domingo, 29 de janeiro de 2012

Luxemburgo - O País Poliglota

16 de Janeiro de 2012
A cidade de Luxemburgo é muito simpática. Como dito anteriormente, tudo se parece com castelos medievais, e todas as pessoas são poliglotas por natureza – os três idiomas oficiais são Alemão, Luxemburguês e Francês, mas grande parte da população fala inglês, e 60% dos imigrantes que lá vivem são portugueses. Isso foi o que o primeiro taxista nos disse logo que chegamos. O transporte lá não é ruim – mas é complicado; chegar ao hostel exige táxi. E de todos os taxis que pegamos nesses dois dias lá, apenas um taxista não era português – era um italiano que falava OITO línguas, incluindo português. As outras eram: francês, inglês, luxemburguês, alemão, espanhol e dois dialetos italianos. “O saber não ocupa espaço”, dizia o sábio taxista dentro de seu carro luxuoso (como quase todos os táxis europeus). Mais tarde, completou “se uma moça interessante está conversando comigo, eu digo para falar em sua língua, pois eu vou entender; é melhor que ela saiba se expressar no próprio idioma”. Meu pensamento na hora foi “esse é galo velho” (só para introduzir a vulgaridade neste blog). O cara tinha quarenta e poucos anos, não tinha família e aparentava ser muito mais jovem. Nós nos despedimos dele admirados com o conhecimento daquele indivíduo, fazendo inevitáveis comparações com os taxistas brasileiros.
Ainda no dia 16, segunda-feira, chegamos pela noite por causa do incidente com o trem perdido. Descobrimos logo que a cidade fecha com o pôr-do-sol. O único restaurante aberto era, para a nossa infelicidade, o McDonald’s. Contrariados, chegamos lá. A atendente era uma senhora que falava quatro línguas. O outro funcionário me ajudou a chamar um táxi na volta. As comparações estavam só começando.
No dia seguinte, optamos por visitar um castelo medieval em vez de os pontos turísticos da cidade. No entanto, chegamos na cidade do castelo pouco depois das 16h. Ele fechava as 16h.
Ainda assim, foi bonito e divertido, principalmente no trem, quando um bando de crianças portuguesas entraram conversando muito alto naquela língua familiar e estranha ao mesmo tempo. Até pedi informação para um deles, que me respondeu em... francês. Sim, ao longo desse tempo percebi que eles misturam várias línguas no meio de uma conversa sem se dar conta. Vi isso em várias ocasiões, mas uma outra me foi muito mais marcante: dois jovens negros conversando sobre, provavelmente, alguma festa anterior: “então eu cheguei para a rapariga e perguntei ‘was machst du?’, mais elle n’a rien dit”, ou algo muito similar a isso (pelo menos foi o que anotei no momento). O cara misturou português, alemão e francês em um trecho de quatro verbos.
Luxemburgo havia sido até então o lugar mais frio da viagem. A fumacinha que sai de nossa boca no inverno gaúcho quando sopramos o hálito no frio úmido sai também de nossos narizes nessa terra pequena e antiga.
Essas poucas horas que passamos em Luxemburgo foram especiais; mas entender que é preciso cuidar o que dizemos em português num país europeu que não Portugal foi complicado. Quando estávamos na lanchonete do hostel, pela manhã do dia 17, perguntei em francês para o sujeito se havia algo para comer. Ele me disse que o café tinha encerrado (e ainda era muito cedo), mas que havia “aquele sanduíche ali”. O aspecto dele não era agradável, e antes que eu repetisse a proeza de Amsterdã, resolvi cortar o embalo ali, virando-me para a Liliane e dizendo algo do gênero: “só tem aqueles sanduíches meio feios ali, eu não quero comer isso, tu quer?”, tendo então o rapaz se pronunciado de novo com essas palavras: “pois então deves procurar uma outra cafeteria pelo centro da cidade!”. Esses portugueses... mal posso ver seus movimentos.
Pegamos o trem para a Alemanha no dia 18 pela manhã, rumo a Trier. A voz do maquinista me fez lembrar o Darth Vader.
E não houve mais fatos muito relevantes lá, terminando meu relato aqui.

Outro Final de Semana em Paris

Sexta feira, 13 de Janeiro de 2011
Quando chegamos a Paris, pelo fim da manhã, a Andreia (prima da Liliane que nos hospedara na Bretanha) nos esperava na estação. Ela iria viajar também e aproveitou para nos dar um abraço. Não só isso – me deu um pacote generoso de Gateau Bretão, que não resistiu nem ao fim de semana. Tomamos um café, os três, e depois nos despedimos; rumamos ao hostel St. Christopher de novo – aquele que é um bar/restaurante/boate/casa de shows/lan house/centro de informações turísticas E hostel ainda por cima –, tendo lá almoçado. Mais tarde, fui buscar a Júlia na Gare do Nord. Além de amiga, a moça em questão é minha veterana e madrinha na faculdade, sem citar a monitoria de anatomia (que ela dá muito bem, por sinal). É a simpatia em pessoa. Havíamos combinado de nos encontrar em Paris ainda no Brasil – veio estudar inglês em Londres durante essas férias. Fomos ao hostel e, de lá, rumamos ao Champs Elysées. Fizemos uma caminhada longa de uma ponta à outra, basicamente, tendo visto o obelisco e sua primeira visão da torre ao longe. Foi interessante ver a expressão dela ao vê-la pela primeira vez – muito parecida com a minha, ao descer a rodovia que liga Bordeaux a Paris. Não demorou muito para que eu descobrisse uma paixão da Ju: tirar fotos. O ponto positivo é que eu me descobri um fotógrafo amador em potencial. Não por talento, mas por prática: tirei várias fotos da futura médica, aprendendo a satisfazer a modelo com o tempo ao evitar algumas práticas, como: cortar a cúpula das igrejas, ignorar o teto dos monumentos, pegar mais o chão do que o necessário, esquecer os joelhos dela, etc. No último dia, já estava honrando a Escola Neocontemporânea Viamonense de Fotografia – mas muito longe dos japas. Como me disse o Diogo uma vez, “se tu queres uma foto perfeita, chame um japonês”. Eles se jogam no chão se for preciso, tiram várias fotos, mudam zoom, ângulo, foco e, por fim, ainda perguntam se estamos satisfeitos. E o melhor, segundo minha exigente veterana, é que não cobram nada por isso.
Afinal, pouca coisa não é cobrada na Europa. Foi preciso muita conversa para convencer os lugares a aceitar que ela não pagasse (por ser estudante na Europa). Mas com muito esforço e paciência, deu para poupar uma boa quantia. Depois do Champs Elysées, fomos em direção à roda gigante e entramos, ao fim da tarde, no parque que está justaposto a ela. O sol já havia se posto quase totalmente. Depois de sentarmos lá e observar a escuridão tomar conta, fomos convidados a nos retirar por um guardinha que estava fechando o jardim. Achamos a saída e fomos jantar. Após, vimos a Igreja de Madalena (o que eu julguei ser o Pantheon a princípio). Obviamente estava fechada, mas a vimos por fora. Voltamos ao hostel. No banheiro masculino, uma oriental saiu de uma das cabines ignorando o fato de eu estar lá. Isso me lembrou o primeiro dia que estive naquele hostel, quando quase me banhei no banheiro feminino por engano – o que não foi bem uma novidade para mim. “I’m afraid you’re in the men’s restroom...”. “O QUÊ?” respondeu a oriental apavorada. “Eu não sabia! Desculpa!”, tendo eu respondido calmamente que estava tudo bem, que era só para sua informação, mas que eu não me importava. De fato, não vejo problema nisso; acredito que a única razão para separarem-se os banheiros é que o homem, em geral, é um bicho porco. Contei para ela rapidamente sobre minha experiência na outra vez para que ela se sentisse menos envergonhada e saí de lá o mais logo possível.
Na manhã seguinte, enquanto a Liliane fora ao Museu do Louvre, eu e a Júlia fomos a Versalhes. Em ambos os lugares gasta-se o dia inteiro para uma visita decente. Almoçamos já na cidade de Versalhes e, só então, adentramos o palácio. Por ser a segunda vez, pude ver com mais detalhes tudo que já tinha visto, além de dar espaço a outras experiências visuais que passaram em branco na primeira visita; de tal modo, recomendo impetuosamente duas visitas a Versalhes, se possível for. Em primeiro lugar, fomos comprar os tickets. Depois de uma fila pródiga e de uma conversa tendenciosa com o atendente, conseguimos dois mapas em português e um ingresso gratuito à estudante. “É uma pena que não sou estudante também”, pensei levemente contrariado com as regras impostas, muito embora meu ego já estivesse acariciado por tê-lo convencido de franquear ao menos um ingresso.
Vimos primeiro os aposentos da Madame Adelaide, que, conforme fui informado, era amante do rei. Vimos em seguida os enormes apartamentos reais, que não ganham em nada do palácio de Madri. A sala do trono deste, aliás, era muito superior à do Luís XIV; talvez fosse por isso que eles brigavam tanto. A verdade é que a grande beleza de Versalhes está... no resto. Sim, o resto – os jardins, o grande canal, o Grand e o Petit Trianon – criados basicamente para as traições reais e para fugir-se das tediosas regras da nobreza –, as terras de Maria Antonieta, as casinhas seculares perdidas ao longo dos lagos habitados por cisnes e patos de cabeça verde, o templo do amor, os velhinhos atrapalhando fotos, as áreas proibidas, o sorvete...
Queríamos ver o pôr do sol onde marcava um sorvete no mapa. Era um laguinho muito bonito, com mais cisnes, onde provavelmente havia uma barraquinha de sorvete. No entanto, por volta das 17h (quando os sinais do pôr-do-sol tornavam-se evidentes), já estávamos longe demais, e resolvemos cortar caminho... e é claro que nos perdemos. Subimos e descemos morrinhos, passamos por hortas, atravessamos cercas proibidas e andamos vários minutos em um local não permitido, até finalmente acharmos um caminho legalizado de novo. Um verdadeiro Bad Boy... e uma Bad Girl em potencial, é claro.
Quando chegamos ao sorvete do mapa, a noite já havia caído. Mas foi bonito igualmente. Versalhes é um lugar inspirador, recomendado a qualquer pessoa que desfrute de um mínimo de sensibilidade, seja ela artística ou emocional. Ou ambas.
Quando o cisne estava cansando de nossa presença, voltamos à entrada da cidade e pegamos o trem de volta a Paris. Ao menos essa era a ideia; não obstante, enquanto nos divertíamos brincando de contar em francês, acabamos descendo várias paradas depois, já em outra cidade da periferia; pedindo algumas informações, fomos auxiliados por um senhor sinistro (como todos naquela estação). Chegamos ao hostel naquela noite com a certeza de que quem tem boca vai a... Paris.
Jantamos algo no hostel mesmo, ouvimos os relatos invejáveis do museu do Louvre e, mais à noitinha, saímos para caminhar pelo canal próximo dali. A união do frio e do vento gélido em frente a um desvio do Sena é um dos fatores que te fazem tremer incessantemente numa noite de inverno em Paris. Paralelo a isso, é um sublime e inspirador estímulo àqueles que dele desfrutam. Versalhes é um lugar ímpar, de fato; no entanto, somos nós mesmos que arquitetamos nosso templo – seja ele onde for.
Quando nossa homeostase já estava comprometida pelo frio, decidimos que era hora de voltar ao hostel.
Na manhã seguinte, fomos às catacumbas. O lugar é meio arrepiante, mas é mais pelo desejo dos planejadores do que por algum encanto pessoal do cemitério subterrâneo. As dezenas de degraus descendentes, as grades separando pequenas jaulas, os corredores escuros, os milhares de crânios dispostos em cima uns dos outros, alguns em formatos geométricos (até em coração, como bem percebeu a Júlia), as frases em latim ou em francês sobre filosofia fúnebre, as goteiras assombrosas vindas de sabe-se lá onde... tudo isso dava um ar de filme de terror; todavia, a parte que deveria nos causar mais espantos (as ossadas) já nos era mais do que trivial – era matéria de prova no ano anterior.
De lá, fomos ao arco do triunfo. Subimos; conforme eu me certificaria mais tarde, a vista é inferior à da torre, muito embora eu tenha pensado justamente o contrário enquanto estava nas alturas do arco triunfal que Napoleão ergueu aos seus soldados vencedores. E por falar nele, fomos até o museu da Armada, em Les Invalides, onde se encontra o imponente túmulo de Napoleão. É engraçado imaginar que, dentro daquele caixão gigantesco elevado a vários metros de altura está enterrado um sujeito de 1,50m que dominou a Europa há cerca de duzentos anos.
Após, alugamos uma bicicleta – faça isso. É um jeito barato, simples e muito gratificante de conhecer a cidade. Infelizmente, não pensamos nisso antes; a bicicleta pode ser alugada na rua mesmo (através de uma maquininha) e devolvida em vários pontos semelhantes ao que se pega. Aconselha-se entretanto pedir ajuda a um nativo, pois pode parecer meio difícil de início lidar com a máquina de locação. Enfim, demos um passeio enquanto tínhamos tempo – as reservas para a torre Eiffel eram para as 16:30. Pedimos para um japonês tirar uma foto nossa – são os melhores fotógrafos. Vimos um jardim em frente a torre muito bonito, com chafarizes e estátuas interessantes, uma bela escadaria e uma vista privilegiada da torre. Na hora exata, subimos ao segundo andar da torre Eiffel. Depois de um tempo, subimos ao terceiro andar. Lá encontram-se bonecos de cera (creio) perfeitos representando Thomas Edson, o Sr. Eiffel (esqueci o primeiro nome) e uma mulher que sequer vi o nome. Pareciam tão reais que levei alguns segundos para entender que não eram.
Comemos algo lá mesmo e voltamos ao hostel. No metrô, um sujeito desses chatos veio me pedir para passar pela portinha comigo, sem pagar. A reação que eu tive foi meio atípica; fingindo não entender francês direito, falei palavras soltas sem uma ordem coerente, o que, para ele, deve ter soado mais ou menos assim: “dar vai não, passar eu por baixo talvez também ela com”. E ele arregalou os olhos: “O quê?!” e eu continuei a tática com muita seriedade: “dar não vai, eu com ela, depois também passar”. O cara me olhou incrédulo, entendendo que eu era estrangeiro e fez uma expressão do tipo “Ah!”, meio indignado, saindo e tentando passar com outro cara. Desde então, quando contei o que tinha feito, ela ainda ri de mim; mas, bem ou mal, a tática funcionou.
No hostel, conversamos um pouco e caímos no sono. Era hora de subir; lá em cima, ainda mostrei-lhe a linda escaleta (ou melódica, como chamam aqui) que havia comprado em Barcelona; ela tocou um pouco, até uma oriental irritada nos censurar. Dormimos.
Na manhã de segunda-feira, dia 16, fomos aos Jardins de Luxemburgo. É um dos locais mais charmosos que vi na cidade, bem aconselhado a quem busca um novo alento às inspirações efêmeras – aliás, a cidade é ideal para isso.
Na minha segunda visita a Paris, pude confirmar algo que já havia preconizado na primeira vez que pisei na bela e famosa metrópole: as expectativas prévias podem decepcionar o turista; o ideal é ir lá sabendo que, como toda grande cidade, esta também tem seus defeitos – não é só feita de torres, monumentos e jardins românticos; o metrô não é dos melhores (aliás, comparado ao de Hamburg, é um fusca); as pessoas não são mesmo muito amigáveis (ainda que fales francês); há um trânsito complicado e vulnerável; há uma certa desorganização em vários aspectos sociais e principalmente turísticos, fazendo-me crer que, quem não fala o básico de francês, pode vir a ter sérias dificuldades de pedir informação, comer e até abrigar-se. Entretanto, temos tudo isso ainda em pior escala no Brasil; o que se esperava? O paraíso que idealizamos em nossa mente fantasiosa existe, sim, mas definitivamente não é um lugar, não é Paris – é a satisfação ao colher-se os frutos de momentos especiais sem esperar nada além do que nos já é trazido. Vivenciar isso em frente a um jardim parisiense – esse é o segredo.
Depois de sentarmos por muito tempo em frente a um laguinho à companhia de patos e de outras aves, fomos almoçar algo. Até então, havia sido o lugar de maior dificuldade para pedir-se a comida; demoramos para entender que o formoso bife de frango com queijo derretido era, na verdade, uma torrada com ovos (?). Nossa indecisão, aliada à típica indiferença parisiense, fez com que a mulher do restaurante nos ignorasse por horas. Mas o frio e a preguiça nos manteve sentados lá, esperando que a boa vontade dela surgisse espontaneamente. Se fosse no Brasil, já teríamos nos levantado e ido embora ofendidos. Mas que diferença faria fazer isso lá, uma vez que o próximo restaurante nos tratará de forma idêntica? Bom, um dia ela veio até nós, e então comemos.
Ao dobrarmos a esquina, a minha intuição atipicamente estava correta e encontramos o Pantheon. Ela queria tanto vê-lo – e, segundo lembrais, não pude nele adentrar na última visita. Fechamos o fim de semana parisiense com chave de ouro, vendo o local onde grandes nomes revolucionários se reuniam no passado. Há um pêndulo gigantesco o qual não compreendemos muito bem, mas, segundo o pouco que extraí de um vídeo próximo, indica as horas através do movimento terrestre. O local se assemelha a uma igreja, mas é muito mais interessante – uma vez que não é uma igreja. Vale a pena dedicar um tempo ao formoso monumento.
Mas evitem fazer isso quando se tem uma passagem de trem comprada para alguns minutos depois.
Quando me despedi da Júlia, no metrô, ela foi ao museu do Louvre, e eu segui ao hostel. O alívio à minha consciência veio quando soube que não fora só o meu atraso que nos fez perder o trem a Luxemburgo; a Liliane ficara quase meia hora presa no elevador. Por conta de uma confusãozinha de fuso-horário, a Ju também acabou perdendo o trem de volta a Londres, e ambos chegamos aos nossos destinos bem pela noite.
Depois de um fim de semana muito agradável, chegamos ao minúsculo país ao lado da Bélgica, entre a França e a Alemanha. Se na capital belga já era complicado entender a convivência de dois idiomas tão contrastantes, pasmem: em Luxemburgo se fala Alemão, Luxemburguês, Francês e… bom, eu me comuniquei em Português em basicamente metade da nossa estadia no medieval ducado, onde tudo se parece com castelos feudais.
Porém, isso é assunto para o próximo relato. Au revoir!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Bruxelas - A Capital da Europa (9/1 a 13/1)

Dia 9 de janeiro de 2012:
Logo na estação central de Bruxelas já vi, no banheiro, uma mulher belga xingando uma faxineira, dizendo que ela sequer sabe falar francês direito, que voltasse ao seu país. A outra, em sua defesa, acusou-a de racismo. A ironia é que ambas são da mesma raça (se é que esse é o termo). De qualquer forma, percebi que seria um lugar de fácil comunicação. Grande parte da população (a grande maioria dos que conheci) falava francês E inglês, muito embora houvesse lá os nórdicos camuflados falando um flamenco ameaçador. Eles evitam o termo “neerlandês” – que, na realidade, é sinônimo de flamenco –, mas não entendi se o fazem por tradição ou por orgulho. Antes de continuar o relato, um pequeno resumo do país.
A Bélgica tem dois idiomas oficiais: o neerlandês (no norte do país) e o francês (no sul). Na capital, Bruxelas, falam-se ambas as línguas – inclusive veem-se placas de rua, anúncios, outdoors, tudo nas duas línguas, um ao lado do outro, e muitas vezes repetindo a imagem, trocando só o idioma. É engraçado ver dois idiomas tão absurdamente opostos lado a lado. Talvez seja por isso que haja tanta tendência separatista – as pessoas não se entendem. Certa vez, numa aula de geopolítica do cursinho, lembro-me de ter ouvido que, no norte, as pessoas aprendem o francês como segunda língua, enquanto no sul eles se negam a aprender o flamenco/neerlandês. Franceses... sempre mais rebeldes.
Fomos na famosa catedral que sequer me lembro por dentro, mas era bonita por fora. Já estou farto de igrejas. No hostel, havia uns argentinos gente boa – leia-se: não eram portenhos. Eram de Santa Fé, perto de Rosário. Eram um casal e mais um solteirão. Mais à noite, no bar do hostel, o casal dançou um tango cantado à garganta pura por um outro cara. Foi o tango mais bem dançado que já vi, tendo-me feito parar o que estava fazendo e observar cada movimento. Talvez pelo fato de eles se gostarem, além de saberem dançar bem – o fato é que o hostel parou para observar o espetáculo.
Dia 10/1: Bruxelas não é nem de perto tão bonita quanto Amsterdã. Pelo contrário  - a cidade é, de certa forma, feia. Mas simpática. É um local onde tu te sentes bem inexplicavelmente. O céu é cinza, as construções também, mas há uma paz lá que ninguém sabe de onde vem. As pessoas são menos nórdicas, mais baixas, menos louras e mais simpáticas. Diz-se lá que a cidade é a capital da Europa, mas que não se deve esperar muita euforia e ufanismo por isso (para quem não sabe, é a sede do Parlamento Europeu, onde foi fundada a União Europeia. Fomos ver o símbolo da cidade: a estátua do menino urinando. Esperava, como todo turista, algo gigantesco, mas é tão insignificante que passamos por ela sem notar enquanto a procurávamos. Ao lado, uma loja de chocolates vendia uma réplica achocolatada da estátua umas dez vezes maior. Após, fomos ao museu da música, casualmente encontrado na rua. Apesar de desorganizado, ver aqueles instrumentos medievais e antigos foi excitante para um músico e curioso. Não aguentei quando vi um cravo do século XVI, tendo tocado um acorde de lá menor nele, apesar dos avisos. Não demorou para que uma voz lá do fundo me advertisse: “HEY! DON’T TOUCH!”. No andar de cima, toquei novamente um cravo ainda mais velho, mas o som era tão alto que fugi para o terceiro andar antes que alguém me achasse. Após, fui ao palácio real – longa caminhada – para descobrir sem muita alegria que ele é fechado a visitas. Imaginei que seja porque a família real belga ainda mora lá, mas prefiro não afirmar. Por fora, é lindo – tanto quanto o castelo de Versalhes, ou mais. Os jardins e a arquitetura preservam a ideia medieval de opulência real. Havia dois guardas reais marchando com uma espingarda cano fino em direções opostas na frente da porta principal, tão concentrados que fingiram não se incomodar com a minha filmagem. Na volta ao hostel, conheci um galego (espanhol da região da Galícia, acima de Portugal). O cara era muito estranho e fedia a urina seca, mas descobri algumas curiosidades com ele. A língua é mais semelhante ao castelhano, mas há muito de português nela; diz-se lá que o galego é o pai do português e o irmão do espanhol. Que são muito menos separatistas que a Catalúnia. Disse também que, com seus pais, fala galego, mas com seus irmãos, castelhano. E que com algumas pessoas os idiomas são misturados. Vai entender...
No bar do hostel, provei umas das melhores cervejas da minha vida. Os nomes eram: Caracole, Forestine, Barbar e mais duas ótimas que esqueci. Tanto as do tipo Blonde quanto as do tipo Blanche são melhores que as Pilsen e as Weiss comercializadas no Brasil (mesmo as de nível), no entanto ainda há um terceiro tipo lá (eu não sei por que raios não anotei), mais morena, amarga, típica do país, e foi o que mais gostei (se não me engano, a Barbar é desse tipo). O guia de Bruxelas no hostel escrito por nativos dizia: “os turistas sentem gosto de urina nela, mas eles não sabem de nada”. Se urina fosse assim, seria muito bem vendida no mercado. A cerveja desce como se fosse um alimento, um chocolate líquido, algo nobre, respeitoso, gélido e amargo. A pergunta que fica é “como podem considerar aquelas latinhas que se toma no Brasil como cerveja?”. Não que não tenhamos também cervejas ótimas – as artesanais em geral são muito boas, algumas bem próximas desse nível, mas... bom, só provando para entender. E não me venham com Leffe; na Bélgica é sabido que boa parte da fábrica é brasileira, e ninguém a considera típica por lá. Enquanto na França a grande experiência que tive foi gastronômica (croissants, gateau bretain e pain au chocolate), a cerveja belga me deixou curioso para provar a Alemã. Realmente quero ver se pode haver algo melhor que isso em se tratando desta bebida mágica.
Creio que é um costume europeu invadir a calçada com o carro. No dia 11, quarta-feira, vimos isso mais uma vez enquanto íamos ao Hôtel de Ville. Apesar de interessante por fora, não recomendo entrar, muito menos fazer a visita guiada; perdemos quase duas horas em meio a belgas idosos sendo guiados por uma velhinha neurótica que só falava francês. Ela explicou todos os quadros, todas as tapeçarias e cada canto dos aposentos que passamos, lembrando sempre que não deveríamos tocar, respirar, andar, sentar, mexer, falar. Fiquei meio tenso com o tempo e desliguei o “lado bilíngue”, não prestando atenção em quase nada que ela falava do meio até o final. Após essa tortura, fomos ao átomo gigante. Outra observação importante é que o europeu tem o costume de levar seus cães para todo lugar, incluindo prédios públicos e até o metrô. Neste metrô, vi um cão lindo sentado ao lado da dona, tentando se equilibrar. Procurei conversar com ele, mas os cães da Bélgica não entendem português…
Chegando no Átomo gigante, construído na década de 50, se não me engano, num local muito afastado da cidade, descobrimos que ele estava fechado para reforma até o dia 13. Voltamos meio desolados, mas de cabeça erguida, afinal somos brasileiros. Enquanto, na volta do hostel, eu fazia por passatempo a prova deste ano da UFRGS de biologia (que se tornou muito mais fácil com os conhecimentos de medicina), duas paulistas vieram até mim, convidando-me para sair. Muito simpáticas e bem bonitas – tanto que achei que fossem brasileiras. Uma inclusive era loira e tinha olhos verdes. Aproveitei a companhia para seguir a indicação da Natália – levei-as ao Delirium, um bar que, segundo me parecia ter ouvido, “tem três andares, milhares de cervejas, uma delas é do elefantinho, é lindo, lindo, demais!!!”. É claro que a Natália exagerou um pouquinho, mas tudo bem; de fato o lugar tem três andares, embora o terceiro seja... o banheiro. As milhares de cervejas são menos de uma centena e grande parte não era belga; a cerveja “do elefantinho” era uma pilsen bem sem graça, e eu espero do fundo do coração que a Natália nunca leia isso. Mas depois de provar o terceiro copo de 1L de cerveja diferente, o bar tornou-se um ambiente muito divertido; fora a companhia, que estava ótima. É uma pena que o Brasil seja tão grande, pois, caso contrário, tenho a impressão de que seríamos um grande grupo de amigos com diferenças insignificantes, e não um território infinito com diversos povos unidos pelo futebol e pelo feijão com a arroz. De todos os brasileiros que conheci até agora na Europa, só teve um grupo que não gostei, lá em Madri, antes ainda dos nordestinos. Brasileiro definitivamente tem o seu diferencial, e foi preciso sair do país para que eu notasse e me orgulhasse disso.
Voltamos, eu e as duas gurias, e ficamos mais um tempo no hostel, conversando, etc.
No dia seguinte (12/1/12), fomos a Bruges, uma cidadezinha próxima muito simpática, bem medieval, onde o filme “Na Mira do Chefe” foi gravado. Queríamos dar uma volta de carruagem, e uma grega veio me perguntar como fazia justamente enquanto eu tentava descobrir. Quando vimos, estávamos nós dois e três gregas dentro de uma carruagem andando pelas ruas de Bruges – ideia da própria grega. Elas eram muito engraçadas; pareciam aquelas bruxinhas de filme infantil, que não fazem mal a ninguém, sendo apenas atrapalhadas ao fazerem seus feitiços porcamente. A aparência também não deixava por menos, exceto uma, que era mais normal; mas as três eram muito divertidas – me lembraram brasileiras. Passaram o tempo todo fazendo piada, e eu mal conseguia diferenciar seu sotaque no inglês do próprio grego, que é uma língua muito estranha. Para que a mulher da carruagem não percebesse que não nos conhecíamos, uma delas disse que eu era o marido dela. Passaram a chamar a Liliane de sogra. A senhora belga nórdica que nos levava acreditou piamente na história, mas certamente pensou “onde esse guri estava com a cabeça...?”.
Passamos quase cinco horas conversando num restaurante, eu e a Liliane. Às vezes é necessário tirar um tempo nessas jornadas infindáveis para trocar uma ideia, em detrimento de perder algo. A verdade é que, sabendo aproveitar essas pausas, ganha-se ainda mais. E foi com essa sensação que voltamos ao hostel; no entanto, o que seria mais uma noite agradável em Bruxelas foi a mais complicada da viagem: no quarto outrora quase vazio, uniram-se ao galego fedido mais três indivíduos – um velho fumante com um cheiro ardido de sei lá o quê, um gordo que roncava mais que motor de fusca e um terceiro cara que, sinceramente, já nem sei como contribuía  com a cena lastimável. Eu só consegui dormir abrindo a janela e usando tapadores de ouvido. O frio invadiu o quarto, mas preferi passar frio do que sentir aquele cheiro o resto da noite. Quanto aos roncos, viraram ruídos ao fundo com o meu ultra power protetor auricular. Apesar disso, a noite não fora nada agradável.
Na manhã do dia 13/1, rumamos de volta a Paris para o que seria o fim de semana mais marcante de toda a viagem até então.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Amsterdã - A Cidade Proibida (5/1/12 a 9/1/12)

“Em Amsterdã, você pode fazer o que quiser, você pode ser você mesmo. Ninguém liga. Você pode se sentir em liberdade para fazer tudo que você não pode ou não tem coragem no lugar de onde veio”

Essas palavras sábias foram adaptadas do discurso ouvido numa lanchonete , proferido por um viking barbudo, gordo e gigante para quatro francesinhas indefesas – as quais já estavam sentadas ali antes dele no dia 8 de janeiro.
Quando saímos da estação, no dia 5 de janeiro de 2012, quinta-feira, demorei para assimilar a vista. Foi como chegar num outro planeta. A cidade de Amsterdã é linda por si só: a liberdade que provém dela é só um pequeno plus. Vejam as fotos para ter uma breve e insignificante ideia do que é a arquitetura medieval reproduzida e mantida em larga escala, adaptada aos dias de hoje e misturada com a tecnologia dos transportes. Não se vê na Amsterdã central algum prédio novo. No entanto, não há nada arcaico. Tudo funciona, mas tenham em mente que funciona há mais de quatrocentos anos. Apesar de o povo ser pouco receptivo, são muito prestativos. Além do quê, só houve uma única vez em que encontrei alguém lá que não falava inglês. E foi ele que veio até mim, pedindo informação.

O hostel, como vários ambientes na cidade, fede à maconha. Ou melhor, cheira à maconha, porque a maconha de Amsterdã não fede. É comum a mistura com tabaco, mas a grande maioria das pessoas a utiliza pura, conforme vem, naturalmente cultivada e extraída do solo nacional, ação mediada e controlada pelo governo. Isso quer dizer: nada de dejetos bovinos, capim, outras ervas ou outras drogas, como é comum em nosso território. O uso da maconha em amsterdã oscila de terapêutico a social, podendo ser degustada a droga em qualquer local que permita (e são vários), ou ainda, pasmem, nas ruas. O efeito que isso gera é que se vê de tudo na cidade, principalmente de noite – nada parece realmente fazer sentido; tem gente pulando sozinho na madrugada fria, gente urinando em mictórios abertos fornecidos pelo governo, outros sentados no chão observando o céu, centenas de gargalhadas sem motivo, danças aleatórias sem música, pessoas sem noção de espaço/tempo e, por vezes, pessoas sem noção de que existem, mas isso não cheguei a ver – mais um importante extrato do discurso do viking. Ele também disse que inúmeras pessoas acabam indo a Amsterdã e não saem mais. Ou porque se apaixonaram, ou porque morreram – tendo citado os casos de morte acidental devido ao abuso de drogas e à perda de propriocepção.

O hostel ficava no coração da cidade histórica, logo ao lado do famoso Bairro Vermelho (ou Red Light District, para os íntimos). A prostituição em Amsterdã é famosa há centenas de anos, tendo tentado contê-la sem sucesso os protestantes durante as reformas. Hoje, a prostituição legalizada também é centenária e restringe-se ao Bairro Vermelho, no qual, através das vitrines, podes escolher a prostituta que mais te atrai – como fazemos nas vitrines das padarias, decidindo o doce que vamos comer. Trata-se de um conjunto de ruazinhas históricas na maioria das quais mal passam dois homens lado a lado. As vitrines são portas, e dentro delas estão as mulheres seminuas (ou praticamente nuas) que, quando te veem, te chamam com muito vigor, oferecendo-se com esforço, abrem a porta, batem no vidro com as unhas, gritam. O valor é por volta de R$ 150,00, variando entre europeias e latinas, a grande maioria (pelo menos da parte em que estive) composta por mulheres atraentes. É claro que, mais adiante, há as gordinhas, velhas e até algumas coisas bizarras, mas como qualquer serviço, é preciso um padrão para se comparar.

Na frente do Hostel há um canal (várias ruas são assim), onde nadam patos e cisnes fantásticos!

No dia seguinte ao da chegada (6/1), fomos ao museu da Anne Frank, a criança judia morta nos campos de concentração que escrevia um diário enquanto se escondia agonizantemente dos nazistas com sua família em uma casa de Amsterdã. O museu é na sua casa. É arrepiante andar por onde essa criança andou, ver o banheiro intacto, o local onde ela ouviu a notícia no rádio sobre os ingleses, as escadinhas que ela subia, o sótão – único local onde ela podia ver a luz do sol durante esses anos de confinamento. A experiência é muito válida, e fiquei me lamentando por não ter lido o livro antes da visita; é algo que certamente farei.

Tentamos ir ao palácio, mas estava fechado. Fomos até a praça famosa, onde há a frase típica da cidade: I AMsterdan. Ao lado, uma pista de patinação no gelo fez minha alegria por mais de uma hora. Também fez roxos no meu joelho, mas não precisamos entrar em detalhes. Por aquela noite, saí sozinho para explorar a cidade. Peguei o Tram e fui em direção sul até uma das últimas paradas, procurando um bar recomendado. Enquanto eu ia andando na rua histórica e escura com o mapa em mãos, um indivíduo nórdico me parou e disse algo incompreensível. Pedi que repetisse três vezes, meio impaciente, até entender que era um singelo “Can I help you?”. No último, finalmente entendido, ele completou com “vejo que você tem um mapa nas mãos, talvez precisasse de ajuda”.

Se alguém fizer isso convosco em Amsterdã, principalmente nos confins do Red Light District, é melhor abrir o olho: muito provavelmente é alguém querendo vos vender cocaína. Nem toda droga é legalizada em Amsterdã, e é preciso lembrar que o tráfico também existe e também é um problema, como em qualquer lugar; o fato é que a liberação da maconha auxiliou e muito para reduzir os índices de traficância, e quem negar isso é hipócrita.

Mas não era esse o caso; o sujeito realmente queria me ajudar. A prestação de auxílio aos estrangeiros da parte dos holandeses também é famosa, conquanto sejam eles um povo de certa forma menos acolhedor que os mais sulinos. Para reconhecer um holandês, verifique seu tamanho e sua palidez – os outros 50% são turistas.

Depois de exagerar o dado acima para tornar o relato mais interessante, digo que neguei a ajuda e me encontrei. Uma das atrações mais interessantes da cidade é conversar com as pessoas. As experiências que as pessoas te contam em uma só conversa valem ouro. Algumas que recordo envolvem a crença de que se é um cogumelo, a dúvida se está ou não nevando sobre a própria cabeça, o medo de ser confundido com um terrorista, o esquecimento da legalização em pleno uso, mas cada pessoa relata um ponto, uma sensação e uma opinião diferentes.

Na volta para o hostel, o motorista do bus noturno deixou que eu não pagasse o tíquete que comprei. “You can keep it for tomorrow”, disse e piscou, não validando o meu ticket para que eu pudesse o utilizar no dia seguinte (fato que nunca ocorrera, tendo sido indiferente sua gentileza). Todos os ônibus noturnos levam (pelo menos foi o que me disseram) à DAM – um lugar ao qual dubiamente associei um serviço ferroviário. A verdade é que sua única utilidade para mim era como referência – ficava a duas ruas do hostel Bulldog. A questão é: para qual direção?
Amsterdã não é uma cidade gigante. De fato, diz-se que Roterdã é maior. No entanto, há um labirinto frenético e avermelhado traçado pelo Red Light entre as ínfimas avenidas cortadas pelas centenas de canais. Para que te percas, basta não ter um mapa: e eu, naturalmente, o perdi durante essa noite. Não só perdi o mapa como me perdi por quase duas horas, apesar de ter descido a duas ruas da desejada cama. Chegou ao ponto de eu decidir pegar um táxi – os quais se oferecem semelhante às prostitutas – até a DAM e recomeçar a tentativa, sob a ciência prévia de que estava a apenas duas ruas (e não duas quadras) do meu destino. Não demorou muito para que eu me desencontrasse de novo. Na minha cabeça, surgiu a voz do Lucas Floriano (não sei bem por quê) dizendo a seguinte frase: “Meu, tu é o único cara que eu conheço que pega um táxi e continua perdido!”, mas meu consolo é que um dia será ele. Um dia (duas horas depois de decidir ir para casa), me achei.

Na manhã seguinte, fizemos um passeio de barco pelos canais de Amsterdã. Foi bem bonito e é recomendado. Vê-se inclusive alguns pontos turísticos a serem visitados depois, como a biblioteca pública, que merece um parágrafo só dela mais adiante. Vê-se ainda por lá o restaurante Chinês flutuante – um gigantesco palácio oriental do qual tampouco deixaremos de falar mais adiante. Veem-se os cruzamentos dos canais, os milhares de houseboats – barcos nos quais as pessoas moram –, o museu da Anne Frank por fora, várias construções típicas medievais, paisagens diversificadas. A cidade é encantadora e apaixonante, sendo seu estilo o mais europeu possível. Aquém do Red Light, a maioria das casas ainda é avermelhada, principalmente as antigas. Na faixada de várias, há o ano em que foram construídas, assim como em alguns canais. É admirável notar que o europeu sabe o valor do passado e da história já há muitos séculos. Quando descemos do barco, fomos até o museu NEMO, mas estava fechado. A biblioteca pública, casualmente, estava logo ao lado.

A biblioteca comporta muitos e muitos andares em um prédio moderno por dentro e por fora, com duas linhas de elevadores, um restaurante grande e um serviço de internet disponível a quem quiser. Não só isso: logo na entrada há um piano de altíssima qualidade, que me encantou como um doce a uma criança. Ao seu lado, os dizeres: “se você é um pianista experiente, sinta-se à vontade para tocar este piano”. As únicas regras eram que o tempo máximo era de meia hora e somente uma vez ao dia. Eu só não descumpri ambas porque só notei o piano na saída, mas a primeira regra foi descumprida tanto nesse dia quanto no posterior, quando voltamos lá e toquei mais uma vez por um tempo no mínimo duas vezes maior. Foi interessante ver pessoas estranhas tirando foto deste momento, mas não entendi muito bem o motivo – tendo em vista que, pelo menos de onde venho, fotos não capturam som. Entretanto, essas reações aleatórias são motivadoras. Ao final dos dois dias, fui elogiado por algumas pessoas, o que me deixou muito feliz e satisfeito, tendo matado as saudades mais uma vez. Era o segundo piano europeu que eu havia tocado – e o melhor até então. Fui embora da biblioteca um pouco mais feliz.

E foi nesse clima que entramos no restaurante chinês, também do lado – como quase tudo na Europa. De fato é lindo, principalmente por dentro. Uma vovó chinesa foi acolher nosso pedido e, tendo eu escolhido, após muito esforço, ela me adverte: “não! Você não vai gostar disso!”. Surpreso pela opinião espontânea, perguntei-lhe por quê, tendo-me explicado de uma maneira muito convincente: “Porque é muito chinês!”. Preferi acreditar na velhinha e trocar meu pedido. Não é nada mal ir a um lugar onde já conhecem seu gosto previamente. Fiquei com medo de ela me proibir de tomar suco de laranja também, mas isso não aconteceu.

Ainda naquela noite, estávamos no hostel quando a simpática e loura atendente (uma holandesa polentuda de 1,80 que volta e meia fechava o seu próprio baseado) entrou no quarto. “Lucas? Tem um amigo seu esperando lá embaixo”. Eu não entendi, e ela repetiu: “ele disse que te conhece! Disse seu nome e seu quarto!”. Como assim, me conhece? Eu sequer havia pronunciado meu nome desde que chegara naquela cidade! Desci levemente apavorado, sem saber o que esperar.

Quando chego lá, um senhor de uns cinquenta anos lança um olhar de censura sobre mim e sobre a atendente, fazendo um não com a cabeça. A alemoa trocou o número do quarto, e casualmente havia um Lucas em ambos.

Enfim, desci para comer algo. E isso me lembra uma observação muito peculiar: a indústria alimentícia da Holanda é tão desenvolvida quanto a da maconha. Creio que não é preciso refletir muito para entender, mas logo que se chega lá percebe-se o número absurdo de fastfoods comparado ao restante da Europa, ao lado de restaurantes que concorrem na mesma rua – vários são de culinária Argentina –, e não é difícil encontrar umas batatinhas te esperando em uma esquina. Porém, comi dentro do hostel mesmo. Pensei: “vou experimentar algo diferente desse cardápio, talvez algo típico”. Encontrei um tal de Hambúrguer Royal, em que iria tudo dentro. Eu não sei por que diabos eu escolhi algo que tenha tudo dentro, quando não como quase nada, mas enfim – já fui lhes alertando que não gosto de maionese nem de mostarda, e o cozinheiro perguntou: “e o resto, vai?” tendo eu afirmado com a cabeça. Quando o hambúrguer chegou, dei aquela mordida esperançosa, sem nem imaginar que a sensação gastronômica que teria seria uma das piores da minha vida. À mordida, seguiu-se uma sensação de mastigar a morte. Eu engoli a seco aquele pedaço mórbido de hambúrguer e o abri. Quando vi o que tinha dentro, pensei a seguinte frase: “isso só pode ser dejeto humano”. É bem verdade que a frase se organizou com palavras um pouco diferentes do que as transcritas aqui, mas a ideia é semelhante. Havia pedaços de feijão marrom com um molho denso e gosmento, e o sabor era de cominho – algo que deveria ser proibido de se ingerir. Antes que eu passasse mal, evitei a segunda mordida, tendo comido só as batatinhas por volta. Logo após, vi uma cena admirável. Um sujeito se aproximou do bar, chamou a garçonete, pediu dois drinks. Enquanto ela os preparava, ele deu em cima dela rapidamente. Ela riu, fingiu se ofender de brincadeira e ele insistiu. Quando ela finalmente terminou os dois drinks, ele apontou para um deles, oferecendo a ela mesma. O cara é um mestre. É uma pena que não tenha funcionado, tendo ele levado os drinks até uma outra mesa onde havia uma outra mulher, reiniciando o truque.

No dia seguinte, fomos no museu do Rembrandt. Totalmente indicado a quem pisar na cidade. É um retrato fidelíssimo de uma casa medieval holandesa de luxo, com os móveis, objetos e outros artefatos dispostos igualmente à época em que o pintor lá morava. O pintor foi muito reconhecido em sua época, ainda em vida, tendo conseguido dinheiro suficiente para comprar uma das casas mais luxuosas da época. No entanto, atolou-se em dívida antes de pagá-la, tendo sido obrigado a sair de lá, buscar uma outra residência e, falindo, todos os objetos dele foram arrecadados pelo banco. Ao fazer isso, o banco proferiu um relatório minucioso de tudo que havia dentro da residência. Séculos mais tarde, tendo como base esse relatório e até mesmo os retratos efetivados pelo próprio pintor, buscaram-se os móveis originais e reconstruiu-se a casa do pintor praticamente igual. Havia camas por toda a casa, a maioria embutida em armários, e todas muito pequenas – dormiam sentados na época por receio de deficiência circulatória cerebral. A cozinha gigantesca, a sua sala de curiosidades (na qual disparei o alarme tentando tirar uma foto mais de perto), a sala em que imprimia suas obras em metal com a ajuda de um moinho pequeno, a sala onde seus alunos pintavam, a sala onde ele próprio pintava... tudo isso e muito mais nos espera neste que foi um dos museus mais interessantes em que já estive. Na sua sala de pintura, havia uma senhora explicando como eram feitas as tintas que usava. Algumas vinham de rochas; uma dessas rochas, azulada, era muito, muito cara, tanto na época quanto hoje, sendo o azul pouco utilizado por Rembrandt; quando o utilizava, era de uma fonte bem mais simples – motivo pelo qual quase todos os azuis de suas obras já desapareceram hoje. Outro pintor contemporâneo a ele utilizava esse azul sem limites – no entanto, morreu na miséria e jamais teve as posses que Rembrandt adquirira ainda jovem.

Saindo de lá, estava contando pelas ruas à Liliane sobre a história do hambúrguer. Quando proferi as palavras “daí pedi sem maionese e sem mostarda”, um velhinho holandês que passava por ali se pronunciou: “that’s portuguese, isn’t it?!” (isso é português, não é?), tendo eu perguntado como ele sabia. “Pelo som”, respondeu, voltando ao que estava fazendo. Fico imaginando quantos brasileiros de sua idade reconheceriam o holandês falado nas ruas, principalmente sob o contexto de maionese e mostarda.

Pela última noite da cidade, voltávamos pelo Red Light até o hostel quando dois negros gigantes consultaram uma prostituta na sua vitrine, perguntando sobre o preço para dois, sendo a resposta: “100 euros”. Então um deles se aproximou dela e perguntou algo em voz baixa, tendo ela respondido “então seriam 500 euros”. Ele deu um berro: “500 EUROS?’’, e saiu gargalhando muito alto.

A vida em Amsterdã é outra, tanto a noturna quanto a diurna. O fato é que, alheio a qualquer conceito ou preconceito, a cidade é divertidíssima, seja você um simpatizante das drogas, um tarado incontrolável ou apenas um amante de belas paisagens.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Aventura na Bretanha

Antes disso, dois momentos esquecidos em Paris, ainda da última noite: primeiro, eu estava com um grupo de brasileiros no qual havia uma paulista meio antipática. Pelo que entendi, ninguém se conhecia antes dali (havia um de cada estado, e um médico recém formado pela PUCRS honrando junto de mim o sangue gaudério na cidade da frescura). Numa hora dessas, estávamos conversando – eu e a paulista – e ela veio me perguntar algo do tipo: “você veio pra Paris ver o quê?”, e, antes que eu sequer pensasse numa resposta macabra, um outro cara (de Goiás se não me engano) se prontificou a fazer o serviço que eu não faria por normas de conduta; estufou o peito e gritou: “A TUA CARA DE IDIOTA!”. Foi difícil conter o riso, e, apesar de exagerada e pouco polida, a resposta gerou risos gerais, e a paulista baixou a bola pelo resto da noite. O outro fato olvidado no relato precedente se refere ao meu primeiro atendimento no exterior (e aqui dou margem a outro exagero, antes que alguém se alerte) – uma menina se jogou no chão ao fim da noite em frente ao elevador. Atrás dela, um cara tentando ajudá-la a segurava pelo pescoço, como uma gravata. Eu e o formando da PUCRS fomos correndo até o local (sem saber muito bem o que fazer, da minha parte ao menos). Quando ela começou a vomitar, o formando se afastou um pouco e eu me ajoelhei na frente dela, afastando suas pernas e segurando seu cabelo. O outro cara ainda segurava o pescoço dela, o que me fez gritar – HEY MAN, DON’T TOUCH HER FUCKIN’ NECK! Cena mais máscula que a Europa já viu. O cara tirou a mão do pescoço dela apressado, e ela pôde vomitar decentemente. Minha mão ficou vomitada por um tempão, até eu perceber que era hora de lavá-la. E o nojo? Morreu na sala de anatomia.

E após esse conto de vanglória, inicio o relato sobre um dos pontos mais curiosos da viagem: a estadia na terra dos Celtas.
No dia 3/1/2012 chegamos no aeroporto de Lorient por um avião do tamanho de um ônibus. Era o jeito de maior custo/benefício que encontramos de visitar a amável prima da Liliane (Andréa) e seu engraçadíssimo marido português-francês (Armando) – ótimos anfitriões! Se alguém tem dúvidas sobre a culinária típica francesa ou portuguesa, pergunte ao casal – pela primeira vez na vida eu gostei de absolutamente tudo que provei fora de casa. Além da comida, fomos muito muito bem recebidos pelos dois, que nos deram as boas-vindas várias vezes, e sempre muito elegantemente. Além disso, ainda ganhei da Andréa um livro de conjugação em francês (aliás, o francês dela me soou melhor do que o das francesas que conheci - se é que isso é possível).

Logo na primeira noite, fizemos uma refeição tradicional que durou algumas horas. Para quem não sabe (como eu, antes desse episódio), a tradicional refeição francesa envolve um aperitivo, uma entrada, o prato principal, uma rodada de queijos e finalmente a sobremesa. É por isso que não são pratos absurdamente volumosos, como estamos acostumados – mas, ao contrário do que se pensa, sai-se da mesa mais do que satisfeito. Inicialmente, serviram-nos um aperitivo (que eu julgava ser a entrada). Nele haviam batatinhas, presuntos de variados tipos, um salame estilizado e umas sementes que eu nunca havia visto na vida (tremoço, ou algo assim), que lembram grãos de milho gigantes e salgadinhos. Uma champanhe para inaugurar as boas-vindas gastronômicas foi aberta enquanto pulávamos a entrada ao saber que o prato principal seria algo muito apetitoso. Logo chegou o formoso Saucisse de Martin au Gratin (escusando-me de uma possível confusão quanto ao local ou à escrita – lembro que vem de uma região francesa perto de Genebra); baseava-se em uma linguiça tradicional francesa cozida junto de batatas ao leite sob queijo gratinado – um prato do qual certamente sentirei falta. Não tanto quanto o Gateau Bretão, é claro, mas isso é outra história. Na rodada de queijos, eu já estava absolutamente cheio, mas tradição é tradição (e vice-versa, é claro). Pus-me a comer os queijos mais diversificados que já vi, de cujos nomes jamais me lembrarei. Essa talvez tenha sido a experiência menos atrativa, mas ainda assim muito interessante – uma questão de costume, de fato. A sobremesa dessa vez tampouco pôde ser aproveitada (um mousse de chocolate muito bonito). A falta de prática me obrigou a pular duas etapas do ritual – erro que eu não cometeria de novo.
Após dormir numa cama de princesa com travesseiro de gatinho – muito confortável, por sinal -, tomamos o café da manhã com a melhor coisa que já me ocorreu nesta Europa: a descoberta do Gateau Bretão. Eu não sei como vivemos sem isso no Brasil. Trata-se de um bolinho de consistência levemente torrada (bem levemente), com um sabor único que, de longe, lembra uma “cueca virada” ou uma rosquinha de vinagre, mas essa comparação é até uma ofensa à qualidade do produto, que obviamente importei. O problema é que, segundo fomos informados, não só é francês: é bretão. Aquele que quiser o gateau bretão de tal sabor (com cujo pacote terminei logo em Amsterdã), terá que fazer uma viagem aquém de Paris. Depois desse hiato culinário (mais um), saímos junto da Andrea no dia seguinte em direção à praia. Vimos o atlântico do lado oposto; por conta do clima, a beleza foi comprometida, mas de fato é uma paisagem totalmente diferente do que a outra margem à qual estamos acostumados. Após, fomos ver algo que, sem dúvida, me marcou consideravelmente. Trata-se dos megalitos celtas de vários milênios antes de Cristo dispostos em um vasto campo entre as minúsculas cidadelas da Bretanha. Por algum motivo não bem compreendido até hoje, os indivíduos enterravam pedras gigantescas em uma distância uniforme umas das outras, relativamente alinhadas e de certa forma semelhantes. Alguns agregados de pedra são facilmente associados a túmulos; outros, acredita-se que relembram locais sagrados ou homenageiam santidades. A verdade é que ninguém jamais saberá o que aquele mundo de rochas alinhadas significa. Como um bom brasileiro, subi em uma das maiores pedras para tirar uma foto. Com o vento forte da Bretanha, quase foi a minha última subida, mas consegui recompor o equilíbrio antes de ter que usar o plano requerido. Claramente fora um aviso dos deuses celtas: era hora de descer. E desci.
Se alguém lembra de Asterix e Obelix, saibam que eles habitavam essa região, e inclusive pode-se achar semelhanças entre os hábitos, cultura, culinária e quiçá as próprias pedras carregadas?
Após, fomos numa cidadela medieval cujo nome infelizmente não me recordo, mas hei de me certificar. Sem sombra de dúvidas, foi o lugar mais medieval que já estive neste continente. Antigamente, a ponte pela qual passei era aquelas elevadas manualmente, e a ínfima cidade (ainda hoje) é totalmente flutuante. As muralhas protegiam dos ataques ingleses nas diversas invasões ao longo dos séculos passados. Canhões encontrados no fundo d’água cercante foram restaurados e repostos no local original. Cada pedaço das muralhas, cada parede, cada casa com suas centenas de anos dizia uma história; um mundo inspirador que já se extinguiu há muito tempo, mas cujas marcas ainda o ilustram diante de nossos olhos. Era noite, e o comércio (que ocupa as casas arcaicas) felizmente já estava fechado, de modo que a caracterização medieval pôde ser melhor preservada. Antes de ir embora, me meti numa ruazinha entre a muralha oeste e umas construções de uns quinhentos anos.
A janta dessa vez foi mais controlada. Primeiro, uma cerveja portuguesa muito boa me foi oferecida. Após o mesmo aperitivo (mas dessa vez com direito a vinho do Porto), provamos uma iguaria: fígado de pato em pasta (não bem como o patê que conhecemos). Tentando ignorar os métodos de preparo, percebi que, junto com pão, eu poderia comer isso todo dia no café da manhã. E ao final dessa entrada, dois pratos nos aguardavam – primeiro, um francês, que se baseava num molusco (encontrado numa concha) frito com um molho de temperos bons. Definitivamente refinado. À Liliane lembrou uma mistura de peito de frango com camarão – pensamento que, ao ser exposto, não foi perdoado pelo muito bem humorado Armando, que passou a noite toda repetindo com seu sotaque português “estamos a comer o frango-camarão”, “muito interessante esse animal, o frango-camarão”, “por favor, gostaria de comprar um frango-camarão!”. Depois fizemos uma associação da iguaria inventada com nosso próximo destino: Amsterdã. Ele imitando alguém fumando é uma cena digna de filme de humor. Antes de nos servir o fígado de pato (Foie gras), nos alertou que não era para fumar, mas para comer. Aliás, eles nos contando a experiência deles em Amsterdã foi excelente. E depois de uma rodada leve de queijos e de um mousse de chocolate ótimo, nos despedimos.
Na manhã seguinte, depois de agradecer a perfeita recepção que o jovem e muito afetuoso casal nos proporcionou, partimos para Amsterdã. A cidade do pecado.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Paris

PS: Os fatos a seguir estão dispostos entre os dias 28/12/11 a 3/1/12.
PS2: Não fiz anotação alguma durante a estadia em Paris, nem tampouco toquei nos arquivos do blog; no entanto, o relato geral é bem fiel, e segue abaixo.

Minha impressão de Paris foi contrastante. Definitivamente a expectativa foi maior do que
deveria. Se vais para a cidade em questão, lembre-se de alguns detalhes:
1) falar francês (pelo menos o básico) pode salvar teu jantar e até tua noite de sono;
2) Paris não é lugar de gente feliz. Quem espera encontrar um lugar coberto de sorrisos e de simpatia, como o Brasil, se decepcionará;
3) não pensei num número 3 ainda.

O primeiro hostel que ficamos (woodstock) não foi dos melhores. Na verdade, foi o pior até agora. O quarto era bom e praticamente individual, os atendentes eram legais (inclusive tinha uma brasileira bem simpática), mas o clima, o tamanho e as pessoas lá não ajudaram. A região é sombria e lembrou o centro de Porto Alegre de noite. Também há diversos orientais - em geral indianos e árabes também - comandando o pequeno comércio da Sacre Coeur. As pessoas não se esforçam para serem legais e torcem o nariz caso teu francês não seja fluente. Mais tarde entendi por quê. Apesar de ser perto de tudo, sinceramente não recomendo essa região para quem quer se hospedar na cidade. Logo na primeira noite, descobrimos o quão difícil é dirigir em Paris; o trânsito é totalmente diferente, as ruas se cruzam em formatos diversos - jamais em quadrados -, entre outros. Resolvemos devolver o carro na manhã seguinte, e, durante a madrugada, passei umas duas horas (ou mais) tentando achar um lugar para estacionar. Mas isso não existe. Foi preciso deixar num estacionamento que cobra caro. Antes disso, procurando lugares, parei no meio da rua às duas da manhã e achei uma cabine azul, com alguns dizeres sobre carro, na calçada; cansado, entrei. Quando a porta se fechou sozinha atrás de mim, um computador se ligou e duas bandeiras apareceram. Eu cliquei na do Reino Unido sem um motivo específico e, sem ver grandes mudanças no visor, virei-me de costas enquanto uma voz feminina eletrônica falava em francês muito rápido, não tendo dado bola. De costas para a tela, vi uns folhetos sobre carro, tentando entender o que diabos era aquilo, até que ouvi a frase final da mulher, que me disse: "aproxime-se do visor agora". Virei-me e verifiquei que meu rosto aparecia nele. Segundos após, um outro rosto surgiu na tela - era um sujeito de óculos, com cara de nerd, um microfone de rosto. "Bonjour, monsieur". Gelei. Disse duas palavras balbuciadas e saí da cabine muito envergonhado, deixando o atendente falando sozinho. Ainda não entendi qual era esse serviço o qual dispensei ridiculamente, mas de fato não fez falta.
Depois de largar o carro na garagem, ainda dei mais uma informação para um francês. Casualmente eu sabia o nome e a localização da rua perguntada. Sim, eu sei como isso soa estranho. A sensação que tivemos ao devolver o carro na manhã seguinte foi a de alívio, e o pensamento que veio foi "finalmente nos livramos dessa porcaria!". No entanto, mais uma vez o futuro me mostraria que opiniões podem mudar rapidamente. Vimos a torre Eiffel. É linda, mesmo, mas as pessoas estragam (é sempre lotadíssimo). Conseguimos uma entrada preferencial, mas isso só nos permitiu subir até o segundo andar. São três. Não é caro para entrar lá, relativamente aos preços absurdos dessa capital (onde uma garrafinha d'água pode lhes custar por volta de R$12,00). Como dizem os brasileiros lá - que aliás estão quase em mesmo número que no Brasil -, "quem converte não se diverte". Fomos logo após ao Arco. É preciso entrar por baixo da terra, como num metrô. Devido à fila e à hora, resolvemos não subir nele, mas de fato é muito bonito (não tanto quanto a torre). Nessa segunda noite, ainda no hostel Woodstock, comprei uma cerveja e fui buscar um copo na cozinha, mas não o tendo encontrado, pedi ajuda para um grupo de três brasileiras que estavam sentadas numa mesa. A cena que se passou deveria ser omitida; no entanto, após vários dias, já estou menos envergonhado:
- Já que você é brasileiro, a gente pode te pedir uma ajuda?
- Claro, o que foi?
Mostraram-me uma garrafa de vinho com o abridor entalado até o fim da rolha. Queriam que eu abrisse. Eu não lembro de quando fiz tanta força antes daquele dia. E a porcaria da rolha nem se mexeu. Elas começaram a se culpar conforme o suor ia escorrendo do meu rosto, até que fui forçado a desistir. Agradeceram, dizendo que a culpa foi delas por ter posto o abridor até o fim (e é verdade!). Ainda assim, saí com o orgulho ferido. No meu subconsciente, ouvi a voz delas dizendo ao fundo: "tadinho". Enfim, passou.
Apesar da chuva, tentei sair. Porém, sem saber onde, e estando o metrô fechado, sentei na parada de ônibus para olhar o mapa sem muita esperança. Nisso, um episódio fez-me sentir em casa; um sujeito fedido e jovem se aproximou, perguntou se eu falava francês e começou a contar uma história de vida toda, dizendo que queria voltar para Toulouse, pedindo dinheiro ao final. Imaginando que ele poderia me esfaquiar, dei algumas boas moedas e ele quase chorou (momento em que me arrependi de dar algumas boas moedas). Disse que mesmo os franceses não ajudam pessoas como ele, blablabla. Antes que mais algum homem branco extorquisse o brasileirinho, resolvi voltar para o hostel. Na manhã seguinte, dia 30/12/11, fomos de mudança para o hostel St. Christopher. É de longe o melhor lugar onde já me hospedei, incluindo hotéis. Além de hostel, é também um bar, um restaurante e uma boate de dois andares. De tarde fomos na Notre Dame, que não é nada demais. Talvez o sítio arqueológico na frente seja bem mais interessante, mas não entramos. Dizem que subir lá proporciona uma vista magnífica, mas não o fizemos. No Pantheon, chegamos um pouco tarde e não nos deixaram entrar. Ou seja, foi um dia meio perdido. Pela noite havia um cara tocando violão, tendo oferecido para um brasileiro tocar. Peguei a minha linda escaleta comprada em Barcelona e toquei tim maia e outros clássicos brasileiros com um outro brasileiro no violão em frente a dezenas de pessoas - experiência legal. Houve uma festa depois no próprio hostel, na parte inferior, na qual tocou clássicos da MPB, como "ai se eu te pego"e "rapunzel".
No dia seguinte (31/12/11) fomos a Versalhes. Estava chovendo bastante, mas o palácio é magnífico, nos fazendo ter vontade de morar lá, acordar sob um teto de pintura renascentista, detalhado com metais preciosos, móveis, tecidos, cortinas, tudo tão rico e nobre que me é fácil compreender por que a revolução assustava tanto a família real - perder aquela riqueza secular do dia para a noite deveria ser o maior pesadelo social da época. A verdade é que o local é, por assim dizer, um feudo. Os jardins do castelo dão para um lago gigante, por cujos caminhos chegamos, muito tempo depois (mesmo), à oponente região que a Rainha Maria Antonieta criou para si, tentando fugir das insuportáveis regras de etiqueta da nobreza. Mais uma vez, para quem já jogou Zelda, certamente o jogo se inspirou nesse verdadeiro feudo real, com todos os seus jardins em labirinto, estatuetas a cada metro, decorações e caminhos. Algo de cinema. Apesar de estar chovendo um pouco e de ser inverno, deu para ter uma noção ótima do quão bonito é o local, ou seja, se alguém lhes disser para não ir no inverno (como foi o meu caso), ignore-o e vá igual - não perca a oportunidade de conhecer um dos lugares que mais representa a realidade da nobreza medieval ainda preservados neste planeta.
Como estava chovendo e a distância era longe demais, fui sozinho, a pé, desde o palácio até o Trianon, mas cheguei exatamente 3min depois do fechamento, e não houve jeitinho brasileiro que os convencesse a me deixar entrar. O fato de ter caminhado uma meia hora ou mais na chuva em meio a jardins confusos e dar de cara com a porta fechada me deixou meio cansado, e já estava anoitecendo... mas por sorte descobri que existe um trenzinho interno que nos deixa na beira do palácio. Como bom brasileiro, peguei uma carona. Pegamos o trem de volta para Paris ainda sem planejar o que faríamos nesta noite de ano novo. Com o tempo, vimos que o movimento do hostel foi diminuindo, e após jantar lá decidi perguntar o que se faz lá; a moça me disse que deveríamos ir para a Torre Eiffel. Antes de ir, confirmei com duas francesinhas que estavam lá jantando (o hostel é um restaurante também). Elas me disseram que não haveria fogos de artifício, mas que o pessoal vai normalmente no Champs Elysées. Como não tinha ido ainda no Champs Elysées, a minha ideia era basicamente a de um campo gigante com um gramado verde-claro e vivo. Mais tarde descobriria que não passa de uma Rua da Praia do primeiro mundo. Antes de decidirmos, vimos uma briga muito forte dentro do restaurante, tendo dois seguranças (negros, gigantes e pesados) empurrado um imbecil metido a rastafari para fora do estabelecimento. O mangolão ainda tentou argumentar, tendo sua face cospida pelo segurança de uma forma cinematográfica. Quando tudo isso acabou, nosso pesadelo começou.

Primeiro, pegamos um táxi até a torre Eiffel, mas o trânsito era tamanho que passamos a virada dentro do táxi, com um franco-turco depressivo falando dos problemas da França e da sua família (para a decepção dos que dão valor a essa data). Para mim foi indiferente, até porque chegamos poucos minutos após e descobrimos que, realmente, os franceses não gostam de fogos de artifício. A torre foi levemente iluminada para a data, o que nos decepcionou profundamente. O resto era normal: gente berrando, milhares de bêbados pulando, algumas brigas aqui e acolá. Em pouco tempo decidimos voltar para o hostel, mas...

Depois de quase três horas, tendo contatado até a polícia parisiense por duas vezes nas ruas, conseguimos achar um táxi. Eu já tinha caminhado da torre ao arco (uma distância longa, acredite), em meio a bêbados e a motoristas loucos, mas nenhum táxi parava para mim, nem mesmo os vazios - provavelmente haviam sido chamados por outra pessoa. Durante a volta, vi uma cena de agressividade francesa bem latina: uma mulher gorda espancando o marido bêbado, enquanto dois caras ajudavam ele a fugir, e um outro cara ajudava ela a o espancar. Assisti até ficar chato e resolvi seguir a busca pelo táxi. Nisso, mais uma viatura francesa passava lá perto, e aproveitei para exercer meu primeiro ato de cidadania em território francês:
- Está havendo confusão ali adiante.
- Confusão? Onde, senhor?
- "Là-bas".
O policial me agradeceu e a viatura foi em direção ao casal. Não sei bem por que fiz isso, mas foi divertidíssimo.Voltei ao encontro da Liliane numa rua muito estranha nas proximidades da torre. Sentamos ali ainda esperando um táxi, já totalmente exaustos e com um medo sério de ter que passar a noite na rua. Cogitamos procurar um hotel, mas a ideia de achar um era ainda mais utópica do que a de chamar um táxi. Quanto a esta última, abusei da boa vontade de um policial e lhe extraí dois números de táxi. Nenhum funcionou. O frio e o vento apertavam, o sono e o medo também. Meu pensamento expelido em alto e bom som neste momento foi o seguinte:
- Que cidade de merda!

Nisso, pára um taxi ao nosso lado. Era mais um senhor depressivo e amargurado, mas dessa vez parisiense mesmo. Ele falava algumas coisas que me assustaram, principalmente quando perguntou se eu conhecia o Châtelet, tendo eu dito que sim, e ele respondeu "sim quer dizer não, não é mesmo?" e deu uma acelerada súbita que me deixou um tanto apavorado. A verdade é que eu sabia onde ficava o Châtelet, mas de fato ainda não tenho a menor ideia do que é. Como ele sacou isso, não sei. E provavelmente jamais saberei. Ao longo do caminho, ao contrário do outro taxista - que só falou mal da economia francesa -, esse era melancolicamente otimista, dizendo que ama o seu trabalho, e que apesar de não ter dinheiro para quase nada que gostaria, ele se sente honrado e sortudo por poder andar pelas ruas da cidade onde nasceu todos os dias. Disse também que estava trabalhando naquele dia havia quase 12h. Eu comecei a aconselhá-lo a ir dormir, e ele aparentemente concordou, dizendo que eu era muito "doce" (em francês isso não soa tão gay). Quando nos deixou em frente ao hostel, pensei que ele ia chorar. Mas nos poupou deste constrangimento.Dormimos com a sensação de que seria a última noite de sono da nossas vidas.
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No dia primeiro, comemoramos finalmente a entrada do ano acordando tarde - bem tarde -, e indo para a Disney Paris. Por conta do tempo, do atraso e de minha inexperiência (entrei no parque infantil primeiro), só deu tempo de ir em dois brinquedos - mas não se assustem, o número de brinquedos que se consegue ir (por conta das filas quilométricas) não costuma ser maior que esse. A espera em cada fila é normalmente de duas horas e meia. Particulamente, as duas montanhas russas que fui valeram muito a pena; a primeira era praticamente uma fase do Sonic 2 (Mega Driver) - eu imagino que seja uma sensação semelhante ao uso de LSD, chá de cogumelo e essas coisas alucinógenas. Passamos por dentro de anéis, vários 360 graus, tudo piscando freneticamente em uma sala escura gigantesca que parecia conter inúmeras dimensões. A foto do carrinho ficou engraçada, um dia mostro (planejo uploadar as fotos ao blog depois que a viagem terminar).A outra montanha russa era mais um Barco Viking - ia e voltava num arco enorme em ainda mais alta velocidade. As filas me lembram o Roller Coaster Tycon - aquelas que a gente botava em ziguezagues infinitos para sacanear os visitantes. Como estava frio, chovendo, noite, ventoso e quase fechando o parque, a fila só demorou uns 40min. Mas foi preciso caminhar muito para chegar até ela, mesmo já dentro do caminho da fila, o que me leva a crer que, se lotado, a espera deve ultrapassar 3h e meia. De qualquer forma, vale a pena a experiência, apesar de ser muito fugaz (os brinquedos acabam muito mais rápido que no deprimente parque Tupã), e de terem me dito que é incomparável com a Disney americana. Não sei, nunca fui - mas tenho certeza que confere. Nunca esperava que o local representasse a Disney, e talvez por isso não tenha me decepcionado; se esperas isso, acredito que seja melhor ir à Disney original, ou até mesmo ao Beto Carreiro.Não lembro o que fiz naquela noite, mas provavelmente nada - minha vida noturna em Paris basicamente se resumiu ao próprio hostel, que se basta. O dia 2 de Janeiro foi finalmente o mais legal. Fomos tentar ver o que restava do plano. Primeiro fomos à torre de novo para gravar o vídeo de boas vindas aos nossos bixos (calouros), que sequer fizeram o vestibular ainda (somos veteranos muito eficientes, eu sei). Depois de algumas tentativas, e de inúmeras pessoas terem passado por nós tentando entender por que havia um louco de jaleco em frente à torre Eiffel sendo filmado por uma mulher, saímos de lá em direção ao Champs Elysées. Ainda não sabia que se tratava de uma rua... mas esse dia foi um dia de descobertas; logo após caminharmos por ele, pegamos o metrô, e descobri da pior forma que a Bastilha foi totalmente destruída com a revolução - indo até a estação Bastille (esperando ver resquícios da prisão) e pedindo informações para um sujeito que se controlou para não rir de mim. "O quê? A antiga bastilha? Ela foi destruída há mais de duzentos anos... sinto muito, mas você chegou atrasado". No lugar dele, eu teria rido e completado com um: ", turista ignorante!". A partir de então, percebemos que sair sem o guia pode ser um pouco frustrante - ele nos diz exatamente isso. Saindo de lá sem nem pisar na praça erguida sobre o antigo local da prisão, fomos para as catacumbas, que até o presente momento ainda não sei o que realmente é, mas nos disseram para ir... e chegando lá, mais uma descoberta: descobrimos que não abre às segundas. E, antes que descobríssemos mais alguma coisa do gênero, voltamos para o hostel.

Sabendo que era a última noite em Paris, fiz umas amizades sortidas - duas irmãs australianas, vários brasileiros e algumas coreanas... estas últimas merecem uma atenção maior.Pela noite, subi ao quarto sem um motivo especial, deitei e puxei o Guia dos Mochileiros da Galáxia 3, enquanto notei a influência que minha presença exerceu sobre o comportamento das duas coreanas tímidas (mas bem espertas), que começaram a fazer comentários que, fosse em qualquer língua, eu teria entendido de qualquer forma. Dei um tempo e fui em direção à janela, decidido a pegar a cerveja que comprara em Toulouse e tinha posto do lado de fora da janela para gelar. Foi neste momento que elas me interpelaram, perguntando de onde eu era. A mais bonitinha ainda tentou me sacanear, dizendo que era da Coreia do Norte. Completou a piadinha com a brilhante frase: "estou muito triste porque meu presidente morreu". Quando eu entendi que era uma brincadeira, todos rimos - elas porque devem ter achado muito engraçado, e eu porque ainda não entendo como elas podem ter achado isso tão engraçado; o fato é que, se eu não tivesse estudado geopolítica para o vestibular, sequer ia entender a real diferença entre o norte e o sul - o que torna a piada uma piada. Passado esse momento de descontração oriental, dividi minha cerveja com elas (muito boa, por sinal, mas esqueci a marca), e então chegou um coreano amigo delas no quarto, chamado Tsoi (ou algo do gênero). Lembrei do nome dele porque me soou como "Teo". No entanto, esqueci o nome das duas meninas segundos após elas me dizerem. Ainda mais depois de beber os inúmeros canecos de cerveja que seguiram aquela primeira garrafa. A cerveja europeia é boa demais para se parar.

Descemos e eles me acolheram muito bem, os três coreanos. O Tsoi (ou algo do gênero) virou meu grande amigo da noite, e as gurias adoraram quando comecei a tentar falar coreano (uma missão que só é aconselhável após um estado distante da sanidade). Eu aprendi a dizer "meu nome é Lucas" em coreano, e de tanto repetir, o que restou na minha memória foi algo parecido com "ye asrro rucasso imidá" (ou algo do gênero). De repente, aprendi a falar mais uma frase: "você vem da Coreia?", e fui praticar esse novo provérbio aprendido com outras duas coreanas que estavam lá perto. A verdade é que eu não fazia a menor ideia de que elas eram coreanas também, mas o Tsoi (ou algo do gênero) me disse: "cara, eu tenho 100% de certeza que elas são coreanas também, só de olhar". Eu ia dizer "tenho certeza que elas são orientais só de olhar", mas achei melhor não. Elas adoraram o que eu falei (não posso afirmar que realmente perguntei se eram da Coreia, já que eu mesmo sacanearia um estrangeiro fácil se tivesse essa oportunidade). Um grupo de brasileiros do lado olharam para mim e gritaram "ALI, O MOLEQUE FALA COREANO MEU!". Não quis decepcioná-los, então não neguei, mas acho que ao longo da noite perceberam que falar coreano exige uma anatomia diferente - alguma coisa nas cordas vocais que ainda não descobriram. Quando as gurias me disseram os nomes (todas as quatro), eu me lembro de ter pensado "meu deus, se marcianos existissem, eles dariam esses nomes para seus filhos!". Com todo respeito a um possível coreano que leia o blog - fui muito bem acolhido por todos. Muito bem mesmo, com direito a batatinhas e vodka grátis derramada constantemente no meu copo de cerveja pelo Tsoi (ou algo do gênero), que já estava com os olhos ainda mais apertadinhos depois de tanto álcool.
No entanto, não sei bem como, todos os cinco coreanos que conheci naquela noite decoraram meu nome assim que falei. O que me geraria problemas mais tarde.
Voltamos, eu e os três coreanos iniciais, à mesa que estávamos no início, e não entendi bem como nem quando (mas sim o porquê) - o Tsoi (ou algo do gênero) e a Wash Awuo (esse chutei, mas era algo assim) sairam, deixando-me na mesa com a outra coreana.
A Liliane disse que estou ficando especialista em orientais. Pode ser, mas se é que alguém pretende seguir esses passos, vai aí um conselho: esfoça-te para decorar seus nomes, por mais extraterrestres que soem. Vários momentos depois, no fim da noite, quando a guria pediu para eu repetir o nome dela de sopetão, eu olhei para ela mudo. Ela olhou para mim com os olhos da decepção. Se fosse brasileira, me chamaria de "canalha". Levantou de onde estávamos e SUMIU.
Uma daquelas outras coreanas que conhecemos mais tarde chegou para mim dizendo: "se você a ama, como pode não saber o nome dela?". Eu não consegui conter a risada. "Se você a ama"! Eu fiquei com um sério medo de aparecer um pai coreano com um revólver na mão me obrigando a casar. Foi quando decidi que a noite já estava mais estranha do que o normal e subi.
Ao chegar no quarto, só encontrei o Tsoi (ou algo... enfim) dormindo. As duas haviam sumido. Eu não sabia muito bem o que fazer, mas fiquei com a consciência pesada e fui atrás delas. Eis a cena que vi, no auge do meu estado alcoólico, quando saí do quarto em direção ao corredor:
Uma perna atrás do elevador.
Segui lentamente em direção a essa perna e vi que a dona era uma oriental sentada de cabeça baixa, analisando o chão às 4h da manhã. Parecia um filme de terror. Respirei fundo e fui até ela. Quando consegui reconhecê-la, notei que era a amiga da outra coreana, com quem tinha ficado lá embaixo. Sentei no chão perto dela e perguntei o que houve. Ela me sorriu simpaticamente: "nada! Só estou aqui olhando o chão, eu faço isso às vezes". Não quis contrariar. Perguntei da amiga dela, e ela só disse "ela está bem, não se preocupe". Aceitei aquilo como um "é melhor tu dormires antes que algo mais bizarro ocorra" e fui dormir. Quando voltei ao quarto, ainda duvidando da cena passada, uma cortina de uma das camas se abre repentinamente. Levei um susto. A australiana olhou para mim e falou: "você pode desligar a luz por favor?". Nem havia notado que a luz estava ligada, mas se não fosse isso eu certamente teria problemas para alcançar o beliche. Não havia sido eu que ligara a luz, mas provavelmente uma das coreanas (elas viviam deixando a luz ligada), mas enfim, respondi cautelosamente "yes, I will", decorei o caminho de volta e apaguei a luz. Na manhã seguinte, os três coreanos dormiam em suas camas como se nada tivesse acontecido. Tentei dar o fora dali antes que alguma surpresa matinal fosse empreendida. Mas... surpresa: a amiga que curte olhar o chão de madrugada acordou para se despedir de mim. Analisando agora, vejo que foi simpática demais. Fomos até o aeroporto. Destino: Lorient.

Não sei se estou me especializando em orientais, mas certamente estou especialista em últimas noites de cidades grandes.

Não vi sequer o pequeno aviãozinho decolar, tendo acordado na região da Bretanha - um lugar onde ainda voltarei.