EuroTri
Do dia 15-12-2011 a 1-3-2012, se tudo der certo, hei de postar aqui alguns detalhes da viagem ao velho mundo, servindo de apoio para quem desejar fazer o mesmo e principalmente de diário, para que eu mesmo não me esqueça das maravilhas dessa aventura.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
AVISO AOS AMIGOS LEITORES:
Após um longo período afastado, volto a reescrever os relatos lentamente, muito embora, infelizmente, eu tenha perdido todas as minhas anotações a partir de Praga, tendo que relembrar de forma milagrosa o que ocorreu nas seguintes cidades:
viena
bratislava
munique
londres
zurique
interlaken
rennes
veneza florença
pisa
roma
Portanto, o que seguirá aqui será um híbrido de minha memória falha, as memórias de Liliane e um ou outro trecho que eu já havia escrito naquela época, mas não havia postado por respeito à ordem cronológica. É fato que o relato não será mais tão minucioso e completo, mas farei o possível para lembrar-me do máximo possível.
Amargurado, termino o comunicado.
Abraços,
Lucas
domingo, 4 de março de 2012
Praga - o Leste, o Frio e os Amigos para a Vida Toda
Chegamos em Praga - República Tcheca - no dia 29 de janeiro, domingo. O trem era tão confortável que as cadeiras opostas uniam-se, virando uma cama improvisada mais do que suficiente para que eu não visse nada da viagem.
Descemos na estação errada, mas pegamos um táxi até o hostel. O taxista não falava inglês direito, mas nos “comunicamos” em um alemão neandertal. O cara era fanático por futebol, e quando soube que éramos brasileiros, nos mostrou um cartãozinho que ele guarda com orgulho de uma partida do Botafogo contra o Vasco, se não me engano, presente de um brasileiro há mais ou menos uma década. Ele me recitou a escalação do Brasil dos anos 70, um por um. Vibrava com uma mão enquanto dizia palavras do tipo “hier, kalt! Brazil, warm!!! Carnaval!!! SAMBA!!!”. Esses estereótipos são um tanto ignorantes, porém nos fazem rir quando vêm de um velho tcheco que nunca deve ter visto uma mulata na vida. O frio absurdo da cidade era de -15, mais ou menos, e o cara não usava luvas. No hostel, fomos maltratados pelo japonês da recepção, a ponto de eu quase discutir com o infeliz. Almoçamos num restaurante ao lado do hostel, comida típica tcheca. Pela primeira vez, eu não sabia sequer UMA palavra no idioma local, o que me deixou muito frustrado; em questão de tempo, aprendi “oi”, “tchau” e “obrigado”, mas já esqueci. No restaurante, resolvi experimentar o sal que havia no potinho. Não tinha como não ser sal. Mas não era sal. Era uma pimenta com um gosto terrível – sem dúvida a pior experiência gastronômica que eu já tive em minha breve existência. Estraguei a comida toda, já que pensei que era sal e espalhei por quase todo o prato. A tcheca do restaurante era uma loira de beleza exuberante.
Demos uma volta na old town square, vimos o relógio astronômico – que a cada batida de hora oferece um showzinho de fantoches robóticos junto de um sujeito vestido a caráter tocando numa corneta uma música muito característica, que ainda não saiu da minha cabeça (e dificilmente sairá). Uma pequena multidão aguarda ansiosa sempre que se aproxima da próxima hora. Por causa do frio, voltamos ao hostel. Desci com o computador até a sala comum, onde já havia um sujeito meio moreno falando no telefone uma língua absolutamente incompreensível; “tudo bem, eu já estou conformado”, era meu pensamento. Não quis nem arriscar sua nacionalidade. Estávamos cada um em um sofá: eu no da direita e ele no da esquerda. Logo, chegou um terceiro cara e sentou entre nós, no sofá da esquerda, puxando um livro. O mais moreno, ainda no telefone, começou a fazer um barulho irritante com os dedos, batendo-os contra o aparelho. Eu, naturalmente, procurei ignorar; entretanto, o leitor olhou para ele e fez um sinal, pedindo que parasse. E funcionou, tendo ele pedido desculpas.
Quando desligou o telefone, olhou para o leitor e pediu desculpas novamente em inglês, tendo aquele respondido que tudo bem, também se desculpando. Depois desse “joguinho de comadres”, perguntou ao outro que livro era aquele, tendo eles começado uma conversa que eu, estando ao lado, inevitavelmente ouvi. Se apresentaram; o leitor era francês, e o moreno era egípcio, sendo a língua que falava no telefone (mais tarde soube que era Skype) simplesmente árabe (!). Mais tarde eu aprenderia várias frases em árabe, como “vou transar com sua mãe assim como um camelo”, “vai se f*der”, “saúde!” e “olá, eu sou um francês viado” (tendo eu feito o francês repetir essa alguns dias depois sem ele saber o significado, é claro). Logo que o Romain disse ser francês, o egípcio Ragaai (que se apresentou como Ray) perguntou se ele sabia daquela política francesa que faz campanha nua nas ruas, uma tal de Cyndi Lee (corrijam-me, por favor). Eu já havia ouvido falar, mas o Romain não (mesmo sendo francês), e, buscando apoio em mim, o egípcio perguntou se eu conhecia. Apresentei-me, pois, conforme me agregaram à conversa. O Romain ficou surpreso quando disse que falava francês, tendo-me feito praticar o resto dos dias; devo muito a ele por isso – principalmente por um episódio de Bratislava mais tarde que também ficará muito vivo em minha memória. Aliás, devo muito a esses dois novos grandes amigos que, sem saber, estava fazendo no momento. Devo a eles todos os vídeos que tenho comigo dessa viagem; mas isso é assunto para mais tarde. Conversamos um pouco, tendo-lhes mostrado o comercial egípcio do Panda – muito engraçado e recomendado a quem ainda não viu; a frase é “nunca diga não ao panda”. O egípcio não conhecia a propaganda, mas sim o produto. Rimos bastante, e logo depois o Romain (sempre ele) sugeriu: “e aí caras, vamos tomar uma cerveja ou não?”.
Tomei um banho e desci. O Ray ainda não havia descido, mas o Romain já estava lá. Este francês é um cara muito complicado. Logo de início, eu tive até certo receio e desconfiança, pois nota-se de longe que ele é dono de uma carga psicológica pesada. Com o tempo, porém, pode-se tê-lo como um grandessíssimo amigo, o que de fato já é. Mas logicamente eu não sabia disso até o momento. Conversamos em francês lá embaixo, tendo eu travado bastante, uma vez que era a primeira oportunidade na qual eu teria um diálogo longo na língua, ainda mais depois de várias semanas longe da França. Ainda assim, o cara foi paciente e elogiou bastante, motivando-me; o fato de ele falar inglês fluente (algo raro a essa nacionalidade) ajudou bastante a comunicação. Disse-me que também falava grego, devido a uma ascendência cipriana. Assim que o egípcio Ray apareceu, fomos a um bar, levados pelo Romain. “Esse é um bar especial. Vocês entenderão”. Eu imaginei centenas de interpretações para “especial”, mas jamais me passou pela cabeça que, ao som de uma panelada, veria cinco meninas tchecas subirem no balcão de shortinho e mini blusa dançando sensualmente por uns quinze minutos. Enquanto os dois fumavam e bebiam suas cervejas, eu comia uma carne generosa, pois não havia jantado. Confesso que fiquei boquiaberto quando vi o espetáculo, e nem preciso dizer a expressão do egípcio (onde ainda não se faz sexo antes do casamento). Quando o Romain viu nossa reação, disse: “isso aqui, caras... isso aqui não é NADA”. Eu não tinha conseguido captar a mensagem que ele tentou nos passar mais de uma vez ao longo dessa noite. Depois do show, continuamos bebendo e comendo e conversando. Descobri que o egípcio Ray (19 anos) estuda alguma engenharia, se não me engano; que o francês Romain (25 anos até aquela hora) começara a fazer medicina na França, mas que agora fazia computação. Disse-me que, para cursar medicina, basta inscrever-se, mas que ao final do primeiro ano de faculdade há uma seleção radicalíssima, onde só uma porcentagem ínfima de alunos consegue prosseguir. Não sendo um desses, resolveu fazer computação. Também descobrimos que era a véspera de seu aniversário, o qual aconteceria em menos de uma hora. Demos os parabéns antecipados. Nessa hora já estávamos levantando.
- Caras, não precisam me dar os parabéns agora. Basta que comemorem comigo. Não perguntem, só vamos.
- Ótimo – disse eu astutamente –, deverias ter dito isso ao Ray antes, porque eu vi que tinham três meninas no quarto dele.
- AH, nem vem, elas já tinham planos pra hoje à noite, eu as convidei! – defendeu-se o Ray.
- Calma, caras. No lugar aonde vamos hoje, essas meninas não iam ser bem-vindas.
Eu e o Ray nos olhamos assustados. Claramente pensamos a mesma coisa: “esse cara é gay”. E claramente concluímos a mesma coisa: “nós somos dois, estamos a salvos”. Não demorou muito para que virássemos a esquina, víssemos um ambiente chamativo e o Romain nos alertasse: “agora, sim, vocês vão conhecer as mulheres mais atraentes de suas vidas”.
Eu confesso que fiquei receoso. Jamais havia entrado em um lugar do gênero, nem mesmo em Porto Alegre. Não me atraem, simplesmente, ambientes deste âmbito, e só a ideia de pagar para ter sexo já me causa certa indignação – sem contar a degradação da imagem da mulher, a banalização do caráter e da intimidade humana, a barbárie que é o tráfico do próprio corpo… ideias nada excitantes para alguém com neurônios em funcionamento. Todavia, o argumento do cara era difícil de rebater: “vou passar meu aniversário sozinho, se não vierem comigo”. Obviamente ele não disse com essas palavras, mas ficou bem claro que seríamos responsáveis por isso, caso não entrássemos nesse que era o “melhor bordel de Praga”. Isso era um dilema só para mim – o egípcio já estaria lá dentro se dependesse dele. Veio um velho argentino ter conosco na rua enquanto decidíamos. Ele queria que fôssemos justamente neste lugar, tendo perguntado de onde era e logo em seguida puxando um português com um sotaque convincente. “Como tu aprendeste português?”, perguntei, tendo ele dito: “morei no Rio. EU morei em vários lugares... eu falo muitas línguas!”. “Quantas?”.
Ele disse que falava simplesmente QUATORZE línguas. Não acreditei no momento, até que chegou e egípcio ao meu lado para verificar se o velho não estaria me assaltando, e, neste momento, o argentino desgraçado começou a falar com ele em ÁRABE.
Conquanto ainda bem contrariado, fora a gota d’água: acabei entrando.
A coisa lá é bem disfarçada: elas parecem muito felizes. Dançavam nuas e seminuas em um palco, revezando-se entre três andares diversas moças de várias nacionalidades – especialmente russas, tchecas, eslovacas e uma americana perdida lá no meio. Confesso que eram mulheres sexualmente muito atraentes, mas para mim não passavam disso. Dias mais tarde, descobriria que para o Romain tampouco. Sem nós percebermos, ele pagou vários Redbulls e uma garrafa de Absolute (o que, acreditem, custou quase um salário mínimo no Brasil). Quando quisemos dividir, ele se opôs mortalmente, dizendo que ele nos tinha trazido ali, que era aniversário dele, etc. O Romain é aquele tipo de europeu pomposo, educadíssimo e cheio de frescuras, querendo pagar tudo aos amigos, agradar a todos sem jamais perder a pose de “cavalheiro românico”. Ele é mais baixo que eu, e aparenta ter uma experiência de vida interessante – o que descobri através das conversas nos dias seguintes. Enquanto eu discordava disso também, tentando repartir o valor, Ray já estava sentado abaixo do palco babando pela americana. Ao longo da noite, ele implorava a ela para que pudesse tocar ao menos em sua perna. Esse egípcio é um das caras mais engraçados que já conheci na minha vida.
Não demora muito para que, após os shows, as prostitutas te procurem. Sentam ao seu lado e começam a conversar, supersimpáticas, agradáveis e, obviamente, falsas. Poucos minutos após, chega uma garçonete (sempre ao mesmo nível de beleza das outras meninas) e oferece para que tu pagues um drink à moça. Na primeira vez que isso aconteceu, o francês havia ido ao banheiro, então pensei “poxa, como vou dizer não? A mulher tá aqui do lado, ouvindo tudo...”, e olhei para o Egípcio. Ele sabia menos ainda o que fazer. Eu pensei “ok, só um drink então”, e olhei o valor. Era algo astronômico, como R$ 60,00. Disse não na mesma hora que fiz o cálculo mental, e a mulher levantou decepcionadíssima. Quando o francês voltou, expus-lhe a situação. Não sei como funciona no Brasil, mas senti-me um inexperiente ao ter-me ele contado que elas ganham uma comissão a cada drink comprado, e que eu fiz bem em não pagar – estávamos ali pelo aniversário, e basta. Pouco mais confortável, sentei de novo. Conforme fomos brindando (franceses gostam muito de brindar), o absolute começou a fazer efeito e eu decidi parar antes que o local e a bebida me persuadissem a fazer algo censurável. O egípcio Ray havia bebido uma quantidade ainda inferior à nossa, mas, por total falta de experiência, acabou ficando totalmente louco. Contou-nos que, no Egito, é praticamente proibido beber, exceto em quatro bares especiais em Cairo – para uma população de oito milhões de pessoas. Ou seja, ele aproveita o resto o mundo mais ou menos como o resto do mundo aproveita Amsterdã. O problema é este: ele fica facilmente alterado. Nem percebemos quando ele se levantou e... sumiu o resto da noite.
Esperamos por mais de uma hora até que ele voltasse. Eu e Romain procuramos o egípcio por todo canto, todos os banheiros, todos os palcos, todos os andares. Nada. E o rapaz ainda deixou a jaqueta com a gente! Fazia um frio de -15 a essa hora da madrugada, quando resolvemos que não tinha o que fazer. Peguei a jaqueta do guri e levei comigo até o hostel. No caminho, o francês – também bem mais feliz – ria muito enquanto discutíamos sobre a brincadeira do “Is this hotdog good? Then why are you selling it?”, algo que parecia muito engraçado àquela altura, de fato.
Na manhã seguinte, o egípcio entrou no meu quarto. Acordei com ele conversando e rindo com a Liliane, enquanto eu devolvia a jaqueta a ele.
- Onde tu te meteu, cara?
- Eu não lembro!
- Meu Deus, como tu achou o hostel?
- Não faço a menor ideia, eu nem sabia como voltar!
Enfim, esse tipo de mistério viria a se tornar comum nas noites seguintes.
Na tarde desse dia 30, fomos à famosa ponte de Praga, a qual possui alguns vários séculos de idade. A vista dela é um dos fatores que tornam Praga uma das cidades mais lindas da Europa, assumindo o topo da minha lista pessoal até o momento. A cidade não foi abalada pelas duas guerras, o que a preservou demasiado – é um verdadeiro museu ao ar livre. No fim daquela tarde, o francês veio me convidar para sairmos. Ainda abalado pela noite extrema, neguei instantaneamente, dando uma desculpa qualquer sobre estar cansado e levemente doente. Ele insistiu um pouquinho, mas viu que eu não iria mudar de posicionamento. Portanto, partiu só, depois de buscar pelo egípcio sem sucesso. O Ray apareceu algumas horas depois, vendo-me na sala. Perguntou pelo Romain, tendo eu dito que não sabia, mas que havia me convidado para dar uma volta e que estava procurando por ele. Pouco depois de procura-lo pelo hostel, concluiu que ele havia saído e começou a me incomodar para sairmos. Eu dei a mesma desculpa, mas dessa vez não funcionou: o cara usou de todos os argumentos possíveis, incluindo o fato de ele não poder sair assim no país dele, tendo que aproveitar o máximo possível, e que seria muito melhor sair com um amigo do que sozinho. Acabei aceitando, e fomos num lugar logo abaixo do hostel, sobre o qual ele “havia se informado na rua”. Nossa aventura noturna foi um fracasso memorável. Acabamos indo mais tarde num outro bar, tendo ele me pagado umas cervejas para “compensar”, a despeito de eu não ter pedido nem cobrado nada. Combinamos de não contar ao Romain, já que este não estava lá, mas mais tarde acabaríamos jogando essa combinação no lixo. Nesta noite, Ray me contou muitas coisas sobre a cultura do Egito. A verdade é que ele parece tão ou mais brasileiro quanto eu, física e até psicologicamente; sendo assim, lhe dói admitir o atraso cultural em alguns aspectos, principalmente referindo-se à sexualidade e à vida pessoal dos egípcios. Disse que perdeu a virgindade com uma americana que fazia um intercâmbio lá, porque se uma egípcia inventar de transar antes do casamento, ninguém vai jamais aceitar o matrimônio. Disse que já teve uma namorada lá, mas que ela queria noivar e casar muito logo, tendo ele concluído (ao meu ver corretamente) que era muito novo. Na noite anterior, já nos havia dito que participou da revolução que teve recentemente para mudar o governo, e mostrou os pelos do braço arrepiados ao contar que um cara a menos de 50cm dele levou um tiro na cabeça. Nessa segunda noite, disse-me que não adiantou tanto a mudança de governo, pois este ainda é muito fechado, tendo proibido as pessoas de irem à praia (ou algo semelhante envolvendo este ambiente). Ele pareceu indignadíssimo perante tais afirmações, e eu finalmente entendi por que ele se sentia tão livre em Praga.
No dia 31 de janeiro, bateu um leve abatimento, o que me fez voltar ao hostel e ficar um tempo a lagartear no quarto, acompanhado de minha escaleta melódica, de um caderninho e de uma caneta berlinense. Depois do revigoramento, bateram na minha porta. Abri. Para a minha surpresa, eram os dois. “Lucá (como me chamava o francês), vamos sair hoje, né? Conforme o combinado! Te esperamos ali embaixo; te arruma rápido, tu não é gay nem nada. Pelo menos eu ACHO”. Depois de dizer uns dos poucos palavrões em francês que eu sei, arrumei-me rapidamente e fui com eles. No quarto do Ray, havia uma costarriquenha, a qual convidamos para ir conosco. Na mesma hora, passou-me pela cabeça fazer com que o egípcio ficasse com ela. “Esse cara precisa saber o que é uma latina”.
Fomos os quatro jantar um peixe empanado num lugar. Eu não sou muito chegado a peixe, mas acabei comendo socialmente, até porque parecia a coisa menos insalubre do cardápio. Neste momento, gravei um vídeo deles declarando algo em seus idiomas. Foi aí que percebi o quanto o francês, Romain, era sensível. Que era depressivo, já sabia desde a primeira noite – basta uma conversa e uma análise rápida. Mas o cara declarou-se absolutamente grato por ter tido a sorte de encontrar amigos assim num lugar tão distante e improvável, tendo-nos agradecido muito por ter podido passar conosco seu aniversário, já que achava que o passaria só. Todos na mesa ficaram um tanto emocionados. O Ray completou dizendo que nunca havia feito tão bons amigos em tão pouco tempo, e que deveríamos aproveitar essas noites como se fossem as últimas. Eu lhes disse a verdade: que os conhecer foi revigorante, especialmente num momento em que eu já estava cansado, abatido e com saudades de casa. Brindamos algumas vezes e fomos os quatro fazer um Pubcrawl.
No primeiro bar, podíamos beber o quanto conseguíssemos. Mas as experiências com destilados nas noites anteriores me haviam calejado o bastante, e optei por moderar. O bar era uma masmorra, cheia de corredores pequenos, estilo cavernas, e pouquíssimo iluminado. O barman também se chamava Lucas, mas era tcheco. Por conta disso, preparou-nos um drink especial com alguma bebida que nunca tínhamos visto, escura e mal cheirosa; não fosse o bastante, tinha um gosto terrível. Não consegui evitar o comentário: “it tastes like sh*t, man!”, disse ao Romain, tendo ele me respondido: “you know why?... because it IS”. Esse humor francês me agrada de alguma maneira, e foi aproveitando isso que lhes ensinei uma música para cantar para o trote da matrícula. Não demorou cinco minutos para que o Romain aprendesse, mas o Ray levou um tempão; claramente atribui-se isso ao fato de que sua língua mãe é... árabe. A costarriquenha também pegou meio rápido, e, em pouco tempo, estávamos cantando todos:
“Chora bixarada, bixarada chora! Chora bixarada que chegou a tua hora!”
Para a minha tristeza, porém, creio que não chegará a tempo para a matrícula, esses outros três vídeos que gravei nessa noite. Mas valeu a recordação.
Logo conheci dois paulistas e duas gaúchas bem bonitas. Foi muito bom ouvir aquele sotaque exageradíssimo de guria porto-alegrense depois de mais de um mês longe de casa. Elas se misturariam, como quase todas as gaúchas, com o povo de qualquer país daquele continente sem grandes dificuldades; mas o jeito aberto, a liberdade e a disposição não negavam a nacionalidade.
Fomos até um pub avermelhado onde, depois de beber um pouco demais, o pessoal começou a dançar enlouquecidamente, e então fez-se um círculo no meio do qual cada um deveria se apresentar de alguma forma dançante. Eu estava quase indo embora quando me forçaram a ir; sem opção – e para não ficar por baixo –, mostrei meus frágeis dotes de break music plantando bananeira e dando um “macaquinho” para frente, o que fez o pessoal delirar por algum motivo inexplicável. Abriram um círculo maior ainda e mandaram eu repetir isso. Envergonhado, fiz mais uma vez e tentei me afastar, tendo então vindo um dos paulistas até mim: “meu, você luta capoeira?”, e eu: “não...”. Ele não ficou satisfeito: “luta sim, vem cá!” e, quando olhei ao meu redor, estava junto do paulista num círculo único que já envolvia a festa toda. Dei uma que outra enrolada e passei para um loiro que estava na espreita, louco para entrar. O cara deu de dez em todos nós. Mais tarde, descobrimos que ele é holandês, mas viveu no nordeste e se casou com uma pernambucana.
Depois desse episódio atípico, fomos para o que considerei o melhor pub em que já estive. Por nada, senão as músicas. Tocou de Hard ’80 a Rammstein, passando por diversas idades rockeiras, como Ramones, Beatles, etc. Apesar de passar o resto da noite sentado numa mesa circular com o francês, o egípcio e sua ficante da noite costa-riquenha, diverti-me como nunca. Não entendi no momento por que o casal latino-faraônico quis ir embora (agora está um tanto mais claro...), mas convenci o francês Romain a ficar mais um pouco no pub. Mais tarde, voltamos ao hostel os dois, mas paramos em uma pizzaria noturna perto para o que seria uma das conversas mais significativas da minha existência.
Ele quis me pagar uma pizza. Eu o mandei se calar e disse que parasse com essa mania de burguês. Ele me explicara, pois, o motivo de agir assim. Ele vê nos amigos a força que precisa para seguir em frente sua vida que, segundo considera, é incompleta. E que acaba os tratando como irmãos, querendo pagar tudo, defendê-los de tudo, agradá-los sempre. Quando o perguntei se ele se conformava com sua existência, respondeu-me:
“É preciso ser sozinho para amar alguém, Lucá. É preciso ser triste para ser feliz. No entanto, o mais difícil mesmo é ser equilibrado. E isso – fez menção à nota que eu tomava no meu celular sobre suas palavras –, isso tu podes anotar”.
Fomos ao hostel num clima depressivo bizarro. Sentamos na sala comum por volta das quatro ou cinco da madrugada e não saímos de lá antes dos primeiros raios de sol surgirem.
Ele me contou a história de amor mais tocante que já ouvi, mas por respeito a ele, resumi-la-ei: sua primeira grande paixão fora correspondida por anos; um dia, ela precisou viajar para a Austrália, e, sem saber por quê, ele decidiu terminar. Ela ficou arrasada, mas ele não voltou atrás. Os detalhes que seguiram foram uma mistura de sofrimento e esperança… O fato ocorrera havia seis anos, e ela ainda o procura até hoje – fato que pude constatar eu mesmo mais de uma vez. Ele diz que não tem mais dúvidas de que sempre gostou dela, “e que isso não mudará”.
- E por que tu não corre atrás dela e diz isso, rapaz?
- É muito complicado, Lucá.
- Complicado? É a tua felicidade que tá em jogo!
- Não é tão simples...
- Cara, não perde tempo, a vida é só uma... liga pra ela agora e diz que tu ainda...
- Ela tá grávida do novo marido, Lucá.
Os momentos de silêncio que seguiram completaram o clima de filme no qual já estávamos inseridos havia muito tempo.
Ele perguntou um pouco sobre a minha vida, mas até eu mesmo sentia sua dor maior do que qualquer que eu o pudesse apresentar até então.
Fomos dormir.
No dia seguinte, encontrei o Ray na sala comum. A primeira pergunta que fiz foi a que qualquer cara faria no meu lugar.
- Hum... eu ACHO que sim.
Olhei incrédulo para ele.
- Como assim ACHA?
- Cara, desculpa te decepcionar, mas eu não lembro de novo!
Ri tanto que perdi o fôlego.
- E então por que tu ACHA?
- Porque ela acordou do meu lado!
- Legal. Eu te descolo uma latina pela primeira vez na vida e tu simplesmente NÃO LEMBRA.
Ele só riu. Repito: o Ray é um dos caras mais engraçados que já conheci. A gente brincava com ele porque, mais de uma vez, após perder a noção da vida, surgira mais de um papelzinho com números de telefone no seu bolso (costume do local), os quais ele só encontrava ao acordar. Além disso, relatou uma dor no joelho que, obviamente, não se recorda como surgiu. É óbvio que fizemos muita graça em cima dessa suposta dor no joelho e a conveniência de “não lembrar dela”.
Naquela noite, a que seria a minha última, o Romain havia chegado com seu amigo de colegial, o Hugo – outra figura. O Hugo lembra o John Lenon: barbudo, alto, magricela, calmo, usa óculos e é muito estranho e bem humorado ao mesmo tempo. Ele fechou o quarteto que marcou minha viagem, e, segundo ele mesmo, “Lucá, foi uma pena não termos nos conhecido antes”. A mais pura verdade.
As saídas com eles que eu procurava evitar no início, agora eram a parte mais esperada do meu dia. A ideia dessa vez partiu do Ray: façamos o segundo pubcrawl oferecido. Fomos jantar, os quatro, no lugar das dançarinas tchecas (da primeira noite). Após, o Romain inventou de levar o Hugo para ver a ponte de Praga. O frio estava absurdo (abaixo de dez graus negativos), então combinamos (eu e Ray) de voltarmos até o hostel e esperar por eles lá. Nesse caminho é que o Ray me contou mais sobre os costumes egípcios.
Olhando de fora, como já disse, o cara parece um brasileiro. Conversando com ele, não fosse pelo inglês, também aparenta ser brasileiro. Ele não é religioso, bebe, fuma, ri, é relativamente mulherengo, é humilde e tem um coração boníssimo. Não que pessoas assim não existam no Egito (na verdade, só conheço ele de lá), mas que ele poderia se passar por um latino, poderia. No entanto, explicou-me como o governo lá é fechado, e que o pós-revolução também não é muito diferente; deu-me uma aula sobre a sexualidade das mulheres de lá, e como elas realmente se preservam para o futuro marido, independente de quantos rapazes namoraram durante a vida. Disse que namorou uma menina por mais de um ano e que nunca a tocou de forma alguma, senão alguns beijos; disse-me que seu amigo foi preso por beijar sua namorada na rua, entre outros relatos que me fizeram querer levar o cara para o Brasil.
Chegamos no hostel e aguardamos; os outros dois nem demoraram muito. Fomos em direção ao pubcrawl, com a condição de que eles não se oporiam ao fato de que eu sairia bem mais cedo, tendo em vista o horário que deveria acordar na manhã seguinte para rumar a Viena. A piada do caminho foi feita pelo Ray, e se baseava num árabe que fora condenado à morte por americanos, tendo ele se exaltado: “Prestem atenção, vocês não podem me matar. Só EU me mato!”. Chegamos num bar onde havia um pebolim; para quê? Gastamos todas as nossas moedas naquilo. Principalmente depois da provocação dos dois franceses, que cantaram alguma musiquinha referente aos 3x0 da copa. Formei um time com o Ray, e foi quando a célebre frase fora proferida: “Olha aqui, Lucas. Se a gente perder, eu me explodo e tu rouba eles depois!”. Ainda bem que não perdemos, o que me levou a crer que era mais uma piada do árabe bem-humorado. Mais tarde, porém, a surpresa: uma guria bêbada do bar abrira uma garrafa de cerveja com uma violência tamanha, que respingou na mesa, no chão e, para o meu pavor, na cabeça do Ray. Ele parou de jogar no ato. Abriu a boca com uma expressão de ódio e franziu a testa, olhando para si mesmo e para a jovem e ousada garçonete, que sequer notara. Quando ele foi tirar satisfações para cima dela, seguramos e tentamos acalmá-lo. “Agora ele vai se explodir de verdade”, pensei. Mas…
Cinco minutos depois, ele dava em cima dela sentado no banco do bar. Pouco depois, serviram-nos um drink grátis, tendo todos nós bebido sem nem cogitar. O gosto era bom, bem doce e não muito forte. Serviram o segundo, bebemos de novo. Quando ela foi servir o terceiro, eu vi a garrafa e quase entrei em choque: haviam minhocas dentro.
Sim, MINHOCAS. O nome da bebida era Cervovice Worm, e era feita de conserva de minhocas. Não houve jeito de eu a tomar de novo, mas o egípcio sentiu ainda mais ânimo quando soube a fonte.
De lá, fomos para o pub avermelhado de novo. Incrível como o lugar parecia outro apenas um dia após. Estava vazio, com pouco mais de uma dúzia de pessoas. Quando olhei para o lado, o Ray já estava agarrado numa russa vestida como uma funkeira. Foi quando o Romain e o Hugo vieram até mim.
- Lucá, vem com a gente.
- Quê? A gente recém chegou, cara, relaxa um pouco!
- Lucá, olha ao nosso redor, não tem ninguém, cara, essa noite tá acabada!
O barulho da música reverberada pela falta de gente tornava aquele diálogo franco muito mais difícil.
- Ah, Romain... eu vou ficar aqui mais um pouco, daqui a pouco tenho que voltar mesmo...
- Lucá, tu não tá entendendo! Eu NÃO QUERO ter que me despedir de ti aqui!
Quando finalmente compreendi, fomos até a saída. Decidi que já iria embora dali, então me despedi do Ray sem tentar atrapalhar muito. “Ok, dude, we’ll keep on touch by facebook!”, e já voltou para os braços brancos e louros da soviética.
Na porta do pub, ainda do lado de dentro, o Hugo me abraçou, dizendo que precisamos manter contato, que havia sido um prazer me conhecer e que, apesar do tempo curto, já me considerava um grande amigo. Disse-lhe palavras semelhantes. O Romain, então, botou a mão no meu ombro. “Lucá, eu não tenho o que dizer mais, senão obrigado. Tu e o Ray marcaram minha vida, e vou levar isso comigo pra sempre. Agora vou parar de falar, antes que eu chore. Vamos, Hugo, vamos lá! Boa sorte Lucá!”
Saiu enxugando os olhos. Controlando minhas emoções, peguei o mapa e saí no frio gélido da noite tcheca.
E pela primeira vez nos últimos dias, caminhei sozinho pela noite de Praga.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Berlim, A Neve e As Bolas Foras
Quando eu vesti a luva na estação de trem, senti pela primeira vez uma peça de roupa naturalmente quente. Durante a viagem, um velho alemão falava aos berros no telefone, o que irritou profundamente uma senhora pomposa, tendo ela pedido silêncio através do clássico “shh!”. Mas foi um “shh!” tão forte e constrangedor, que não só o velho calou-se, como todo o vagão. Ela falou duas palavras de explicação, voltou-se novamente ao marido e continuou conversando em voz baixa como se nada tivesse acontecido. A partir daí, fiquei com um medo considerável de falar alto perto de senhoras pomposas da Alemanha.
Segunda-feira, dia 23 de janeiro, noite. Chegamos em Berlim e fomos direto ao Hostel. Pediram-nos que nos sentássemos por alguns minutos antes de “conversarmos”. Não entendíamos por que ele era considerado um dos dez melhores hostels do mundo, se era tão pequeno. Até que o sujeito veio nos receber. O cara era simplesmente genial. Nos deu uma explicação de meia hora sobre TUDO que poderia ser dito acerca do hostel e dos serviços ao redor; eu não fazia ideia de como o atendimento poderia ser tão completo, e certamente isso nos fez formar toda uma imagem positiva da cidade. Na cozinha, mostrou-nos os lugares das coisas e após explicou que era preciso lavar e secar, “mas primeiro lavar, e só então secar”. Fomos ver o memorial ao muro de Berlim, sob o qual fica um cemitério da grande guerra.
No dia seguinte, acordei tarde devido ao tempo gasto observando os novos calouros no grupo. A Liliane havia saído e nos comunicamos por mensagem, tendo ela dito onde estava. Eu estava sentado na sala comum do hostel quando o cara engraçado chegou e simplesmente disse: “é melhor tu almoçares antes que tu morras”. Por recém ter acordado, assustei-me um pouco, mas logo entendi a brincadeira. Então esperei um pouco e fui olhar o mapa para achar a Porta de Brandenburguer; não a localizando, aproveitei que o sujeito estava passando perto de mim e falei “excuse me...”, tendo ele respondido na mesma hora “não!”, e continuou andando. Então, voltou: “OK, brincadeira. Como posso ajudar?”.
Perdi-me de uma forma radical, tendo demorado quase uma hora para chegar ao local que era muito próximo do hostel. Isso se deve ao fato de que o mapa é muito complicado e... ok, deve-se ao fato de eu costumar me perder mesmo, mas que o mapa é complicado, é! Não teve uma vez em que achei as ruas que ele disse. Enfim, encontrei uma médica espanhola simpaticíssima na rua com quem conversei um bom tempo até encontrar a direção.
Quarta-feira fomos ao campo de concentração de Sachsenshausen. Foi muito interessante; vi os locais onde eles tomavam banho de manhã, a enfermaria, o local de pesquisas médicas, entre outros. Numa máquina dessas de comprar coisas, tentei comprar algo e a máquina me roubou 3 euros. Andei vários minutos até a entrada do campo e reclamei, tendo eles ligado para o fabricante e falado com ele por muito tempo (não entendi por quê). Desligando, o cara me deu 3 euros e mais um pacotinho de cookies. Nada que uma cara de indignado e uma conversa longa não resolva.
Quarta-feira fomos ao campo de concentração de Sachsenshausen. Foi muito interessante; vi os locais onde eles tomavam banho de manhã, a enfermaria, o local de pesquisas médicas, entre outros. Numa máquina dessas de comprar coisas, tentei comprar algo e a máquina me roubou 3 euros. Andei vários minutos até a entrada do campo e reclamei, tendo eles ligado para o fabricante e falado com ele por muito tempo (não entendi por quê). Desligando, o cara me deu 3 euros e mais um pacotinho de cookies. Nada que uma cara de indignado e uma conversa longa não resolva.
À noite, resolvi fazer um pubcrawl. Mas não qualquer pubcrawl: ele se chamava Anti-Pubcrawl. A ideia era andar pelos bares mais obscuros da cidade, onde os turistas só chegam se estiverem perdidos ou através desse evento. Foi na ida, esperando o metrô, que surgiu uma ideia musical maravilhosa, cujo início registro neste momento. Quando cheguei ao bar de saída, já conheci dois brasileiros (eles estão por toda a parte), um chileno e um holandês muito gente boa. Também tinha uma australiana totalmente louca e mais uns vinte estrangeiros que não sei de onde eram. Um dos brasileiros era uma figura peculiar: o cara era um mineiro tão delicado que parecia muito gay (até começar a falar de mulher). Ele estava viajando há muito tempo e não sabia uma palavra de inglês, mas jurava falar espanhol. Não demorou muito para que eu percebesse que seu espanhol é igual ao meu tcheco. Ele chegava para qualquer estrangeiro e dizia bem devagar, palavra por palavra, com aquele sotaque mineiro exageradamente meigo e um sorriso exorbitante na cara:
- Oi, tipo, olha só, eu não english. Falas espanhol?
E normalmente a pessoa respondia “hey... no, sorry”.
- Ok, você... fala english. Eu... respondo espanhol, ok?
Numa dessas, eu estava ao seu lado, tendo ele olhado para mim e se justificado: “porque eu até entendo um pouquin, véi!”. Eu achei que o caso não podia ser tão grave e que eu estava subestimando o rapaz, até que ele me veio com essa:
- Olha só, como é que é “de onde você vem” em inglês? Porque eu vivo perguntando pras pessoas mas acho que tá errado, porque elas nunca entendem, e eu tenho que repetir devagar!
Eu tentei segurar, mas fiz a pergunta.
- Como tu acha que é?
- Assim, eu normalmente digo “what you are country”, mas acho que não tá bem certo, né?
Eu não consegui não rir, mas ele não se ofendeu. Incrédulo, expliquei o clássico “where are you from” (aprendido antes da sétima-série de qualquer colégio), palavra por palavra para o sujeito, sem esperança de que ele entendesse. Fomos a um bar obscuro no qual a atração principal era uma mesa de ping pong. Não se jogava como normalmente, porém – era quase um ritual. Tu alugavas tua raquete (dinheiro devolvido após uso) e entrava numa fila que circulava a mesa. As regras (que eu não sabia) eram as seguintes: as pessoas jogavam nos dois lados, sempre circulando a mesa, batendo na bolinha o mais levemente possível, e quem errasse ia saindo, até que só sobrava os dois finalistas – que então disputavam uma partida normal. Eu achava, porém, que bastava entrar no círculo e ir jogando. Não só continuei após errar (o que ninguém percebeu), como, quando a bola veio alta e lenta para mim, eu a isolei o mais forte que consegui, tornando impossível para o outro jogador.
O bar todo olhou para mim.
O sentimento que tive era o de que iria ser esfaqueado por todos os cantos; então, olhei com uma cara de culpado, sorrindo timidamente, e pedi desculpas em voz alta, indo atrás da bolinha. A porcaria da bolinha foi tão longe que ninguém achou, tendo demorado vários minutos para que fosse substituída. Apesar disso, o meu adversário do momento saíra do círculo, e meus companheiros do pubcrawl me obrigaram a voltar ao círculo, dizendo que eu era “o candidato a vencedor mais polêmico”. Levemente envergonhado, perdi logo na sequência, saindo de fininho para que me esquecessem logo. Tudo voltou ao normal, e eu continuei vivo.
Logo após, fomos para um outro club onde completei o ciclo de furos da noite. Ainda me arrepio de lembrar do maior furo da minha existência. Neste club havia um cadeirante que, do nada, ao iniciar uma música, levantou-se e começou a dançar enlouquecidamente. Todo mundo gritava “MILAGRE! MILAGRE!”. Minutos após, outro cara se sentou lá e levantou de novo. “MILAGRE!”. Nós concluímos (juntos, juro) que a cadeira era de brincadeira – uma atração especial daquele club, como a mesa era do outro, feita para que as pessoas se sentassem e levantassem após. Quando passados alguns minutos, depois de alguns goles de Jagermeister (bebida muito interessante, por sinal), vimos outro cara sentado na cadeira de rodas. Não demorou para que eu tivesse a brilhante ideia de “salvá-lo”.
- E aí cara, eu vim te salvar. Levanta daí, AGORA!
Ele olhou para mim meio sem entender e respondeu:
- Cara, eu não posso.
Uma lágrima quase escorreu do meu rosto.
Depois fomos no último club, um lugar sinistro perto do qual nos tentaram vender cocaína e outras drogas que sequer entendi quais eram. Lá dentro, um traficante veio conversar comigo, perguntando como eu estava, de onde era, tentando eu desviar sem demonstrar muito medo, mas na primeira pergunta que fiz... “hey, don’t ask me ANYTHING”.
Eu levantei daquele lugar, despedi-me dos brasileiros, do chileno e do holandês e peguei um táxi para o hostel, temendo verdadeiramente pela minha vida. Eu não sei bem como, mas conversei com o taxista em alemão por uns 15min, chegando a responder de onde era, o que fazia, há quanto tempo estudava e que de fato considerava interessante a ideia de um dia vir estudar por aqui. Eu juro que não sei como isso aconteceu, mas nos comunicamos por horas de alguma forma milagrosa... (tá, chega de falar em milagre).
No dia seguinte, meus pés estavam machucados pela noite anterior. Tive de ficar no hostel. Na sexta-feira fomos ao zoológico. Bem recomendado; lembrou-me muito o jogo Zoo Tycon, com terrenos adaptados a cada animal, uma ótima infraestrutura e tudo bem sinalizado (inclusive, entre as placas, havia uma apontando para o zoológico de Los Angeles, dando ainda a quilometragem em milhares). Há uma sala de insetos na qual as formigas disfrutam de canos transparentes que percorrem todo o teto. É o zoológico mais antigo da Europa, datando do século XIX. Vale a pena conferir.
Àquela noite, a sala comum do hostel parecia uma taverna, estilo Álvares de Azevedo. Havia um chinês, um tcheco, duas australianas, um australiano, um casal gay de italianos, uma espanhola e um francês com um cabelo emblemático. Bebemos muitas cervejas, todos, enquanto conversávamos. Quando acabaram, fomos buscar mais, eu e o chinês, uma figura simpática e magricela que me explicou dezenas de coisas sobre seu país. Disse que fala mandarim e cantonês, um dos idiomas nacionais mais falados. Explicou-me a diferença entre o “sim”e “não” em mandarim comparados a outras línguas – quem quiser saber, pergunte-me pessoalmente –, deu-me uma aula de escrita em mandarim (o que me fez perceber que há, sim, uma lógica!), ensinou-me um pouco sobre sua política e seus políticos e, após só restarmos os dois na sala comum, contou-me que era alérgico a álcool. Vi o sujeito ficar inchado e aumentar a respiração. Verifiquei seus batimentos, que estavam muito acelerados. Enquanto eu procurava números de ambulância sem dizer, ele garantiu que ia ficar bem, que já tinha passado por isso antes, tendo eu o xingado por não me dizer nada de antemão. Esvaziei a garrafa d’água que tinha comprado, tendo ele tomado tudo; fiz ele jogar o café que tinha preparado fora; ofereci um tijolo de nutella que havia comprado e, não satisfeito, fiquei acordado quase duas horas até que os batimentos do oriental voltassem ao normal. Já estava dormindo sentado quando percebi que ele não iria morrer aquela noite. Ou ao menos não por causa daquilo.
No dia seguinte, sábado, 28 de janeiro, fomos a Potsdam ver o palácio. Totalmente sonolento, tentei dormir no metrô, mas uma voz feminina esbravecida começou a berrar subitamente. Apavorado, observei a alemã gritar algo incompreensível para todos, pensando “a quem ela está xingando a essa hora?!”, mas, quando ela finalmente parou de xingar... quase todos aplaudiram vigorosamente. Só então percebi que era um poema. Não sei bem por quê, mas dei uma moedinha para ela também.
Quando chegamos em Potsdam, nos perdemos feio. Ao achar o Palácio, horas depois, já não dava tempo de subir nele. No caminho, vi um lago congelado pela primeira vez; tentei quebrar o gelo de tudo que é forma, jogando pedras enormes, mas nada. No entanto, a Liliane não permitiu que eu caminhasse em cima dele. Frustrado, continuei tacando pedras sem sucesso. Outros brasileiros que passavam por lá chegaram a arriscar, tendo partido o gelo, e, por pouco, não ficaram por ali mesmo. A neve cobriu o chão em pouco tempo, e o cenário mudou radicalmente.
Pela noite, gravei um vídeo com o chinês para o trote dos bixos na matrícula. Nele, o jovem oriental dizia “Acetilcolina, eu estudei e passei na medicina!”. Nos despedimos, pois eu partiria na manhã seguinte a Praga; depois disso, fui ao banheiro e logo entrei no quarto, sendo que, bem nessa hora (na madrugada escura), quando abri a porta do quarto, o chinês estava parado de pé de frente a ela, dentro do quarto. Eu dei um pulo para trás. Por algum motivo, a cena me lembrou do filme “O Grito”. Ele começou a rir muito, e fez menção de que iria checar meus batimentos, como se a história da noite anterior tivesse se invertido. Rimos bastante, despedimo-nos novamente e, pois, dormi. O chão da cidade adormecera coberto pela neve branca e fina – cena de beleza ímpar e exuberante.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Hamburg - O Encontro de Uma Década
Viajamos para Hamburg no dia 20, chegando lá por volta das oito da noite. A gente demorou para se arrumar e descer do trem, o que causou um dos maiores sustos da viagem até então: eu consegui descer, mas quando a Liliane estava quase descendo – eu já me preparava para descer sua bagagem – eles fecharam a porta do trem comigo do lado de fora e ela do lado de dentro. Pelo vidro, nos olhamos meio apavorados. Sabíamos que nossos celulares não estavam funcionando bem na Alemanha; mas havíamos já combinado que, em situações de imprevistos, deveríamos agir o mais logicamente possível. Assim sendo, o trem partiu, tendo eu avisado uma funcionária que estava do lado de dentro mais adiante. Ela disse para eu procurar o serviço de auxílio. Eu ri de nervoso, sem saber bem o que fazer, o que era um serviço de auxílio e se eles entenderiam inglês, considerando que era urgente demais. Achei logo uma senhora que auxiliava os passageiros e expus a situação claramente. Ela disse que a próxima parada seria em três minutos e que então ela poderia voltar. O problema é se ela saberia disso também.
Do lado de dentro do trêm, a Liliane procurava se comunicar com várias pessoas, alguns que falavam inglês e outros que não. Afinal, acabaram ajudando-a a voltar até a estação central de Hamburg, onde eu a esperava.
O encontro com a Katrin foi engraçado. Eu estava preocupadíssimo com essa história de perder a Liliane de vista sem saber se ela conseguiria voltar, se deveríamos nos encontrar no hostel ou na estação. Imaginei que o mais lógico seria esperar na estação. Por um milagre, a ligação completou e conseguimos nos falar por alguns segundos, o suficiente para dizer que ela já estava em outro trem. Foi só então que fui procurar a Katrin.
Passamos um pelo outro sem nos reconhecermos algumas vezes. Mas quando vi que aqueles cabelos absurdamente loiros estavam andando em círculos, achei melhor tentar a sorte. Fui atrás dela, mas ela subiu uma escada rolante. Alcancei-a até um degrau abaixo, e ela olhou para trás. Estava na cara que éramos nós, de fato. As bochechas brancas da alemãzinha estavam mais vermelhas que molho de tomate com pimentão. Expliquei o incidente do trem e esperamos lá até que a Liliane nos encontrasse. Ela foi para casa, pois, e nós para o Hostel. Este hostel era definitivamente bem capitalista. Tudo lá era pago, até o café-da-manhã; isso fez com que a qualidade dele fosse levemente acima da maioria.
Pela noite, combinei de me encontrar com a Katrin na estação central. De lá, fomos até uma área da cidade onde havia bares portugueses. Ela disse que seu pai havia sugerido isso para que eu me sentisse mais em casa. Eu ri, simpaticamente, muito embora estivesse um pouco contrariado; ora, eu sou brasileiro, não português. No entanto, quando chegamos lá e eu pude ler entre as placas cheias de tremas e palavras enormes os dizeres “Casa do Pescador”, “Peixe Grande”, “Recanto da Harmonia”, entre outras coisas do gênero… senti-me como se estivesse cruzando a fronteira Brasil-Alemanha. Os cardápios eram todos em português! Foi totalmente interessante, apesar de que, por algum motivo, fomos parar num outro bar não português em que um bando de alemão assistia um jogo do Bayer de Munique aos berros num telão. Conversamos muito e bebi muita cerveja.
A cerveja na Alemanha não é só magnífica: é muito barata. Eu não consegui parar de tomar. É como se fosse um suco; tem de tudo que é tipo, gosto, cor, força, textura, teor alcoólico. Eu provei dezenas... até anotei algumas, para caso alguém queira se arriscar; entretanto, não sei dizer a ordem de preferência entre elas, já que só anotei os nomes. Segue abaixo algumas marcas que degustei ao longo de toda o território alemão:
Bitburguer Pilsen; Paulaner Hefe Weisbier Naturbur; Weizen Dunkel; Beck’s Gold; Astra; Jever Lime; Jever; Holsten; Einbecker Ur-Bock; Berliner Bürguerbrau; Tannen Zapfle Rothaus Pils; Berliner Kindl Bock Hell; Chiemseer Hell; Hugustinerbrau München Lagerbier Hell; Efes Pilsener.
P.S.: algumas eu não anotei.
P.S.2: se forem escolher só uma, abusem da Paulaner de trigo. Vem meio litro por um preço muito barato (chega a assustar) e tem um sabor especialíssimo.
Depois de algumas horas botando a conversa em dia – pela primeira vez em 10 anos pessoalmente – resolvemos voltar. Fomos até o hostel, onde ela esperou pelo pai na frente. Conheci o simpático velho alemão lá mesmo, vindo com seu carro luxuoso, apesar de serem de uma família de classe média para os padrões alemães. Deu-me as boas-vindas com aquele jeito friamente educado, clássico dos germânicos e com o qual já estamos nós, gaúchos, bem acostumados.
No dia seguinte, encontramo-la na estação para fazer um BusTour. Eu já havia percebido que, sempre que chegávamos à estação, uma música clássica muito agradável estava tocando, normalmente a mesma e, peculiarmente, só do lado de fora.
No dia seguinte, encontramo-la na estação para fazer um BusTour. Eu já havia percebido que, sempre que chegávamos à estação, uma música clássica muito agradável estava tocando, normalmente a mesma e, peculiarmente, só do lado de fora.
- Isso é uma maneira – disse-me a Katrin – que a prefeitura achou para afastar os moradores de rua que dormiam na estação, causando uma má imagem aos estrangeiros que aqui chegavam. Eles acreditam que, tocando as mesmas músicas clássicas repetidamente, eles iriam surtar e procurar outro lugar para se abrigar.
Eu olhei ao meu redor. Nem foi preciso perguntar se funcionou – não vi um mendigo sequer, tanto de dia quanto de noite. Ela me disse que funcionou a médio prazo, bem melhor do que se calculava. E a dúvida que me corroía era: será que eu não iria aguentar também? Porque a vontade que eu tinha era de passar o dia ali embaixo, lendo um livro e escutando aquelas obras que encantam qualquer pessoa a quem lhe agrade uma velha música bem feita.
O clima não ajudou durante nossa estadia em Hamburg, tendo chovido a mais ou menos dois ou três graus positivos todos os dias e noites. Talvez seja por isso que o BusTour tenha sido um tanto falhado. Pela noite, fomos ao Red Light District de Hamburg. Não tem muito a ver com o de Amsterdã, porém também há um conteúdo sexual explícito, conquanto sem as clássicas vitrines de prostitutas. Aparentemente, a vida noturna da cidade é lá. Entramos num barzinho onde tomei um litro de cerveja de trigo, e me saiu tão barato quanto se eu comprasse água no Brasil. Não satisfeito, comi uma tal de Bratkartoffeln, que se resume em batatinhas assadas ou cozidas (não sou muito bom em distinguir) cortadas em pequenos pedaços, misturados com pedacinhos de bacon frito, cebola frita e outros vegetais que não sei o nome. Foi a melhor refeição que fiz no país, e uma das melhores da Europa. Ao retornar para o Hostel, resolvi provar a cerveja Aster, de Hamburg, tendo ido para rua, onde fumava um russo que imigrou para a cidade a fim de buscar emprego. Arrependi-me de ter ido para frente do hostel no momento em que ele veio falar comigo em alemão. Já me defendi na hora, dizendo que eu não falo alemão. Mas ele insistiu, dizendo que se eu falava que não sabia falar alemão, eu sabia no mínimo um pouco, tendo seguido o diálogo mais obscuro da minha vida, o qual me fez sentir um Neandertal em processo de aprendizagem de comunicação. Eu entendi que ele era russo, que não falava inglês, e ele entendeu que eu era brasileiro e que não falava alemão. Logo que isso ocorreu, ele sorriu orgulhoso e proferiu as seguintes palavras: “F*da car*lho trabalho pra burro!”. Depois de rir alto, perguntei como ele tinha aprendido isso; ele explicou que trabalha junto de um português que considera seu irmão, e que, quando este fica irritado, sai esbravejando essas palavras. De repente, começou a me convidar para ir a um bordel. Eu falei que não, obrigado, que ficaria ali no hostel, e ele começou a insistir, apontando para a rua e desenhando um corpo feminino com as mãos. Eu já estava cheio quando um táxi apareceu subitamente, e ele entrou neste, apressado, sem dizer uma palavra. “Gente estranha”, pensei. Talvez por isso se chamem “estrangeiros”.
O dia 22 de janeiro foi nublado e um pouco chuvoso. Encontramo-nos os três novamente na estação e, de lá, fomos fazer um passeio de barco – um BoatTur. Nada muito especial, mas mais confortável que o Bus. O divertido mesmo é que fiquei ensinando à Katrin as frases em português que ela deveria dizer no vídeo que eu gravei para o trote dos calouros. Até o final daquela noite ela deveria aprender a seguinte frase: “bixo não é gente, bixo não é nada, bixo toma trote, veterano dá risada”. Depois de inúmeras de tentativas repetidas e várias horas (tendo ela levado para casa a frase anotada para decorar até a noite), nos encontramos pelas 20h e fomos a um bar no centro. Comemos o mesmo Bratkartoffeln, porém bem menos saboroso que o primeiro. Depois de algumas cervejas, soltou-se e gravou o vídeo. Gravamos várias vezes até acertar, e ficou muito legal. Num futuro distante, postá-lo-ei aqui.
Ela me deu um presente de despedida, um livro com fotos de Hamburg e uma dedicação muito bonita. “Para que tu vejas como é a cidade com o clima bom!”, explicou preocupada. De fato a cidade não é algo que recomendo a turistas, já que Berlim é muito mais encantadora; no entanto, eu só havia ido lá mesmo para conhecê-la, missão que foi cumprida com vigor.
O pai dela nos buscou numa rua próxima e me levou até o hostel. Lá, despediu-se de mim com o mesmo jeito típico, mas extremamente polido e educado. Desejaram-me uma boa continuação de viagem e que mais encontros desses fossem executados ao longo dos anos que nos seguirão.
Vê-la entrando no carro com seus cabelos louros e sua pele pálida, ouvir o som da porta do carro se fechando e sentir o frio e o vento carregando a chuva gélida até meu rosto fez eu realizar que aquilo era verdade. Refleti sobre quantas pessoas têm a chance de conhecer um amigo que mora em outro continente, e, antes que me emocionasse muito, entrei no hostel.
No elevador, um alemão tentou falar comigo. Eu repeti que não sei falar alemão, mas, consoante já esperava, o cara insistiu. O que há de errado com essa gente? Eu não estou sendo humilde quando digo que não falo sua língua – eu realmente não falo. O problema maior é que eles se frustram quando eu paro de responder. O fato é que, com o tempo, as poucas palavras que entendi não fazem mais sentido no contexto, e tudo fica muito confuso e cansativo… enfim, ele falou sozinho por alguns andares. Ainda assim, disse-lhe o formal adeus alemão quando desci, tendo-me respondido com entusiasmo, como se tivéssemos conversado por todo o trajeto.
Na manhã seguinte, a frustração da Katrin por não ter nevado em Hamburg enquanto eu estive lá – uma vez que, desde que éramos crianças, eu a dizia que nunca havia visto nevar – caiu céu abaixo, quando senti os primeiros flocos gelados descerem das nuvens até meu rosto.
Depois de 10 anos do episódio em que lhe contei jamais ter visto neve, tendo ela me dito “vem a Hamburg um dia e eu te mostro!”… a ironia fez-me ver neve pela primeira vez na vida justamente em Hamburg.
E foi sob esse episódio nostálgico que rumamos a Berlim.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Chegada na Alemanha (Trier - Colônia - Bonn)
Ao chegar em Trier, um tio de bigode extravagante veio ter conosco em alemão. Senti-me um inútil pela primeira vez na viagem. Não sabia ainda, mas passaria por momentos parecidos várias vezes, até conseguir pegar a lógica básica da “troca de ideias” desse povo germânico. Descemos do trem em Trier, dia 18, e fomos direto à Porta Negra – uma construção pouco mais recente que o nascimento do cabeludo milagroso. Pouco antes, vi uma loja de pianos. Nunca havia visto nada parecido; eram dezenas de pianos, uns valendo mais que apartamentos aí. Quando a velhinha disse que eu poderia me sentir à vontade e tocar se quisesse, eu me senti num parque de diversões. Toquei mais de uma hora em todos os pianos que consegui. Foi revigorante. Já havia tocado em três pianos europeus antes disso: um no hostel em Toulouse, um na biblioteca pública de Amsterdã e outro num restaurante de Bruges, onde fui convidado por um músico italiano que lá trabalhava (momento brilhante que esqueci de postar antes). Mas esses pianos alemães lavaram minha alma.
Não dormimos em Trier, afinal não há muito o que fazer lá. Logo viajamos a Colônia e, assim que chegamos, fui pedir ajuda para o local de informações da estação. Queríamos adiantar a compra dos bilhetes de trem para Hamburg, na sexta-feira, dia 20. Então, naturalmente, pensei “vou ser educado e perguntar, em alemão, se ela fala inglês”. Lembrando que meu alemão é “a la homem das cavernas”. A conversa que se seguiu, se traduzida, soaria mais ou menos assim:
- Boa noite! – disse eu, empolgado.
- Bom DIA. – respondeu a velhinha alemã com cara de contrariada.
- Bom dia. Eu não falo alemão muito bem, você fala inglês?
- Não.
- Hã... não?
- Não, só alemão. Tente em alemão mesmo.
Nessa hora eu gelei de cima a baixo, mas tentei manter a calma e respirei fundo:
- Ok, eu... quero... ir... Hamburg.
- Ah, ok, quer ir a Hamburg hoje?
- Sim... NÃO! Hoje não, ontem! Não, ontem NÃO! Amanhã... desculpa, UM DIA!
- Certo, você quer ir para Hamburg, mas não hoje...
- Sim!
- Você precisa comprar os bilhetes.
Então me concentrei muito e formulei a brilhante frase:
- Quem... posso... comprar?
- Desculpe?
- Quem eu posso comprar?
- Quem?
- É, quem eu posso comprar os bilhetes?
A confusão que eu fiz é até explicável: em inglês, os pronomes “quem” e “onde” são respectivamente traduzidos por “who” e “where”. Em alemão, por algum motivo diabólico, houve uma inversão, sendo respectivamente traduzidos por “wer” e “wo”. Eu queria perguntar “onde posso comprar?”, mas, pensando em inglês, disse “wer kann ich kaufen?”, o que, traduzindo, soaria como “quem posso eu comprar”. É óbvio que ela entendeu, mas queria me sacanear – fato percebido quando ela não conteve o sorrisinho no canto do rosto. Um outro atendente que estava só observando e rindo achou que a tortura tinha sido bastante e resolveu se intrometer:
- Ok, você pode falar inglês com a gente. Era só brincadeira.
“Vou levar esses arianos pro Zorra Total” – pensei meio indignado. Mas no fim das contas, acho que faria o mesmo; deve ter sido engraçado ver um brasileiro tentando “comprar alguém” na estação de trem.
Saindo da estação, a visão da catedral gigantesca e estilizada logo à esquerda me fez sentir um pecador. Fomos pegar um táxi com as bagagens até o hostel, como de costume. No entanto, ao entrarmos no carro, depois de organizarmos todas as mochilas e malas no porta-malas, o motorista perguntou onde íamos...
- Como assim?! Essa rua é aqui atrás! Não precisa de táxi para ir lá! – e, virando-se para outro taxista, continuou – eles querem ir na rua de trás!
Um pouco mais aborrecido com esses colonos, fomos a pé até a rua de trás.
No dia seguinte fomos de Colônia a Bonn, uma cidadezinha próxima dali onde simplesmente Beethoven nascera. Fomos lá especialmente para isso e visitamos a sua casa. Não preciso dizer o que foi aquilo. A Liliane chegou a chorar. Os instrumentos que ele tocara, os artefatos que utilizara quando descobriu sua surdez, as cartas de negação e de infelicidade conforme ia piorando sua audição... O trecho mais marcante foi o que ele escrevera ao seu irmão, dizendo a sua angústia quando alguém ouvia de longe o som de uma flauta que ele não escutava, ou quando chamavam seu nome e ele não ouvia. Ele demonstrava vergonha de sua condição e uma inconformidade absoluta; o áudio-guia fornecido para nós mostrava trechos de suas canções seguidas de como ele as escutava ao longo dos anos. Aos quase quarenta, já eram ruídos ínfimos e confusos demais. Ainda assim, ele seguia compondo. Grande Beethoven; eu toquei no cravo que ele tocava durante a infância. Por sorte ninguém me viu, senão creio que seria duramente advertido, ou quiçá expulso. Talvez deportado. Ok, chega de drama.
No dia seguinte, 20 de janeiro, visitamos a Catedral e, após, viajamos para Hamburg, sobretudo para que eu conhecesse a minha amiga virtual, Katrin, a qual conheci jogando xadrez online com uns 12 anos de idade, há mais ou menos 10 anos atrás, e com quem vim praticando inglês desde minha infância até os tempos recentes. O combinado é que eu a encontraria na estação central, já que chegaríamos mais ou menos ao mesmo tempo (ela vinha de Kiel, uma cidade mais ao norte). É claro que um imprevisto avassalador aconteceu, mas isso é assunto do próximo post. Auf Wiedersehen!
domingo, 29 de janeiro de 2012
Luxemburgo - O País Poliglota
16 de Janeiro de 2012
A cidade de Luxemburgo é muito simpática. Como dito anteriormente, tudo se parece com castelos medievais, e todas as pessoas são poliglotas por natureza – os três idiomas oficiais são Alemão, Luxemburguês e Francês, mas grande parte da população fala inglês, e 60% dos imigrantes que lá vivem são portugueses. Isso foi o que o primeiro taxista nos disse logo que chegamos. O transporte lá não é ruim – mas é complicado; chegar ao hostel exige táxi. E de todos os taxis que pegamos nesses dois dias lá, apenas um taxista não era português – era um italiano que falava OITO línguas, incluindo português. As outras eram: francês, inglês, luxemburguês, alemão, espanhol e dois dialetos italianos. “O saber não ocupa espaço”, dizia o sábio taxista dentro de seu carro luxuoso (como quase todos os táxis europeus). Mais tarde, completou “se uma moça interessante está conversando comigo, eu digo para falar em sua língua, pois eu vou entender; é melhor que ela saiba se expressar no próprio idioma”. Meu pensamento na hora foi “esse é galo velho” (só para introduzir a vulgaridade neste blog). O cara tinha quarenta e poucos anos, não tinha família e aparentava ser muito mais jovem. Nós nos despedimos dele admirados com o conhecimento daquele indivíduo, fazendo inevitáveis comparações com os taxistas brasileiros.
Ainda no dia 16, segunda-feira, chegamos pela noite por causa do incidente com o trem perdido. Descobrimos logo que a cidade fecha com o pôr-do-sol. O único restaurante aberto era, para a nossa infelicidade, o McDonald’s. Contrariados, chegamos lá. A atendente era uma senhora que falava quatro línguas. O outro funcionário me ajudou a chamar um táxi na volta. As comparações estavam só começando.
No dia seguinte, optamos por visitar um castelo medieval em vez de os pontos turísticos da cidade. No entanto, chegamos na cidade do castelo pouco depois das 16h. Ele fechava as 16h.
Ainda assim, foi bonito e divertido, principalmente no trem, quando um bando de crianças portuguesas entraram conversando muito alto naquela língua familiar e estranha ao mesmo tempo. Até pedi informação para um deles, que me respondeu em... francês. Sim, ao longo desse tempo percebi que eles misturam várias línguas no meio de uma conversa sem se dar conta. Vi isso em várias ocasiões, mas uma outra me foi muito mais marcante: dois jovens negros conversando sobre, provavelmente, alguma festa anterior: “então eu cheguei para a rapariga e perguntei ‘was machst du?’, mais elle n’a rien dit”, ou algo muito similar a isso (pelo menos foi o que anotei no momento). O cara misturou português, alemão e francês em um trecho de quatro verbos.
Luxemburgo havia sido até então o lugar mais frio da viagem. A fumacinha que sai de nossa boca no inverno gaúcho quando sopramos o hálito no frio úmido sai também de nossos narizes nessa terra pequena e antiga.
Essas poucas horas que passamos em Luxemburgo foram especiais; mas entender que é preciso cuidar o que dizemos em português num país europeu que não Portugal foi complicado. Quando estávamos na lanchonete do hostel, pela manhã do dia 17, perguntei em francês para o sujeito se havia algo para comer. Ele me disse que o café tinha encerrado (e ainda era muito cedo), mas que havia “aquele sanduíche ali”. O aspecto dele não era agradável, e antes que eu repetisse a proeza de Amsterdã, resolvi cortar o embalo ali, virando-me para a Liliane e dizendo algo do gênero: “só tem aqueles sanduíches meio feios ali, eu não quero comer isso, tu quer?”, tendo então o rapaz se pronunciado de novo com essas palavras: “pois então deves procurar uma outra cafeteria pelo centro da cidade!”. Esses portugueses... mal posso ver seus movimentos.
Pegamos o trem para a Alemanha no dia 18 pela manhã, rumo a Trier. A voz do maquinista me fez lembrar o Darth Vader.
E não houve mais fatos muito relevantes lá, terminando meu relato aqui.
Outro Final de Semana em Paris
Sexta feira, 13 de Janeiro de 2011
Quando chegamos a Paris, pelo fim da manhã, a Andreia (prima da Liliane que nos hospedara na Bretanha) nos esperava na estação. Ela iria viajar também e aproveitou para nos dar um abraço. Não só isso – me deu um pacote generoso de Gateau Bretão, que não resistiu nem ao fim de semana. Tomamos um café, os três, e depois nos despedimos; rumamos ao hostel St. Christopher de novo – aquele que é um bar/restaurante/boate/casa de shows/lan house/centro de informações turísticas E hostel ainda por cima –, tendo lá almoçado. Mais tarde, fui buscar a Júlia na Gare do Nord. Além de amiga, a moça em questão é minha veterana e madrinha na faculdade, sem citar a monitoria de anatomia (que ela dá muito bem, por sinal). É a simpatia em pessoa. Havíamos combinado de nos encontrar em Paris ainda no Brasil – veio estudar inglês em Londres durante essas férias. Fomos ao hostel e, de lá, rumamos ao Champs Elysées. Fizemos uma caminhada longa de uma ponta à outra, basicamente, tendo visto o obelisco e sua primeira visão da torre ao longe. Foi interessante ver a expressão dela ao vê-la pela primeira vez – muito parecida com a minha, ao descer a rodovia que liga Bordeaux a Paris. Não demorou muito para que eu descobrisse uma paixão da Ju: tirar fotos. O ponto positivo é que eu me descobri um fotógrafo amador em potencial. Não por talento, mas por prática: tirei várias fotos da futura médica, aprendendo a satisfazer a modelo com o tempo ao evitar algumas práticas, como: cortar a cúpula das igrejas, ignorar o teto dos monumentos, pegar mais o chão do que o necessário, esquecer os joelhos dela, etc. No último dia, já estava honrando a Escola Neocontemporânea Viamonense de Fotografia – mas muito longe dos japas. Como me disse o Diogo uma vez, “se tu queres uma foto perfeita, chame um japonês”. Eles se jogam no chão se for preciso, tiram várias fotos, mudam zoom, ângulo, foco e, por fim, ainda perguntam se estamos satisfeitos. E o melhor, segundo minha exigente veterana, é que não cobram nada por isso.
Afinal, pouca coisa não é cobrada na Europa. Foi preciso muita conversa para convencer os lugares a aceitar que ela não pagasse (por ser estudante na Europa). Mas com muito esforço e paciência, deu para poupar uma boa quantia. Depois do Champs Elysées, fomos em direção à roda gigante e entramos, ao fim da tarde, no parque que está justaposto a ela. O sol já havia se posto quase totalmente. Depois de sentarmos lá e observar a escuridão tomar conta, fomos convidados a nos retirar por um guardinha que estava fechando o jardim. Achamos a saída e fomos jantar. Após, vimos a Igreja de Madalena (o que eu julguei ser o Pantheon a princípio). Obviamente estava fechada, mas a vimos por fora. Voltamos ao hostel. No banheiro masculino, uma oriental saiu de uma das cabines ignorando o fato de eu estar lá. Isso me lembrou o primeiro dia que estive naquele hostel, quando quase me banhei no banheiro feminino por engano – o que não foi bem uma novidade para mim. “I’m afraid you’re in the men’s restroom...”. “O QUÊ?” respondeu a oriental apavorada. “Eu não sabia! Desculpa!”, tendo eu respondido calmamente que estava tudo bem, que era só para sua informação, mas que eu não me importava. De fato, não vejo problema nisso; acredito que a única razão para separarem-se os banheiros é que o homem, em geral, é um bicho porco. Contei para ela rapidamente sobre minha experiência na outra vez para que ela se sentisse menos envergonhada e saí de lá o mais logo possível.
Na manhã seguinte, enquanto a Liliane fora ao Museu do Louvre, eu e a Júlia fomos a Versalhes. Em ambos os lugares gasta-se o dia inteiro para uma visita decente. Almoçamos já na cidade de Versalhes e, só então, adentramos o palácio. Por ser a segunda vez, pude ver com mais detalhes tudo que já tinha visto, além de dar espaço a outras experiências visuais que passaram em branco na primeira visita; de tal modo, recomendo impetuosamente duas visitas a Versalhes, se possível for. Em primeiro lugar, fomos comprar os tickets. Depois de uma fila pródiga e de uma conversa tendenciosa com o atendente, conseguimos dois mapas em português e um ingresso gratuito à estudante. “É uma pena que não sou estudante também”, pensei levemente contrariado com as regras impostas, muito embora meu ego já estivesse acariciado por tê-lo convencido de franquear ao menos um ingresso.
Vimos primeiro os aposentos da Madame Adelaide, que, conforme fui informado, era amante do rei. Vimos em seguida os enormes apartamentos reais, que não ganham em nada do palácio de Madri. A sala do trono deste, aliás, era muito superior à do Luís XIV; talvez fosse por isso que eles brigavam tanto. A verdade é que a grande beleza de Versalhes está... no resto. Sim, o resto – os jardins, o grande canal, o Grand e o Petit Trianon – criados basicamente para as traições reais e para fugir-se das tediosas regras da nobreza –, as terras de Maria Antonieta, as casinhas seculares perdidas ao longo dos lagos habitados por cisnes e patos de cabeça verde, o templo do amor, os velhinhos atrapalhando fotos, as áreas proibidas, o sorvete...
Queríamos ver o pôr do sol onde marcava um sorvete no mapa. Era um laguinho muito bonito, com mais cisnes, onde provavelmente havia uma barraquinha de sorvete. No entanto, por volta das 17h (quando os sinais do pôr-do-sol tornavam-se evidentes), já estávamos longe demais, e resolvemos cortar caminho... e é claro que nos perdemos. Subimos e descemos morrinhos, passamos por hortas, atravessamos cercas proibidas e andamos vários minutos em um local não permitido, até finalmente acharmos um caminho legalizado de novo. Um verdadeiro Bad Boy... e uma Bad Girl em potencial, é claro.
Quando chegamos ao sorvete do mapa, a noite já havia caído. Mas foi bonito igualmente. Versalhes é um lugar inspirador, recomendado a qualquer pessoa que desfrute de um mínimo de sensibilidade, seja ela artística ou emocional. Ou ambas.
Quando o cisne estava cansando de nossa presença, voltamos à entrada da cidade e pegamos o trem de volta a Paris. Ao menos essa era a ideia; não obstante, enquanto nos divertíamos brincando de contar em francês, acabamos descendo várias paradas depois, já em outra cidade da periferia; pedindo algumas informações, fomos auxiliados por um senhor sinistro (como todos naquela estação). Chegamos ao hostel naquela noite com a certeza de que quem tem boca vai a... Paris.
Jantamos algo no hostel mesmo, ouvimos os relatos invejáveis do museu do Louvre e, mais à noitinha, saímos para caminhar pelo canal próximo dali. A união do frio e do vento gélido em frente a um desvio do Sena é um dos fatores que te fazem tremer incessantemente numa noite de inverno em Paris. Paralelo a isso, é um sublime e inspirador estímulo àqueles que dele desfrutam. Versalhes é um lugar ímpar, de fato; no entanto, somos nós mesmos que arquitetamos nosso templo – seja ele onde for.
Quando nossa homeostase já estava comprometida pelo frio, decidimos que era hora de voltar ao hostel.
Na manhã seguinte, fomos às catacumbas. O lugar é meio arrepiante, mas é mais pelo desejo dos planejadores do que por algum encanto pessoal do cemitério subterrâneo. As dezenas de degraus descendentes, as grades separando pequenas jaulas, os corredores escuros, os milhares de crânios dispostos em cima uns dos outros, alguns em formatos geométricos (até em coração, como bem percebeu a Júlia), as frases em latim ou em francês sobre filosofia fúnebre, as goteiras assombrosas vindas de sabe-se lá onde... tudo isso dava um ar de filme de terror; todavia, a parte que deveria nos causar mais espantos (as ossadas) já nos era mais do que trivial – era matéria de prova no ano anterior.
De lá, fomos ao arco do triunfo. Subimos; conforme eu me certificaria mais tarde, a vista é inferior à da torre, muito embora eu tenha pensado justamente o contrário enquanto estava nas alturas do arco triunfal que Napoleão ergueu aos seus soldados vencedores. E por falar nele, fomos até o museu da Armada, em Les Invalides, onde se encontra o imponente túmulo de Napoleão. É engraçado imaginar que, dentro daquele caixão gigantesco elevado a vários metros de altura está enterrado um sujeito de 1,50m que dominou a Europa há cerca de duzentos anos.
Após, alugamos uma bicicleta – faça isso. É um jeito barato, simples e muito gratificante de conhecer a cidade. Infelizmente, não pensamos nisso antes; a bicicleta pode ser alugada na rua mesmo (através de uma maquininha) e devolvida em vários pontos semelhantes ao que se pega. Aconselha-se entretanto pedir ajuda a um nativo, pois pode parecer meio difícil de início lidar com a máquina de locação. Enfim, demos um passeio enquanto tínhamos tempo – as reservas para a torre Eiffel eram para as 16:30. Pedimos para um japonês tirar uma foto nossa – são os melhores fotógrafos. Vimos um jardim em frente a torre muito bonito, com chafarizes e estátuas interessantes, uma bela escadaria e uma vista privilegiada da torre. Na hora exata, subimos ao segundo andar da torre Eiffel. Depois de um tempo, subimos ao terceiro andar. Lá encontram-se bonecos de cera (creio) perfeitos representando Thomas Edson, o Sr. Eiffel (esqueci o primeiro nome) e uma mulher que sequer vi o nome. Pareciam tão reais que levei alguns segundos para entender que não eram.
Comemos algo lá mesmo e voltamos ao hostel. No metrô, um sujeito desses chatos veio me pedir para passar pela portinha comigo, sem pagar. A reação que eu tive foi meio atípica; fingindo não entender francês direito, falei palavras soltas sem uma ordem coerente, o que, para ele, deve ter soado mais ou menos assim: “dar vai não, passar eu por baixo talvez também ela com”. E ele arregalou os olhos: “O quê?!” e eu continuei a tática com muita seriedade: “dar não vai, eu com ela, depois também passar”. O cara me olhou incrédulo, entendendo que eu era estrangeiro e fez uma expressão do tipo “Ah!”, meio indignado, saindo e tentando passar com outro cara. Desde então, quando contei o que tinha feito, ela ainda ri de mim; mas, bem ou mal, a tática funcionou.
No hostel, conversamos um pouco e caímos no sono. Era hora de subir; lá em cima, ainda mostrei-lhe a linda escaleta (ou melódica, como chamam aqui) que havia comprado em Barcelona; ela tocou um pouco, até uma oriental irritada nos censurar. Dormimos.
Na manhã de segunda-feira, dia 16, fomos aos Jardins de Luxemburgo. É um dos locais mais charmosos que vi na cidade, bem aconselhado a quem busca um novo alento às inspirações efêmeras – aliás, a cidade é ideal para isso.
Na minha segunda visita a Paris, pude confirmar algo que já havia preconizado na primeira vez que pisei na bela e famosa metrópole: as expectativas prévias podem decepcionar o turista; o ideal é ir lá sabendo que, como toda grande cidade, esta também tem seus defeitos – não é só feita de torres, monumentos e jardins românticos; o metrô não é dos melhores (aliás, comparado ao de Hamburg, é um fusca); as pessoas não são mesmo muito amigáveis (ainda que fales francês); há um trânsito complicado e vulnerável; há uma certa desorganização em vários aspectos sociais e principalmente turísticos, fazendo-me crer que, quem não fala o básico de francês, pode vir a ter sérias dificuldades de pedir informação, comer e até abrigar-se. Entretanto, temos tudo isso ainda em pior escala no Brasil; o que se esperava? O paraíso que idealizamos em nossa mente fantasiosa existe, sim, mas definitivamente não é um lugar, não é Paris – é a satisfação ao colher-se os frutos de momentos especiais sem esperar nada além do que nos já é trazido. Vivenciar isso em frente a um jardim parisiense – esse é o segredo.
Depois de sentarmos por muito tempo em frente a um laguinho à companhia de patos e de outras aves, fomos almoçar algo. Até então, havia sido o lugar de maior dificuldade para pedir-se a comida; demoramos para entender que o formoso bife de frango com queijo derretido era, na verdade, uma torrada com ovos (?). Nossa indecisão, aliada à típica indiferença parisiense, fez com que a mulher do restaurante nos ignorasse por horas. Mas o frio e a preguiça nos manteve sentados lá, esperando que a boa vontade dela surgisse espontaneamente. Se fosse no Brasil, já teríamos nos levantado e ido embora ofendidos. Mas que diferença faria fazer isso lá, uma vez que o próximo restaurante nos tratará de forma idêntica? Bom, um dia ela veio até nós, e então comemos.
Ao dobrarmos a esquina, a minha intuição atipicamente estava correta e encontramos o Pantheon. Ela queria tanto vê-lo – e, segundo lembrais, não pude nele adentrar na última visita. Fechamos o fim de semana parisiense com chave de ouro, vendo o local onde grandes nomes revolucionários se reuniam no passado. Há um pêndulo gigantesco o qual não compreendemos muito bem, mas, segundo o pouco que extraí de um vídeo próximo, indica as horas através do movimento terrestre. O local se assemelha a uma igreja, mas é muito mais interessante – uma vez que não é uma igreja. Vale a pena dedicar um tempo ao formoso monumento.
Mas evitem fazer isso quando se tem uma passagem de trem comprada para alguns minutos depois.
Quando me despedi da Júlia, no metrô, ela foi ao museu do Louvre, e eu segui ao hostel. O alívio à minha consciência veio quando soube que não fora só o meu atraso que nos fez perder o trem a Luxemburgo; a Liliane ficara quase meia hora presa no elevador. Por conta de uma confusãozinha de fuso-horário, a Ju também acabou perdendo o trem de volta a Londres, e ambos chegamos aos nossos destinos bem pela noite.
Depois de um fim de semana muito agradável, chegamos ao minúsculo país ao lado da Bélgica, entre a França e a Alemanha. Se na capital belga já era complicado entender a convivência de dois idiomas tão contrastantes, pasmem: em Luxemburgo se fala Alemão, Luxemburguês, Francês e… bom, eu me comuniquei em Português em basicamente metade da nossa estadia no medieval ducado, onde tudo se parece com castelos feudais.
Porém, isso é assunto para o próximo relato. Au revoir!
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