocupou a dona um pouco. Tentei filmar isso discretamente, um dia me cobrem.
Na manhã seguinte (ontem, 27/12), depois de me despedir do piano sob o frio congelante de Toulouse, pegamos o carro e seguimos até Bordeaux. A ideia de cancelar a ida a Carcassone aparentemente foi a melhor que já tive até o presente momento durante a viagem. É provável que nunca saibamos como é essa cidadela da era pré-cristã, mas ir até lá, voltar a Toulouse e só então ir a Bordeaux (chegando de noite para partir de manhã para Paris) nos pareceu algo sem sentido. Durante o caminho, havia um pedágio sem ninguém para nos atender. Quando causamos uma fila razoável de carros atrás de nós sem entender o que diabos estávamos esperando, um cara saiu do carro e veio nos dizer que era só pegar o ticket da máquina. Quando o fizemos, nossa passagem foi liberada gratuitamente. Era o que pensávamos, é claro; no próximo pedágio, entregamos esse ticket para uma moça e efetuamos o pagamento.
Já perceberam que fomos direto a Bordeaux, e vos digo: foi a cidade mais bonita e agradável que já estive até hoje. Logo na entrada, centenas de prédios antigos de mesma cor e de mesmo estilo renascentista (amarelados, com janelas gigantes e oponentes). Ao lado oposto da estrada, um rio deslumbrante, e entre a estrada e o rio, jardins muito bem cuidados repletos de flores e vegetações exóticas, que sinceramente não entendo como é preservado no inverno, além de um espelho d’água de menos de 5cm de profundidade que combinou de uma forma inexplicável com o porto. Entre as duas mãos da estrada, trilhos de um metrô de superfície ultramoderno, tão bonito quanto o Renfe que pegamos de Madri a Barcelona, ou mais. Pontes, navios e torres antigas faziam parte da paisagem que me cercava quando tive o seguinte pensamento: “esse lugar daria fotos extraordinárias em um ângulo de 360 graus”. Deixamos o carro numa garagem e pegamos o trem que passava logo em frente ao local em que ficamos. Era esse mesmo metrô superficial e confortável, que nos levou ao cais de novo. Quando vi que entramos sem pagar, fiquei maravilhado como podia um sistema de transporte público de tamanha qualidade ser gratuito. Pouco depois, entendi que era preciso comprar o bilhete numa estação com antecedência (...). De qualquer forma, foi gratuito para nós.
Entrando mais na cidade, achei jogos de ps3 por 10 euros. Jantamos num lugar italiano e não provamos o vinho de Bordeaux (erro imperdoável). No lugar disso, tomei uma Heineken (outro erro imperdoável). Mas aparentemente o gosto dela é melhor aqui (se não for mais um erro imperdoável). Tentamos perguntar à italiana como fazer para comprar o ticket, mas ela disse que valia mais a pena não pagar. Antes de entrar nele, ainda perguntei para um outro cara como se fazia, mas notei que ele não entendia muito o que eu falava… daí pedi desculpas pelo meu francês, e ele disse “tudo bem, eu também não falo francês muito bem”. Perguntei de onde era: Moldávia (abaixo da Ucrânia e acima da Romênia, leste europeu). Não falava inglês, mas acabamos nos entendendo num francês lento. Ele nos disse para não pagar também, e então não pagamos.
Pela noite, cedi-me bastante tempo para atualizar as postagens e passar algumas fotos, aproveitando a internet melhorzinha da recepção em Bordeaux. Após as atualizações e uma conversa extensa e delicada, saí (por volta das 2h40min) pelas redondezas. Dei umas voltas nos quarteirões da cercania, sem casaco, respirando pela boca e sentindo o gosto da umidade condensada e gélida de Bordeaux.
Pela manhã, viemos em direção a Paris, viagem que para mim durou pouco mais de uma hora (não vim de avião, mas dormi no carro). Os dois pedágios foram assustadores. Alguém já cogitou pagar R$ 90,00 no primeiro e R$ 64,00 no segundo pedágio? Nem nós. Mas quem utiliza a estrada sul-norte francesa, entende por que eles cobram esse preço.
No momento estamos adentrando a cidade de Paris. As buzinas já começaram, a confusão da cidade grande já está visível e nossa busca pelo hostel está aparentemente controlada. Chegando ao momento presente, e não podendo adivinhar o futuro, cesso aqui meu post e o publico em alguns minutos. Au revoir!