PS: Os fatos a seguir estão dispostos entre os dias 28/12/11 a 3/1/12.
PS2: Não fiz anotação alguma durante a estadia em Paris, nem tampouco toquei nos arquivos do blog; no entanto, o relato geral é bem fiel, e segue abaixo.
Minha impressão de Paris foi contrastante. Definitivamente a expectativa foi maior do que
deveria. Se vais para a cidade em questão, lembre-se de alguns detalhes:
1) falar francês (pelo menos o básico) pode salvar teu jantar e até tua noite de sono;
2) Paris não é lugar de gente feliz. Quem espera encontrar um lugar coberto de sorrisos e de simpatia, como o Brasil, se decepcionará;
3) não pensei num número 3 ainda.
O primeiro hostel que ficamos (woodstock) não foi dos melhores. Na verdade, foi o pior até agora. O quarto era bom e praticamente individual, os atendentes eram legais (inclusive tinha uma brasileira bem simpática), mas o clima, o tamanho e as pessoas lá não ajudaram. A região é sombria e lembrou o centro de Porto Alegre de noite. Também há diversos orientais - em geral indianos e árabes também - comandando o pequeno comércio da Sacre Coeur. As pessoas não se esforçam para serem legais e torcem o nariz caso teu francês não seja fluente. Mais tarde entendi por quê. Apesar de ser perto de tudo, sinceramente não recomendo essa região para quem quer se hospedar na cidade. Logo na primeira noite, descobrimos o quão difícil é dirigir em Paris; o trânsito é totalmente diferente, as ruas se cruzam em formatos diversos - jamais em quadrados -, entre outros. Resolvemos devolver o carro na manhã seguinte, e, durante a madrugada, passei umas duas horas (ou mais) tentando achar um lugar para estacionar. Mas isso não existe. Foi preciso deixar num estacionamento que cobra caro. Antes disso, procurando lugares, parei no meio da rua às duas da manhã e achei uma cabine azul, com alguns dizeres sobre carro, na calçada; cansado, entrei. Quando a porta se fechou sozinha atrás de mim, um computador se ligou e duas bandeiras apareceram. Eu cliquei na do Reino Unido sem um motivo específico e, sem ver grandes mudanças no visor, virei-me de costas enquanto uma voz feminina eletrônica falava em francês muito rápido, não tendo dado bola. De costas para a tela, vi uns folhetos sobre carro, tentando entender o que diabos era aquilo, até que ouvi a frase final da mulher, que me disse: "aproxime-se do visor agora". Virei-me e verifiquei que meu rosto aparecia nele. Segundos após, um outro rosto surgiu na tela - era um sujeito de óculos, com cara de nerd, um microfone de rosto. "Bonjour, monsieur". Gelei. Disse duas palavras balbuciadas e saí da cabine muito envergonhado, deixando o atendente falando sozinho. Ainda não entendi qual era esse serviço o qual dispensei ridiculamente, mas de fato não fez falta.
Depois de largar o carro na garagem, ainda dei mais uma informação para um francês. Casualmente eu sabia o nome e a localização da rua perguntada. Sim, eu sei como isso soa estranho. A sensação que tivemos ao devolver o carro na manhã seguinte foi a de alívio, e o pensamento que veio foi "finalmente nos livramos dessa porcaria!". No entanto, mais uma vez o futuro me mostraria que opiniões podem mudar rapidamente. Vimos a torre Eiffel. É linda, mesmo, mas as pessoas estragam (é sempre lotadíssimo). Conseguimos uma entrada preferencial, mas isso só nos permitiu subir até o segundo andar. São três. Não é caro para entrar lá, relativamente aos preços absurdos dessa capital (onde uma garrafinha d'água pode lhes custar por volta de R$12,00). Como dizem os brasileiros lá - que aliás estão quase em mesmo número que no Brasil -, "quem converte não se diverte". Fomos logo após ao Arco. É preciso entrar por baixo da terra, como num metrô. Devido à fila e à hora, resolvemos não subir nele, mas de fato é muito bonito (não tanto quanto a torre). Nessa segunda noite, ainda no hostel Woodstock, comprei uma cerveja e fui buscar um copo na cozinha, mas não o tendo encontrado, pedi ajuda para um grupo de três brasileiras que estavam sentadas numa mesa. A cena que se passou deveria ser omitida; no entanto, após vários dias, já estou menos envergonhado:
- Já que você é brasileiro, a gente pode te pedir uma ajuda?
- Claro, o que foi?
Mostraram-me uma garrafa de vinho com o abridor entalado até o fim da rolha. Queriam que eu abrisse. Eu não lembro de quando fiz tanta força antes daquele dia. E a porcaria da rolha nem se mexeu. Elas começaram a se culpar conforme o suor ia escorrendo do meu rosto, até que fui forçado a desistir. Agradeceram, dizendo que a culpa foi delas por ter posto o abridor até o fim (e é verdade!). Ainda assim, saí com o orgulho ferido. No meu subconsciente, ouvi a voz delas dizendo ao fundo: "tadinho". Enfim, passou.
Apesar da chuva, tentei sair. Porém, sem saber onde, e estando o metrô fechado, sentei na parada de ônibus para olhar o mapa sem muita esperança. Nisso, um episódio fez-me sentir em casa; um sujeito fedido e jovem se aproximou, perguntou se eu falava francês e começou a contar uma história de vida toda, dizendo que queria voltar para Toulouse, pedindo dinheiro ao final. Imaginando que ele poderia me esfaquiar, dei algumas boas moedas e ele quase chorou (momento em que me arrependi de dar algumas boas moedas). Disse que mesmo os franceses não ajudam pessoas como ele, blablabla. Antes que mais algum homem branco extorquisse o brasileirinho, resolvi voltar para o hostel. Na manhã seguinte, dia 30/12/11, fomos de mudança para o hostel St. Christopher. É de longe o melhor lugar onde já me hospedei, incluindo hotéis. Além de hostel, é também um bar, um restaurante e uma boate de dois andares. De tarde fomos na Notre Dame, que não é nada demais. Talvez o sítio arqueológico na frente seja bem mais interessante, mas não entramos. Dizem que subir lá proporciona uma vista magnífica, mas não o fizemos. No Pantheon, chegamos um pouco tarde e não nos deixaram entrar. Ou seja, foi um dia meio perdido. Pela noite havia um cara tocando violão, tendo oferecido para um brasileiro tocar. Peguei a minha linda escaleta comprada em Barcelona e toquei tim maia e outros clássicos brasileiros com um outro brasileiro no violão em frente a dezenas de pessoas - experiência legal. Houve uma festa depois no próprio hostel, na parte inferior, na qual tocou clássicos da MPB, como "ai se eu te pego"e "rapunzel".
No dia seguinte (31/12/11) fomos a Versalhes. Estava chovendo bastante, mas o palácio é magnífico, nos fazendo ter vontade de morar lá, acordar sob um teto de pintura renascentista, detalhado com metais preciosos, móveis, tecidos, cortinas, tudo tão rico e nobre que me é fácil compreender por que a revolução assustava tanto a família real - perder aquela riqueza secular do dia para a noite deveria ser o maior pesadelo social da época. A verdade é que o local é, por assim dizer, um feudo. Os jardins do castelo dão para um lago gigante, por cujos caminhos chegamos, muito tempo depois (mesmo), à oponente região que a Rainha Maria Antonieta criou para si, tentando fugir das insuportáveis regras de etiqueta da nobreza. Mais uma vez, para quem já jogou Zelda, certamente o jogo se inspirou nesse verdadeiro feudo real, com todos os seus jardins em labirinto, estatuetas a cada metro, decorações e caminhos. Algo de cinema. Apesar de estar chovendo um pouco e de ser inverno, deu para ter uma noção ótima do quão bonito é o local, ou seja, se alguém lhes disser para não ir no inverno (como foi o meu caso), ignore-o e vá igual - não perca a oportunidade de conhecer um dos lugares que mais representa a realidade da nobreza medieval ainda preservados neste planeta.
Como estava chovendo e a distância era longe demais, fui sozinho, a pé, desde o palácio até o Trianon, mas cheguei exatamente 3min depois do fechamento, e não houve jeitinho brasileiro que os convencesse a me deixar entrar. O fato de ter caminhado uma meia hora ou mais na chuva em meio a jardins confusos e dar de cara com a porta fechada me deixou meio cansado, e já estava anoitecendo... mas por sorte descobri que existe um trenzinho interno que nos deixa na beira do palácio. Como bom brasileiro, peguei uma carona. Pegamos o trem de volta para Paris ainda sem planejar o que faríamos nesta noite de ano novo. Com o tempo, vimos que o movimento do hostel foi diminuindo, e após jantar lá decidi perguntar o que se faz lá; a moça me disse que deveríamos ir para a Torre Eiffel. Antes de ir, confirmei com duas francesinhas que estavam lá jantando (o hostel é um restaurante também). Elas me disseram que não haveria fogos de artifício, mas que o pessoal vai normalmente no Champs Elysées. Como não tinha ido ainda no Champs Elysées, a minha ideia era basicamente a de um campo gigante com um gramado verde-claro e vivo. Mais tarde descobriria que não passa de uma Rua da Praia do primeiro mundo. Antes de decidirmos, vimos uma briga muito forte dentro do restaurante, tendo dois seguranças (negros, gigantes e pesados) empurrado um imbecil metido a rastafari para fora do estabelecimento. O mangolão ainda tentou argumentar, tendo sua face cospida pelo segurança de uma forma cinematográfica. Quando tudo isso acabou, nosso pesadelo começou.
Primeiro, pegamos um táxi até a torre Eiffel, mas o trânsito era tamanho que passamos a virada dentro do táxi, com um franco-turco depressivo falando dos problemas da França e da sua família (para a decepção dos que dão valor a essa data). Para mim foi indiferente, até porque chegamos poucos minutos após e descobrimos que, realmente, os franceses não gostam de fogos de artifício. A torre foi levemente iluminada para a data, o que nos decepcionou profundamente. O resto era normal: gente berrando, milhares de bêbados pulando, algumas brigas aqui e acolá. Em pouco tempo decidimos voltar para o hostel, mas...
Depois de quase três horas, tendo contatado até a polícia parisiense por duas vezes nas ruas, conseguimos achar um táxi. Eu já tinha caminhado da torre ao arco (uma distância longa, acredite), em meio a bêbados e a motoristas loucos, mas nenhum táxi parava para mim, nem mesmo os vazios - provavelmente haviam sido chamados por outra pessoa. Durante a volta, vi uma cena de agressividade francesa bem latina: uma mulher gorda espancando o marido bêbado, enquanto dois caras ajudavam ele a fugir, e um outro cara ajudava ela a o espancar. Assisti até ficar chato e resolvi seguir a busca pelo táxi. Nisso, mais uma viatura francesa passava lá perto, e aproveitei para exercer meu primeiro ato de cidadania em território francês:
- Está havendo confusão ali adiante.
- Confusão? Onde, senhor?
- "Là-bas".
O policial me agradeceu e a viatura foi em direção ao casal. Não sei bem por que fiz isso, mas foi divertidíssimo.Voltei ao encontro da Liliane numa rua muito estranha nas proximidades da torre. Sentamos ali ainda esperando um táxi, já totalmente exaustos e com um medo sério de ter que passar a noite na rua. Cogitamos procurar um hotel, mas a ideia de achar um era ainda mais utópica do que a de chamar um táxi. Quanto a esta última, abusei da boa vontade de um policial e lhe extraí dois números de táxi. Nenhum funcionou. O frio e o vento apertavam, o sono e o medo também. Meu pensamento expelido em alto e bom som neste momento foi o seguinte:
- Que cidade de merda!
Nisso, pára um taxi ao nosso lado. Era mais um senhor depressivo e amargurado, mas dessa vez parisiense mesmo. Ele falava algumas coisas que me assustaram, principalmente quando perguntou se eu conhecia o Châtelet, tendo eu dito que sim, e ele respondeu "sim quer dizer não, não é mesmo?" e deu uma acelerada súbita que me deixou um tanto apavorado. A verdade é que eu sabia onde ficava o Châtelet, mas de fato ainda não tenho a menor ideia do que é. Como ele sacou isso, não sei. E provavelmente jamais saberei. Ao longo do caminho, ao contrário do outro taxista - que só falou mal da economia francesa -, esse era melancolicamente otimista, dizendo que ama o seu trabalho, e que apesar de não ter dinheiro para quase nada que gostaria, ele se sente honrado e sortudo por poder andar pelas ruas da cidade onde nasceu todos os dias. Disse também que estava trabalhando naquele dia havia quase 12h. Eu comecei a aconselhá-lo a ir dormir, e ele aparentemente concordou, dizendo que eu era muito "doce" (em francês isso não soa tão gay). Quando nos deixou em frente ao hostel, pensei que ele ia chorar. Mas nos poupou deste constrangimento.Dormimos com a sensação de que seria a última noite de sono da nossas vidas.
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No dia primeiro, comemoramos finalmente a entrada do ano acordando tarde - bem tarde -, e indo para a Disney Paris. Por conta do tempo, do atraso e de minha inexperiência (entrei no parque infantil primeiro), só deu tempo de ir em dois brinquedos - mas não se assustem, o número de brinquedos que se consegue ir (por conta das filas quilométricas) não costuma ser maior que esse. A espera em cada fila é normalmente de duas horas e meia. Particulamente, as duas montanhas russas que fui valeram muito a pena; a primeira era praticamente uma fase do Sonic 2 (Mega Driver) - eu imagino que seja uma sensação semelhante ao uso de LSD, chá de cogumelo e essas coisas alucinógenas. Passamos por dentro de anéis, vários 360 graus, tudo piscando freneticamente em uma sala escura gigantesca que parecia conter inúmeras dimensões. A foto do carrinho ficou engraçada, um dia mostro (planejo uploadar as fotos ao blog depois que a viagem terminar).A outra montanha russa era mais um Barco Viking - ia e voltava num arco enorme em ainda mais alta velocidade. As filas me lembram o Roller Coaster Tycon - aquelas que a gente botava em ziguezagues infinitos para sacanear os visitantes. Como estava frio, chovendo, noite, ventoso e quase fechando o parque, a fila só demorou uns 40min. Mas foi preciso caminhar muito para chegar até ela, mesmo já dentro do caminho da fila, o que me leva a crer que, se lotado, a espera deve ultrapassar 3h e meia. De qualquer forma, vale a pena a experiência, apesar de ser muito fugaz (os brinquedos acabam muito mais rápido que no deprimente parque Tupã), e de terem me dito que é incomparável com a Disney americana. Não sei, nunca fui - mas tenho certeza que confere. Nunca esperava que o local representasse a Disney, e talvez por isso não tenha me decepcionado; se esperas isso, acredito que seja melhor ir à Disney original, ou até mesmo ao Beto Carreiro.Não lembro o que fiz naquela noite, mas provavelmente nada - minha vida noturna em Paris basicamente se resumiu ao próprio hostel, que se basta. O dia 2 de Janeiro foi finalmente o mais legal. Fomos tentar ver o que restava do plano. Primeiro fomos à torre de novo para gravar o vídeo de boas vindas aos nossos bixos (calouros), que sequer fizeram o vestibular ainda (somos veteranos muito eficientes, eu sei). Depois de algumas tentativas, e de inúmeras pessoas terem passado por nós tentando entender por que havia um louco de jaleco em frente à torre Eiffel sendo filmado por uma mulher, saímos de lá em direção ao Champs Elysées. Ainda não sabia que se tratava de uma rua... mas esse dia foi um dia de descobertas; logo após caminharmos por ele, pegamos o metrô, e descobri da pior forma que a Bastilha foi totalmente destruída com a revolução - indo até a estação Bastille (esperando ver resquícios da prisão) e pedindo informações para um sujeito que se controlou para não rir de mim. "O quê? A antiga bastilha? Ela foi destruída há mais de duzentos anos... sinto muito, mas você chegou atrasado". No lugar dele, eu teria rido e completado com um: ", turista ignorante!". A partir de então, percebemos que sair sem o guia pode ser um pouco frustrante - ele nos diz exatamente isso. Saindo de lá sem nem pisar na praça erguida sobre o antigo local da prisão, fomos para as catacumbas, que até o presente momento ainda não sei o que realmente é, mas nos disseram para ir... e chegando lá, mais uma descoberta: descobrimos que não abre às segundas. E, antes que descobríssemos mais alguma coisa do gênero, voltamos para o hostel.
Sabendo que era a última noite em Paris, fiz umas amizades sortidas - duas irmãs australianas, vários brasileiros e algumas coreanas... estas últimas merecem uma atenção maior.Pela noite, subi ao quarto sem um motivo especial, deitei e puxei o Guia dos Mochileiros da Galáxia 3, enquanto notei a influência que minha presença exerceu sobre o comportamento das duas coreanas tímidas (mas bem espertas), que começaram a fazer comentários que, fosse em qualquer língua, eu teria entendido de qualquer forma. Dei um tempo e fui em direção à janela, decidido a pegar a cerveja que comprara em Toulouse e tinha posto do lado de fora da janela para gelar. Foi neste momento que elas me interpelaram, perguntando de onde eu era. A mais bonitinha ainda tentou me sacanear, dizendo que era da Coreia do Norte. Completou a piadinha com a brilhante frase: "estou muito triste porque meu presidente morreu". Quando eu entendi que era uma brincadeira, todos rimos - elas porque devem ter achado muito engraçado, e eu porque ainda não entendo como elas podem ter achado isso tão engraçado; o fato é que, se eu não tivesse estudado geopolítica para o vestibular, sequer ia entender a real diferença entre o norte e o sul - o que torna a piada uma piada. Passado esse momento de descontração oriental, dividi minha cerveja com elas (muito boa, por sinal, mas esqueci a marca), e então chegou um coreano amigo delas no quarto, chamado Tsoi (ou algo do gênero). Lembrei do nome dele porque me soou como "Teo". No entanto, esqueci o nome das duas meninas segundos após elas me dizerem. Ainda mais depois de beber os inúmeros canecos de cerveja que seguiram aquela primeira garrafa. A cerveja europeia é boa demais para se parar.
Descemos e eles me acolheram muito bem, os três coreanos. O Tsoi (ou algo do gênero) virou meu grande amigo da noite, e as gurias adoraram quando comecei a tentar falar coreano (uma missão que só é aconselhável após um estado distante da sanidade). Eu aprendi a dizer "meu nome é Lucas" em coreano, e de tanto repetir, o que restou na minha memória foi algo parecido com "ye asrro rucasso imidá" (ou algo do gênero). De repente, aprendi a falar mais uma frase: "você vem da Coreia?", e fui praticar esse novo provérbio aprendido com outras duas coreanas que estavam lá perto. A verdade é que eu não fazia a menor ideia de que elas eram coreanas também, mas o Tsoi (ou algo do gênero) me disse: "cara, eu tenho 100% de certeza que elas são coreanas também, só de olhar". Eu ia dizer "tenho certeza que elas são orientais só de olhar", mas achei melhor não. Elas adoraram o que eu falei (não posso afirmar que realmente perguntei se eram da Coreia, já que eu mesmo sacanearia um estrangeiro fácil se tivesse essa oportunidade). Um grupo de brasileiros do lado olharam para mim e gritaram "ALI, O MOLEQUE FALA COREANO MEU!". Não quis decepcioná-los, então não neguei, mas acho que ao longo da noite perceberam que falar coreano exige uma anatomia diferente - alguma coisa nas cordas vocais que ainda não descobriram. Quando as gurias me disseram os nomes (todas as quatro), eu me lembro de ter pensado "meu deus, se marcianos existissem, eles dariam esses nomes para seus filhos!". Com todo respeito a um possível coreano que leia o blog - fui muito bem acolhido por todos. Muito bem mesmo, com direito a batatinhas e vodka grátis derramada constantemente no meu copo de cerveja pelo Tsoi (ou algo do gênero), que já estava com os olhos ainda mais apertadinhos depois de tanto álcool.
No entanto, não sei bem como, todos os cinco coreanos que conheci naquela noite decoraram meu nome assim que falei. O que me geraria problemas mais tarde.
Voltamos, eu e os três coreanos iniciais, à mesa que estávamos no início, e não entendi bem como nem quando (mas sim o porquê) - o Tsoi (ou algo do gênero) e a Wash Awuo (esse chutei, mas era algo assim) sairam, deixando-me na mesa com a outra coreana.
A Liliane disse que estou ficando especialista em orientais. Pode ser, mas se é que alguém pretende seguir esses passos, vai aí um conselho: esfoça-te para decorar seus nomes, por mais extraterrestres que soem. Vários momentos depois, no fim da noite, quando a guria pediu para eu repetir o nome dela de sopetão, eu olhei para ela mudo. Ela olhou para mim com os olhos da decepção. Se fosse brasileira, me chamaria de "canalha". Levantou de onde estávamos e SUMIU.
Uma daquelas outras coreanas que conhecemos mais tarde chegou para mim dizendo: "se você a ama, como pode não saber o nome dela?". Eu não consegui conter a risada. "Se você a ama"! Eu fiquei com um sério medo de aparecer um pai coreano com um revólver na mão me obrigando a casar. Foi quando decidi que a noite já estava mais estranha do que o normal e subi.
Ao chegar no quarto, só encontrei o Tsoi (ou algo... enfim) dormindo. As duas haviam sumido. Eu não sabia muito bem o que fazer, mas fiquei com a consciência pesada e fui atrás delas. Eis a cena que vi, no auge do meu estado alcoólico, quando saí do quarto em direção ao corredor:
Uma perna atrás do elevador.
Segui lentamente em direção a essa perna e vi que a dona era uma oriental sentada de cabeça baixa, analisando o chão às 4h da manhã. Parecia um filme de terror. Respirei fundo e fui até ela. Quando consegui reconhecê-la, notei que era a amiga da outra coreana, com quem tinha ficado lá embaixo. Sentei no chão perto dela e perguntei o que houve. Ela me sorriu simpaticamente: "nada! Só estou aqui olhando o chão, eu faço isso às vezes". Não quis contrariar. Perguntei da amiga dela, e ela só disse "ela está bem, não se preocupe". Aceitei aquilo como um "é melhor tu dormires antes que algo mais bizarro ocorra" e fui dormir. Quando voltei ao quarto, ainda duvidando da cena passada, uma cortina de uma das camas se abre repentinamente. Levei um susto. A australiana olhou para mim e falou: "você pode desligar a luz por favor?". Nem havia notado que a luz estava ligada, mas se não fosse isso eu certamente teria problemas para alcançar o beliche. Não havia sido eu que ligara a luz, mas provavelmente uma das coreanas (elas viviam deixando a luz ligada), mas enfim, respondi cautelosamente "yes, I will", decorei o caminho de volta e apaguei a luz. Na manhã seguinte, os três coreanos dormiam em suas camas como se nada tivesse acontecido. Tentei dar o fora dali antes que alguma surpresa matinal fosse empreendida. Mas... surpresa: a amiga que curte olhar o chão de madrugada acordou para se despedir de mim. Analisando agora, vejo que foi simpática demais. Fomos até o aeroporto. Destino: Lorient.
Não sei se estou me especializando em orientais, mas certamente estou especialista em últimas noites de cidades grandes.
Não vi sequer o pequeno aviãozinho decolar, tendo acordado na região da Bretanha - um lugar onde ainda voltarei.