quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Toulouse, Bordeaux e Chegada a Paris (25-28/dez)

PS: A propósito, esqueci de dizer que não – não vendi meu matófono uruguaio de R$ 10,00 pelos R$ 150,00 oferecidos pelo venezuelano.
Dia 25/12/11: o dia em que pegamos três trens - Barcelona-Cerbere, Cerbere-Narbonne, Narbonne-Toulouse. Um dia inteiro de viagem.
Quando chegamos até a fronteira da Espanha-França (Cerbere), tivemos que esperar a pequena estação fronteiriça abrir. A predominância do francês nos avisos era clara, mas ainda havia diversas traduções para catalão. Assim que entrei na gigante fila de... três pessoas para comprar a passagem, um senhor meio atrapalhado foi o primeiro francês a falar comigo em território francês, pedindo para que eu o ajudasse, e virou seu traseiro para mim. Eu fiquei parado, quase em choque. “o que é que esse sujeito quer de mim, caramba?”, até que o ouvi dizer “não consigo pegar minha identidade”. De fato, carregava uma mochila gigante e, considerando os riscos, entreguei seu passaporte (ou seja lá o que for, nem olhei). Depois de agradecer, ficou puxando papo em espanhol, dizendo que o espanhol é lindo. Até que me perguntou de onde era, e eu disse que era brasileiro. Daí ele mostrou seus conhecimentos geográficos e disse “lá vocês falam português, não é? Porque é uma colônia de Portugal!”. Pois é – foi logo na fronteira que notei o abismo entre os ensinos de nossos países.
A educação dos funcionários e das pessoas na rua é muito, muito superior à Espanha. Até agora (já são quase três dias na França) somente uma senhora não respondeu a meus pedidos de informação, mas creio que ela era surda. Não só isso, todos estão dispostos a ajudar, desenhando até um mapa se preciso for (e foi). Na estação de Narbonne, houve a primeira dificuldade de comunicação. O problema não é não gostarem que falem inglês com eles; o problema é que de fato QUASE NINGUÉM fala inglês. Fui pedir duas torradas e uma água. Só que, em vez de pedir “de l’eau”, eu pedi “d’eau”, e ela entendeu “deux”. Isso me rendeu alguns minutos de pé tentando entender por que ela estava me dando duas águas e só uma torrada. Ainda não sei a expressão equivalente em francês para “onde foi que eu errei, meu deus?!”.
Segundo o funcionário a quem perguntamos, o trem deveria chegar à estação de Narbonne às 16:06. E sem brincadeira: às 16:06 o filho da mãe estava estacionando na estação. Iríamos nos atrasar para o check-in de Toulouse, que deveria ocorrer às 20h. Por tanto – e eu temia por isso – precisei ligar para o hostel e avisar de nosso atraso. O cara não falava inglês, e aparentemente meu francês não é bom por telefone, o que nos custou vários minutos. No fim, entendi que ele já tinha compreendido tudo, mas que não sabia como me explicar que eles sairiam da recepção às 20h e que eu precisaria ter um código para entrar no portão, e depois mais um para abrir um cofre, para então pegar uma chave e ir para um quarto chamado Copacabana. Quando ele repetiu vagarosamente essa situação e todos os códigos, tomei nota.
O frio de Toulouse estava ainda pior que Madrid, ou seja, provavelmente foi o pior da minha vida até então. No entanto, quando chegamos no hostel, havia um piano no pátio me esperando. Matei as saudades nas noites dos dias 25 e 26 (ontem). Hoje pela manhã, antes de vir para Bordeaux, ainda dei uma tocada no piano secular parisiense ao frio de provavelmente um ou dois graus. O som era fantástico.
Ao entrar na segunda porta, descobrimos que os dois donos do hostel haviam nos esperado. Na certa não confiaram na minha compreensão, mas de fato tudo estava tranquilo. O que nos recebeu nos ajudou a subir a bagagem até o segundo andar e me chamou para a recepção, onde me daria o “plan du ville” (mapa turístico). A sala parecia um escritório, e a cena que se seguiu foi a mais próxima do Poderoso Chefão que já vi na vida.
Parei na porta dessa sala, onde o cara entrou e sentou na sua cadeira. Ao lado dele, havia outra escrivaninha com um senhor de charuto na boca, vestido a rigor e que sequer levantou os olhos para mim. Depois de alguns segundos, ele levantou os olhos e disse com um ar de mafioso: “Oh, entrez!” e eu dei dois passos para dentro com um certo receio de ser contratado para um serviço, ou simplesmente eliminado. Entre as mesas, um bulldog gigante dormia num colchonete canino e nem mesmo se mexeu com a minha presença. Ainda sem olhar diretamente para mim, o mafioso apontou uma caixa repleta de chocolates caros e disse secamente “prenez un bonbon”. Eu ia dizer que não, mas achei muito mais fácil pegar um e dizer “merci” do que dar uma desculpa em francês sob pressão psicológica. O seu acessor me ensinou a andar na cidade (basicamente são quatro pontos turísticos), e fiquei muito satisfeito quando “fui liberado”. Não tendo levado tiro algum pelas costas, segui para o quarto. O banho era dentro do quarto, E SEM BOTÕES! Tomei um senhor banho, compensando todos os dias de agonia em que a água durava 30s por pressionada.
Toulouse é bonita. É claro que estava deserta no domingo de noite, ainda mais no inverno e na parte histórica. Achamos um lugar árabe para comer (há muitos lá também).
No dia seguinte (26/12), saímos para explorar a cidade. Notamos que ela não é tão deserta, tendo por volta de 400 mil pessoas. Foi preciso parar na farmácia para comprar outra faixa para os pés, mas sem meu dicionário de francês (que inteligentemente enfiei na máquina de lavar em Madrid), eu estava muito apavorado, sem lembrar como era “faixa”. Lembro que na Espanha foi dificílimo já, porque a mulher tampouco falava inglês, tendo eu que fazer um teatro médico para que me entendesse. No entanto, a simpaticíssima farmacêutica francesa (e muito bonita, diga-se de passagem) foi totalmente atenciosa e entendeu de primeira quando pedi, e além disso ainda me passou o nome francês do produto para que eu pudesse comprá-lo posteriormente. Saí de lá incrédulo com a educação desse povo franco-sulino. Logo em frente à farmácia, um senhor nos ajudou com explicações detalhadas sobre como tomar o metrô. Vimos os poucos pontos turísticos de Toulouse após alugar um carro (dica do último hostel, em Barcelona, sobre custo-benefício em território francês).  Não foi fácil conseguir alugar, principalmente porque eu havia esquecido como era “devolver” em francês. E até ela entender que queríamos devolver o carro só em Paris levou algum tempo, mas tudo acabou bem. Quando chegamos até o estacionamento para buscá-lo, um casal francês veio me pedir informações. E (estranhamente) eu consegui lhes ajudar.
Fomos até os Jardins japoneses. Nada demais – até a redenção pode ser mais interessante, não querendo exagerar. A única coisa legal de lá é que eles dão sacolinhas para que tu limpes a sujeira do teu cão.
Devido ao engrossamento do frio, foi preciso que eu comprasse uma calça. Entrei sozinho na loja (a mesma loja espanhola) e de cara vi uma calça boa e barata, dupla e com um tecido bem bom. O problema é que era M, mas estranhamente apertava minha cintura (e meu músculo glúteo máximo) enquanto ultrapassava o limite de comprimento das minhas pernas. Achei que o segundo problema era menos adaptável, então pedi ajuda para uma atendente. A francesa olhou para mim quando perguntei se havia um tamanho menor com certo receio, mas depois de hesitar, falou: “c’est pour vous?” (é para ti?), e eu disse que sim. Aí ela concordou apressadamente e foi procurar um tamanho menor para mim… mas meio confusa por algum motivo inexplicável. Quando ela viu que não tinha menor e contou-me, fiquei desolado. “Não tem nenhuma outra calça nesse estilo?” e ela respondeu “tem sim, senhor… mas… é que…”, e eu “oui?”;
- C’est pour femmes...
Fiquei naturalmente envergonhado quando entendi o motivo de tanta hesitação. A calça era feminina. Mas realmente não parecia! Talvez pela cor bege, mas ainda assim, nunca vi calças de inverno europeu, achei que fosse assim mesmo. Enfim, quando expliquei que se tratava de uma confusão, ela me levou até a área masculina, e tudo se ajeitou. Quando saí do provador, ela ainda se sentiu à vontade para me gozar: “essa ficou melhor?”. Não sabia como era “engraçadinha” em francês.
Mas agora sei. Achamos um dicionário Francês-Brasileiro (sim, brasileiro). Parece que tudo passou a fazer sentido depois desse pequeno livro me acompanhar a todo lado. Não vou ao banheiro sem ele. Toulousse tem uma feira muito interessante dentro de uma praça muito medieval, ao mesmo estilo da de Madri. Comemos o famoso crepe de chocolate, que não pareceu nada demais; vi um dog alemão revoltado tentando assumir o controle da própria guia, o que preocupou a dona um pouco. Tentei filmar isso discretamente, um dia me cobrem.
Na manhã seguinte (ontem, 27/12), depois de me despedir do piano sob o frio congelante de Toulouse, pegamos o carro e seguimos até Bordeaux. A ideia de cancelar a ida a Carcassone aparentemente foi a melhor que já tive até o presente momento durante a viagem. É provável que nunca saibamos como é essa cidadela da era pré-cristã, mas ir até lá, voltar a Toulouse e só então ir a Bordeaux (chegando de noite para partir de manhã para Paris) nos pareceu algo sem sentido. Durante o caminho, havia um pedágio sem ninguém para nos atender. Quando causamos uma fila razoável de carros atrás de nós sem entender o que diabos estávamos esperando, um cara saiu do carro e veio nos dizer que era só pegar o ticket da máquina. Quando o fizemos, nossa passagem foi liberada gratuitamente. Era o que pensávamos, é claro; no próximo pedágio, entregamos esse ticket para uma moça e efetuamos o pagamento.

Já perceberam que fomos direto a Bordeaux, e vos digo: foi a cidade mais bonita e agradável que já estive até hoje. Logo na entrada, centenas de prédios antigos de mesma cor e de mesmo estilo renascentista (amarelados, com janelas gigantes e oponentes). Ao lado oposto da estrada, um rio deslumbrante, e entre a estrada e o rio, jardins muito bem cuidados repletos de flores e vegetações exóticas, que sinceramente não entendo como é preservado no inverno, além de um espelho d’água de menos de 5cm de profundidade que combinou de uma forma inexplicável com o porto. Entre as duas mãos da estrada, trilhos de um metrô de superfície ultramoderno, tão bonito quanto o Renfe que pegamos de Madri a Barcelona, ou mais. Pontes, navios e torres antigas faziam parte da paisagem que me cercava quando tive o seguinte pensamento: “esse lugar daria fotos extraordinárias em um ângulo de 360 graus”. Deixamos o carro numa garagem e pegamos o trem que passava logo em frente ao local em que ficamos. Era esse mesmo metrô superficial e confortável, que nos levou ao cais de novo. Quando vi que entramos sem pagar, fiquei maravilhado como podia um sistema de transporte público de tamanha qualidade ser gratuito. Pouco depois, entendi que era preciso comprar o bilhete numa estação com antecedência (...). De qualquer forma, foi gratuito para nós.
Entrando mais na cidade, achei jogos de ps3 por 10 euros. Jantamos num lugar italiano e não provamos o vinho de Bordeaux (erro imperdoável). No lugar disso, tomei uma Heineken (outro erro imperdoável). Mas aparentemente o gosto dela é melhor aqui (se não for mais um erro imperdoável). Tentamos perguntar à italiana como fazer para comprar o ticket, mas ela disse que valia mais a pena não pagar. Antes de entrar nele, ainda perguntei para um outro cara como se fazia, mas notei que ele não entendia muito o que eu falava… daí pedi desculpas pelo meu francês, e ele disse “tudo bem, eu também não falo francês muito bem”. Perguntei de onde era: Moldávia (abaixo da Ucrânia e acima da Romênia, leste europeu). Não falava inglês, mas acabamos nos entendendo num francês lento. Ele nos disse para não pagar também, e então não pagamos.
Pela noite, cedi-me bastante tempo para atualizar as postagens e passar algumas fotos, aproveitando a internet melhorzinha da recepção em Bordeaux. Após as atualizações e uma conversa extensa e delicada, saí (por volta das 2h40min) pelas redondezas. Dei umas voltas nos quarteirões da cercania, sem casaco, respirando pela boca e sentindo o gosto da umidade condensada e gélida de Bordeaux.
Pela manhã, viemos em direção a Paris, viagem que para mim durou pouco mais de uma hora (não vim de avião, mas dormi no carro). Os dois pedágios foram assustadores. Alguém já cogitou pagar R$ 90,00 no primeiro e R$ 64,00 no segundo pedágio? Nem nós. Mas quem utiliza a estrada sul-norte francesa, entende por que eles cobram esse preço.
No momento estamos adentrando a cidade de Paris. As buzinas já começaram, a confusão da cidade grande já está visível e nossa busca pelo hostel está aparentemente controlada. Chegando ao momento presente, e não podendo adivinhar o futuro, cesso aqui meu post e o publico em alguns minutos. Au revoir!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Natal em Barcelona

A menina que roncava foi embora no dia do natal, tendo sobrado só uma morena. Durante este dia festivo, fomos visitar os pontos turísticos que faltaram (quase todos), mas não deu para ver muito. O famoso mercado foi tão decepcionante quanto o resto vinha sendo até então, parecendo mais uma feira de brasileiros do que um ponto turístico europeu, exceto pelo fato de todos estarem mal-humorados. Logo em seguida fomos até a praia mediterrânea. Lugar bonito, mas falso – dizem que foi aterrado para as olimpíadas. Ao procurarmos o metrô, vimos uma cena interessante: um cara alto e forte, vestido como um esportista, correndo com fones no ouvido e uma guia na mão, através da qual levava seu cão junto – uma criatura peluda e afeminada que caberia em nossas mãos. Não satisfeito com o contraste, o sujeito ainda cantava em voz altíssima uma dessas músicas dance da atualidade. Não, não estou contando um filme.

Foi somente na volta para o hostel que as coisas melhoraram.

Vimos ruas magníficas ao estilo neoeuropeu, gigantes e super bem organizadas, com um trânsito completo (e complexo) para ciclistas. Também veio à tona as belas construções, prédios, shoppings e essas coisas que as cidades grandes têm. Visitamos o bairro gótico, que de fato é como se fosse uma cidade medieval (e de certa forma é). Recuperamos o guia que havíamos esquecido em Madri – um exatamente igual, mas em espanhol, o que a essas alturas já nos é indiferente. Na frente da catedral gótica havia um grupo de jovens manos dançando de uma forma assustadoramente hábil. Chegamos ao hostel no fim daquela tarde e começamos a arrumar a bagagem para a viagem da manhã seguinte enquanto decidíamos pela primeira vez o que faríamos na noite de natal. Eu nunca fui apegado a datas, e felizmente ninguém no hostel era – até porque grande parte era dos hóspedes era de orientais, que não comemoram o natal. Pela primeira vez, pude procrastinar o peso que é saber que é natal, o símbolo de uma religião criminosa e a afirmação de uma sociedade desigual; não precisei lembrar que, enquanto milhares de crianças ganham presentes, outras milhões sentem a dor do estômago vazio – realmente só me lembrei disso uma vez naquele dia, e foi somente após o pôr-do-sol, no nosso quarto, arrumando as malas e decidindo o que teríamos no jantar. Foi quando a Flávia, a morena italiana, resolveu pedir uma tesoura emprestada. Não sei bem o que ela queria com isso, mas a ideia dela funcionou radicalmente. Em alguns minutos, estávamos cozinhando juntos, eu e a bolonhesa (não é o nome do prato, estou falando da italiana, de Bologna). A ironia é que eu estava de fato preparando um macarrão à bolonhesa (até eu mesmo ri, agora que me dei conta disso). Talvez seja por isso que ela tentava insistentemente me avisar que esse prato era típico na sua terra, repetindo um nome intraduzível enquanto apontava a panela. A grande dificuldade da noite é que ela mal falava inglês, ou seja, passei a noite arriscando um italiano gaudério que de certa forma funcionou bem, graças às novelas da globo (e ao Super Mário, talvez). A bella ragazza não apenas me ajudou a cozinhar e a lavar, como tornou a “ceia” algo mais familiar, devido talvez à minha descendência (?). Antes disso, na hora de comprar os ingredientes, fomos em alguns mercados de paquistaneses (os únicos abertos na hora da ceia de natal). No açougue, o cara negou me vender um coelho em vez de carne moída (até agora não entendi bem por quê), o que estragou meus planos de comer um coelho por natal do ano passado em diante. No de verduras, o cara sequer falou conosco (pode-se entender isso como profissionalismo paquistanês, talvez). No último, onde compramos o restante, o paquistanês da vez parecia ser um sujeito de bom coração (apesar de ter a mesma expressão dos outros dois: nenhuma). Ele ficou me perguntando sobre a vida, de onde era, quando cheguei e quando ia voltar. Nesse momento, pareceu levemente abatido. Foi quando eu parei para pensar no quão difícil deve ser para esses imigrantes. Preconceito, crise, esperanças e sonhos destruídos pela traição do sistema, famílias deixadas à mercê de uma situação bélica agressiva e miserável. Quando perguntei se ele voltaria também, disse-me que sim, daqui a uma semana. Fiquei feliz por ele, mas não sei se ele também o está. Por algum motivo, deu-me ao fim da conversa e da compra um pacote de um salgadinho apimentado de presente. Agradeci assim que entendi. Era um presente de natal. Como o filho que provavelmente eu o estava lembrando, sorri profundamente sensibilizado, mas com certa distância, conforme permitia a situação.

Ofereci a janta para todos no hostel (americanos, australianas, alguns brasileiros, vários orientais, uns turcos e nós três), mas todos agradeceram, já tendo jantado. Comíamos nós três, até que chegou um sujeito com um cabelo engraçado. Gente boa, o Vinícius – porto-alegrense que veio a Lisboa há anos, tendo pegado o sotaque de uma forma que até Cabral invejaria. Aceitou juntar-se conosco, e então jantamos.

Mais tarde, liguei para minha família, matando as saudades e lembrando-me da importância que a maioria das pessoas dá ao natal (o suposto nascimento de um suposto filho de um suposto deus). Então nos preparamos e fomos sair, eu, a Flávia e o Vinícius. Rachamos um táxi até quase a praia, onde havia uma festa. Esperamos mais de meia hora na fila, sem entender por que metade das pessoas da fila entrava e a outra metade permanecia do lado de fora do local. Quando chegamos, o careca e mal-encarado segurança nem explicou o motivo, só disse que não entraríamos. Ainda culpo o cabelo extravagante do amigo Vinícius desta vez, mas a verdade é que eles restringem a entrada de uma forma ridícula e aparentemente ilegal em Barcelona. Eu realmente tentei, Vitória, explorar a noite “maravilhosa” de Barcelona, mas aparentemente a cidade tampouco foi com a minha cara. Seguimos caminhando pela beira do mediterrâneo enquanto o Vinícius explicava o motivo de seu desprezo aos portugueses, o que confesso ter sido muito interessante, mas... enquanto me contava rápida e incansavelmente sua vida em português, a pobre italiana ficava caminhando ao lado, quieta, sem entender mais do que alguns substantivos soltos volta e meia, momentos em que ela ria.

O amigo lusogauchesco  queria muito sair, apesar do inconveniente. Por outro lado, eu e a Flávia queríamos voltar ao hostel (...). Quando educadamente despistei nosso novo amigo, que acabou indo procurar uma festa, seguimos pelas ruas de Barcelona . Ela tentava me convencer a ir a Bologna, dizendo que seria nossa guia – momento em que descobri que ela não tem facebook, tendo (estranhamente) me passado seu telefone. Talvez o flerte funcionasse tal qual seu país: à moda antiga. De qualquer forma, gostei, conquanto soubesse desde já que nosso último contato seria lá mesmo em Barcelona. Tentamos pegar o metrô, mas ele estava fechado; então pegamos um táxi. Finalmente o taxista era catalão. E a mudança foi imediata: estava ouvindo um pop estilo Michael Jackson e inclusive me passou o nome, dizendo que eu precisava escutar, e que era da sua geração. Não parou de falar um minuto, mas foi super gente boa e tudo que falava era interessante. A italiana estava muito quieta no banco de trás. “Tutto bene?”, perguntei, e ela, sorrindo, respondeu: “tutto bene”. Parecia gostar quando me via tentando falar seu idioma. E eu definitivamente gostava de tentar falar seu idioma. A partir de então, o taxista passou a pensar que éramos ambos italianos, apesar de estar falando castelhano com ele. Este sujeito me contou, no fim da corrida, o que considerei a informação mais valiosa do local. Ele me falou que todos os catalães têm como língua mãe o catalão E o castelhano, e que, vejam bem, se tu (catalão) conheces alguém também catalão e falam primeiro em catalão, falarão nessa língua o resto da vida; se, no entanto, falarem em castelhano, falarão espanhol pelo resto de suas amizades. Contou-me inclusive de casos em que essas relações se intercruzavam, estando entre três amigos, de modo que ainda assim respeitavam tal regra tradicional de não mudar o idioma (cada par falava entre si no idioma que se conheceram simultaneamente). Apesar de muito interessante, achei pouco usual, mas cultura é cultura “e vice-versa”.

Descemos do táxi e fomos até o andar inferior do hostel, onde havia um violão e um sofá (perfeito cenário). Toquei algumas músicas do Bon Jovi e Aerosmith porque já sabia de antemão que ela os adorava; segui astutamente com More Than Words e terminei com uma Tarantella improvisada, e acho que foi aí que a ganhei; parece ficção de blogueiro, mas foi ela que veio até mim. Se a Irina estiver lendo isso, dirá que “sou podre”. Mas o fato é que a música é um belo - e por que não inocente - recurso.

Na manhã seguinte, ela também acordou para se despedir. Donna mia, a Europa é surpreendente!

Embarcamos num trem não muito bom, mas de longe melhor que qualquer transporte brasileiro em se tratando de segurança, ecologia e pontualidade. Destino: França!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Barcelona Antes do Natal

Nosso turismo em Barcelona foi levemente fracassado, ora devido à má-impressão que tivemos da cidade, ora por conta da cidade em si. Após as críticas indignadas de alguns amigos sobre minhas impressões de Barcelona, resolvi seguir o que restava dos conselhos: sair à noite. Antes disso, havíamos jantado num lugar turco de péssimo atendimento. O cara, de fato turco, riu com desdém quando eu lhe perguntei como era feito uma espécie de panqueca com mil verduras dentro e pedaços desfiados de “pollo o ternera”, como se fosse obrigação mundial conhecer sua culinária que, ao meu ver, soou pobre e de péssimo gosto. Apesar disso, comemos lá. Resultado: ambos passamos mal alguns minutos após.

Nessa noite de sexta-feira – o dia mundial para sair-se – eu fui andando até a Rambla (avenida gigante onde dizem ser o “point”). Até chegar lá, porém, tive de entrar em uma ruazinha história na qual havia faltado luz. Sombras de pessoas de toda sorte passam por mim, mas o pior era quando eu passava por elas. Cruzando uma outra rua histórica, dessa vez com luz (mas não menos apavorante), uma prostituta me assediou em inglês. Mesmo agradecendo e negando educadamente, a sedutora africana me seguiu numa tentativa insistente até quase a Rambla, e só parou quando eu disse, impaciente, depois de diversas negações: “Look, I’m brazilian, I can have sex whenever I want, so just leave” (sou brasileiro, e lá temos sexo a hora que quisermos). Ela riu e aceitou o grande exagero que proferi como verdade absoluta. Fiquei mais tranquilo, porque jurava que ela ia chamar “os manos de Barcelona”, ou qualquer coisa do gênero. A cidade, além de totalmente sombria e de certa forma apavorante, está repleta de imigrantes estranhos, os quais comandam o comércio e os táxis –principalmente indianos e paquistaneses. A propósito, nunca vi tanto árabe junto; a grande maioria fala espanhol quase fluente, não obstante o sotaque, e alguns se camuflam tão bem que eu só descubro que não são de lá porque... me perguntam se eu sou de lá.

O fato é que a Rambla estava tão movimentada quanto o início da Ipiranga numa segunda-feira de madrugada ao ápice do inverno gaúcho. As pessoas que estavam lá à uma da manhã eram basicamente esses estrangeiros assustadores tentando me vender coisas aleatórias, as quais neguei veementemente. Até que me refugiei dentro de um bar cujo atendente era, graças a Deus, brasileiro – mais um nordestino me acolhendo nesta terra castelhana. Entrei lá com os batimentos acelerados, pupilas provavelmente dilatadas e estou me segurando para não dizer outros adjetivos que caracterizariam o meu medo. Tudo acabou quando comprei uma cerveja do pernambucano. O cara não só me deu entradas grátis para duas festas, como me garantiu que o máximo de perigo que há nas redondezas é o de alguém te encher o saco até tu comprares algo, e que, não se dando bola, tudo ficará bem. Saí de lá de peito estufado, sentindo-me imbatível e sem medo algum dos olhares ameaçadores que me lançavam, volta e meia, antes de me oferecerem cervejas quentes e outros artefatos que sequer sei o nome.

Tratei de procurar a praça que continha uma dessas discotecas na qual entraria grátis. Demorei uns quinze minutos até chegar lá, não só pela distância, mas pela falta de gente aparentemente confiável para pedir informações. Finalmente cheguei lá e achei a festa.

O que aconteceu, querida Vitória, é que o simpático segurança espanhol olhou para mim de cima a baixo e disse: “vestido assim tu não entras aqui”. Eu pedi que repetisse. Quando realmente o assimilei, pensei “eu devo ter rasgado a minha roupa sem perceber!”, e ME olhei de cima abaixo. Eis o que verifiquei: um dos melhores blusões que já vesti até hoje (inclusive comprado lá!), uma calça jeans negra intacta e botas espanholas cuja unidade vale o par dos meus tênis.  Eu estava vestido como um europeu. Talvez até demais. Quando o questionei o motivo, ele me respondeu sem vontade “estás muito montanhazinha, tu vais para a montanha? Não vê que aqui todo mundo é esporte?”. Confesso que ser comparado com uma montanha pela primeira vez na vida não foi de todo ruim. O fato é que, olhando as pessoas que saíam para fumar, não notei muita diferença entre mim e eles, mas resolvi não discutir. A Paula já havia me comentado de uma festa em Berlim em que o segurança escolhe quem deve entrar ou não sem um critério definido; este pelo menos teve a decência de criar um. Concluí que devia haver muito homem lá dentro, ou que ele não queria ninguém entrando de graça lá (mostrei o vale grátis que ganhei antes de ele me barrar). Seja como for, voltei para a Rambla. Sem mais o que fazer e levemente perdido, resolvi andar no mesmo sentido que duas das poucas meninas bonitas que vi em Barcelona em todo o período que passei lá; a diferença entre a beleza madrilena e barcelonesa é algo descomunal (em se tratando tanto de mulheres quanto de paisagem). Quando elas entraram em alguma outra rua, notei que estava num lugar meio deserto e peguei um táxi até o hostel, ainda mais decepcionado com a terra do melhor time do mundo.

Desta vez passei a noite no quarto do andar debaixo, que abrigava, além de mim e da Liliane, um gaúcho com um sotaque totalmente português (mora lá) e duas europeias bem interessantes. Notado isso, dormi.

OBS: uma das duas estava roncando.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Toledo, Última Noite em Madri e Chegada em Barcelona

PS: ainda estou sem "til", o que explicará a possível falta a seguir.

Na quarta fomos a Toledo - que cidade magnífica! As ruazinhas sao tao estreitas que nao passam um carro e um homem lado a lado. No entanto, as pessoas sao bem mais acessíveis, e sabendo um pouco de espanhol, pode-se perder à vontade. Criminalidade: zero, tal qual Ávila e a maioria das outras cidades. Madri me pareceu tao segura que andei pela madrugada sozinho depois de várias cervejas, mas isso é a segunda parte do relato.
Fomos de ônibus até Toledo, e apesar de chegarmos bem tarde (cinco e pouco), deu para ver a catedral e ter uma noçao boa de como é a cidade de dia. A parte antiga (onde passamos a maior parte do tempo) praticamente nao mudou desde a Idade Média, podendo-se ver ainda ganchos de ferro para prenderem-se os cavalos em algumas esquinas, ruas sem saída, entrada de ruas com portoes gigantes, portas de madeira multicentenária, entre outras maravilhas da antiguidade que só se vê no velho mundo.
A catedral me pareceu o edifício mais antigo que já estive até hoje. Ela é totalmente medieval, com pouquíssimas inovaçoes. Apesar de ser proibido, tirei várias fotos, além de, com certa ajuda judiciária, abrir o órgao sagrado do salao musical e tirar uma foto dele. Esse foi o grande momento de Toledo.
Tanto a ida quanto a volta foram absolutamente pontuais, tendo o ônibus partido ao mesmo momento em que o relógio marcou que este sairia (acabei de ser extremamente redundante, eu sei).

Quando chegamos em Madri de novo, resolvi que ia lavar a roupa na máquina. Nao quero falar muito sobre isso porque ainda estou envergonhado, mas ter resolvido fazê-lo sozinho me custou um dicionário de francês-português E o dobro do preço da lavagem, já que, como nao dava para abrir a máquina e tirar o maldito dicionário, tivemos que esperar os 30min terminarem e recomeçar a lavagem. Sentindo-me um imbecil, fui até a área comum e um sujeito veio falar comigo em francês. Apesar da surpresa, consegui me virar bem, e mantivemos um diálogo relativamente longo. Era do mesmo programa da noite passada, de levar os estrangeiros boêmios para um turismo festivo por aí. No mesmo segundo hostel da noite anterior, estava lá, sem ter jantado basicamente nada, quando encontrei um grupo de brasileiros. Nao só brasileiros: estudantes de medicina. Nao só estudantes de medicina brasileiros: eles eram de Natal! Eu nunca havia conhecido nenhum estudante de medicina acima do Paraná (e mesmo assim, só pelo Intermed), muito menos do Nordeste!
Disseram-me ser do sétimo semestre (chamam de período), e quando contei que ia para o segundo, chamaram-me de "calouro" (que traduzi como bixo). Apesar do gelo inicial, normal entre qualquer relaçao interpessoal, em poucos minutos o grupo de dois caras e várias gurias me acolheu de uma forma que poucas vezes já havia visto - todos muito legais, sem exceçao, e sem aquelas frescuras que grupos de estudantes de medicina normalmente têm. As meninas eram bonitas. Conforme fomos bebendo cerveja E tequila (quase forçados pelos "guias" do pubcrawl), fomos sendo levados para outros bares e festas dos quais pouco me lembro. Só sei que, nao lembro bem quando, acabei ficando com a japinha/brasileira do grupo. A experiência foi de fato estranha - devido a tanta combinaçao (nordestina, japonesa, quase doutoranda na UFRN e com um sotaque engraçado), ela era basicamente uma estrangeira para mim. Entre os pubs, o cara que havia falado comigo em francês a noite toda (tendo eu descoberto mais tarde que é venezuelano) tocava seu violao, e sabendo que isso ocorreria, levei comigo o meu precioso Matófono (instrumento artesanal de sopro que comprei no Uruguai a menos de R$ 10,00). Quando toquei junto dele pelas ruas, o cara se apaixonou pelo instrumento de uma forma que me o quis comprar por 50 euros (quase R$ 150,00). Alguém arrisca o que eu fiz?

Na manha seguinte eu acordei ainda alcoolizado. Nao me lembrava como havia chegado no hostel, nem que havia ainda entrado na internet após isso, fatos que foram sendo acrescentados à minha memória de ressaca lentamente ao longo do dia seguinte. Quando pegamos o Renfe até Barcelona, eu fiquei apavorado com a qualidade do serviço, sendo este melhor que o dos avioes daqui. Deram-nos "o melhor amendoim do mundo", e logo entendi por quê. O sabor refrescante continha algo de chocolate, porém numa combinaçao especialíssima. O almoço também nao foi dos piores, apesar de ser bem pouco. Com certeza foi a viagem mais confortável que já fiz na vida, além de ter durado pouco mais de duas horas (o trem vai a mais de 300km/h). Ao longo do caminho, a paisagem excêntrica mistura as fazendas ibéricas, ruínas medievais e o mediterrâneo, este mais perto do destino. Foi só entao que pude me considerar sóbrio novamente, mas é claro que ninguém desconfiara de nada.

Desde o início, Barcelona nao nos chamou muita atençao. Peço perdao a quem ama essa cidade, mas realmente nao vi nada demais... é só uma cidade grande e moderna, relativamente bem organizada, mas nao chega aos pés de Madri em beleza, conteúdo histórico, simpatia e principalmente: segurança. Desde o início nos alertaram por escrito que a cidade é perigosa, e reforçaram o pedido de "cuidado com seus bolsos, pois aqui há truques realmente ótimos para roubar o turista!". Nao demos muita bola, afinal somos brasileiros. Entretanto, mais tarde soubemos que um indiano (colega de quarto) foi roubado exatamente com um desses truques. O hostel, apesar de nao chegar aos pés do outro em qualidade, é tao receptivo que poderíamos abraçar os funcionários. O dono (pelo menos parece ser o dono) é um português também, jovem e gordinho, muito gente boa. O cara da manha também é muito legal, tendo conversado horas com a Liliane e dado várias dicas para o futuro da viagem. Pela noite de quinta, em Barcelona, estávamos nos preparando para os três lances de escada quando o português foi antes de nós no quarto pedir educadamente para que uma loira sei lá daonde trocasse para a cama de cima, porque um dos hóspedes estava com a perna machucada. Ela respondeu calmamente: "I don´t really want it, sorry" (eu realmente nao quero fazer isso, sinto muito). Depois de muito transtorno, conseguiu uma cama para a Liliane no quarto abaixo. Mais tarde, conheci o outro colega de quarto, que era um indiano muito engraçado, seco e de uns 2m de altura, com uma cara e um sotaque no inglês que nao lhe poderiam acarretar outra nacionalidade. Quando soube que íamos ao jogo do Barcelona, resolveu nos acompanhar muito feliz. E foi.

O estádio nao é muito grande, nem o campo, mas tem ótima qualidade e é caro. Talvez porque compramos com cambistas... a verdade é que nao sei quanto custa um jogo desse nível no Brasil. Só sei que valeu a pena; o Barça ganhou do L´Hospitalet de NOVE a zero. A torcida é muito boa, ao contrário do que eu imaginava; o time nao foi o titular, mas alguns estavam em campo, como o Iniesta, o Xavi (se nao me engano, acho que o vi lá), o Puyol (que é IGUAL ao PS3 e nao deixou ninguém passar por ele), e mais um ou outro que acabei esquecendo. Nao, o Messi nao entrou. Mas creio que nao foi necessário. Repito: foi NOVE a zero.

Na volta, descobrimos que o metrô fecha à meia-noite. Pegamos um táxi com o indiano, que reconheceu o motorista como paquistanês e começaram a conversar numa língua que sequer sei o nome. Se eu soubesse a nacionalidade do motorista, teria um medo real de que essa conversa terminasse em morte (culpa do Prof. Fábio Catani). Mas foi tudo bem.

A temperatura em Barcelona está tao quente quanto à do outono gaúcho. O sono e a leve decepçao com a cidade me fizeram dormir cedo. E acordar tarde. Bem tarde.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Terça-feira Madrilenha

Obs.: Desde já peço perdao, mas nao encontrei o "til" no presente teclado.

Na terça pós-Ávila, por conta do meu pé e da preguiça, acordei muito tarde. Encontrei a Liliane na Plaza Mayor, um lugar incrivelmente magnífico que, para mim, só perdeu em beleza para o Palácio Real até agora. Foi construída no início do renascentismo e foi palco de inúmeros fatos de grandiosa importância, como a chegada d`El Rey Carlos III (a cujo palácio visitamos no dia seguinte e ainda me assusta só de lembrar), várias execuçoes pela inquisiçao e até hoje é onde se realizam os maiores eventos populares, como feiras e exposiçoes. Neste momento há uma feira de natal, o que lamentei muito, pois retirou boa parte da ideia medieval. Há uma estátua gigante do Felipe III (creio) bem no centro.
O Papá Noel estava para lá e para cá desejando Feliz Navidad a todos e forçando uma risada cocacolística. Nao tardou para que eu tivesse a brilhante ideia de fazê-lo desejar isso em português, e filmá-lo, é claro. E o fiz, embora o tenha deixado meio contrariado. Depois disso, ainda nos extorquiu um ou dois euros. Nao deu para ver muito mais coisas nesse dia, pois o palácio já estava fechando quando alcançamo-lo.
Pela noite compramos carve de avestruz no supermercado. Era relativamente barata; cozinhei-a com uma massa e ficou relativamente agradável, mas nada demais. A parte legal foi que, durante a preparaçao, conheci na cozinha duas Malasianas muito queridas e com um charme oriental interessante. Conversamos bastante e dividi uma garrafa de cerveja espanhola com elas, que, para a minha surpresa, aceitaram de bom grado. No início perguntei se eram japonesas, o que deveria tê-las deixado muito ofendidas, porém isso nao ocorreu; mais tarde descobri que só se ofendem quando sao confundidas com chinesas. Quando disseram que eram da Malásia, disse-lhes que tenho uma amiga que mora em Bali, e elas riram muito. Também mais tarde, descobri que Bali é na Indonésia, e nao na Malásia. Errei por pouco, mas por algum motivo elas sorriam de tudo com aquele jeito oriental admirável. Quando comecei a picar cebola, as lágrimas apareceram, e logo elas pararam o que estavam fazendo para pegar uma panela, encher de água e colocar as cebolas dentro. Truque da culinária malasiana. Mais além, tentei colocar um pouco de sal e caiu o pote todo dentro, tendo elas me ajudado também a retirar o sal antes que se espalhasse. Prestativas, as meninas. Algumas horas depois, estávamos lá embaixo quando um pessoal de outros hostels nos convidaram para sair num Pubcrawl (programa que interage os hostels e as festas da redondeza para estrangeiros). Chegando no outro hostel, conheci um espanhol muito gente fina, e depois dois curitibanos e uma carioca. Nem um pouco agradáveis, estes três; além do quê, o sotaque da guria era exageradamente ridículo - pior que a malhaçao. Deixo claro que nao tenho nada contra cariocas, e nem odeio seu sotaque, mas a antipatia é uma grande formadora de opinioes negativas. A parte boa foi que, quando decidi nao ir na festa após o outro hostel (de onde partiríamos todos), encontrei um canadense meio rastafari de Quebec, com quem pratiquei meu francês exaustivamente. Gente boa, também. Voltei ao hostel e perguntei ao português da recepçao se a área comum estava aberta, tendo-me dito que nao; entao acrescentei (vou até buscar um til no google para esse trecho): "amanhã abre?", e ele respondeu: "7 da manhã". Certamente ele compreendeu "à manhã abre?", como um bom português. Dormi.

Na manhã seguinte (ctrl V para o "ã": deveria ter pensado nisso antes), fomos ver o Palácio Real. É assustador, como já disse. Para quem já jogou Zelda, se sente dentro jogo. A família real tinha aposentos incríveis, como o quarto de se vestir, o quarto amarelo, o quarto de porcelana, o quarto para fumar, o quarto para bilhar (sim!) e outras salas absurdamente ricas, como a sala do trono (que me fez sentir um pobre plebeu). Nao se pode filmar lá dentro, e dessa vez nao dei um jeitinho brasileiro. Almocamos e fomos para Toledo, a cidade medieval nas redondezas de Madri. Todavia, deixo-a para o próximo post, porque neste momento me vou ao jogo do Barcelona!  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um Passeio em Ávila

Eu ia começar dizendo que hoje foi um dia atípico, mas o que é um dia típico quando se trata de uma Eurotrip?
Assim que acordei, peguei a garrafinha d'água que deixei ao lado da cama e parecia que a tinha tirado da geladeira. Isso me fez entender por que quase nada vem gelado, nem mesmo das máquinas de bebida. Sábado mesmo, pela noite, eu fui beber uma cerveja e o negócio explodiu quando abri, de tão quente - mas consegui ser discreto, e só um japinha notou (e daí, pensei, ninguém vai entender o que ele diz mesmo). O banho matinal demora umas oito pressionadas para esquentar. Eu disse pressionadas porque o chuveiro aqui é um botão, semelhante àquelas torneiras de shopping, o que te obriga a tomar banho de costas pressionando o botão a cada 60 segundos.

Percebemos hoje o que pode vir a ser um costume espanhol: aborrecer-se ao dizer um não. Até agora, quase todas as respostas negativas às informações que pedi vieram seguidas de um ar indignado. Por exemplo, quando pedi um segundo copo de suco no café da manhã. "No! Sólo un vaso por persona!" disse o senhor que servia sucos no café da manhã, fechando a cara. Eu agradeci e saí. Mais tarde, quando chegamos em Ávila ao meio dia em ponto e com fome, entramos num restaurante de um espanhol típico (quase um toureiro), e perguntei se já havia almoço. "Cómo! No hay! Almuerzo sólo más tarde!" respondeu o dono um tanto indignado, como se fosse algo absurdo alguém querer comer ao meio dia. E é. Hoje percebemos que o que falam da Espanha é verdade: eles comem mais tarde e fecham as lojas logo após o almoço por um BOM tempo.
Mas não é daí que meu relato começará.

Dentro do metrô, lotado segunda de manhã, os acentos preferenciais estavam ocupados por um cara meio Latino (o cantor, mesmo, com brinco e ar de peruano malandro) e seu filho, um projeto de Latino. Não dissemos nada, até por sermos estrangeiros. No entanto, quando um senhor (de uns 70 anos ou mais) percebeu que os dois não deram lugar à Liliane, começou a xingar pai e filho em voz alta dentro do metrô. "HAY QUE TENER EDUCACIÓN!", dizia o velhinho, e com razão. Ainda assim os dois não levantaram, tendo o pai rido com desdém. Nisso, uma jovem sentada perto dali (num assento normal) ofereceu o lugar à ela. Cena interessante, essa.
Ao chegarmos na estação para pegar o trem até Ávila - cidade histórica com muralhas do séc. XII onde Sta. Teresa viveu -, tentei comprar uma água numa dessas máquinas frescas. Não havia o furo típico de colocar moedas, mas sim uma espécie de círculo levemente afundado onde se encaixava a moeda de forma tosca. Mas tosco mesmo foi como eu me senti quando, depois de VÁRIAS tentativas, acabei desistindo da água, triste e indignado. De pronto fui atingido pela síndrome do brasileirismo, sentindo-me inferior, como um macaco que não consegue utilizar a ferramenta que o pesquisador lhe oferece. Foi para vencer esse fracasso que tentei novamente, numa máquina exatamente igual do segundo andar. Em poucos segundos, descobri que o problema estava na primeira máquina, danificada, e não na minha falta de experiência tecnológica.

Ao contrário do metrô, cuja didática pode ser compreendida até por uma criança, o trem intermunicipal não é tão simples. Precisei insistir para entender que era preciso pegar dois trens, e que o primeiro não aparecia no visor com o mesmo nome que dizia no bilhete, e ainda que este estava atrasadíssimo. A verdade é que nós só conseguimos fazer isso porque um senhor viu minha cara de "o que é um trem?" e resolveu me ajudar aleatoriamente, por vários minutos, até nos colocar dentro da via que levava ao trem. Há gente boa no mundo todo, mas os espanhois definitivamente se destacam, talvez pelo seu jeito quase-latino de ser.
A partir de então, colamos numa mulher que disse ir a Ávila. Ela estava preocupada com o atraso do primeiro trem, dizendo que normalmente o segundo está esperando os passageiros deste no último ponto. Mas quando ela foi confirmar, disseram-na que não tinham certeza por causa do atraso, e por isso ela decidiu descer várias estações antes, nos aconselhando a fazer o mesmo. No entanto, assim que descemos atrás dela, ela tentou voltar num pulo só para dentro do trem ao ser informada que o de Ávila estaria sim nos esperando, mas a porta havia fechado com nós três do lado de fora, numa estação estranha no meio da zona rural espanhola.
Foi aí que o Homem Trem apareceu para nos socorrer. Tratou-se de um fiscal, ou qualquer coisa do tipo, que notou nosso arrependimento de boas-vindas e fez uma porção de sinais absolutamente estranhos ao lado da porta do trem quilométrico, fechando e abrindo os braços, de modo que, milagrosamente, a porta se abriu. Entramos de novo como se fosse uma brincadeira infantil.

O outro trem nos deixou em Ávila, uma cidade bonita e pequena, com uma parte histórica riquíssima. Assim que chegamos, vimos um carro de autoescola estacionando de um jeito bem peculiar (manobrou habilmente com duas rodas em cima da calçada). Eu já estava comentando, porém, o quanto a cidade deixava a desejar, até eu conseguir um mapa e entender que não se tratava de uma muralha, mas sim de quatro muralhas delimitando a parte medieval, a Ávila antiga, do tempo de Sta. Teresa, ou ainda séculos antes: do feudalismo, enfim. Quando eu descobri que 'passar pelos portões' significava 'sair do mundo contemporâneo e entrar na Idade Média em apenas alguns passos', a coisa começou a ficar muito interessante.
Não tem muito como descrever a sensação que é ver na tua frente algo que existe há mais tempo do que o conhecimento do teu próprio continente. As fotos infelizmente não possuem o poder de transmitir a energia histórica dos locais; elas podem te mostrar o desfecho de uma sequência de fatos incríveis, mas é o contato físico, próximo e pessoal que te dará a noção em proporções reais de como a história deste planeta é impressionante.

Quando eu notei que precisava de um mapa (após diversas consultas à pequena população, sendo que a maioria não sabia quase nada), tive a sorte de ver dois franceses passando por nós com um. Aproveitei para proferir minhas primeiras palavras na língua. Disseram-me para ir até o final de uma rua e contornar a catedral, de forma que acharia um local com guia turístico e mapas. Lá me fui.

Lá chegando, tive que descer três andares para que achasse uma alma viva. E bem viva - a linda espanhola me foi muito útil, com sua paciência e simpatia, dando-me um mapa muito completo e várias dicas. Peguei um elevador e saí entre o lado externo da parte medieval e as montanhas comunais (creio), que hoje já não possuem árvore alguma.

Foi aí, no fim da tarde, que meu pé começou a doer.
Caminhar a manhã e a tarde inteiras num frio de quatro graus com uma bota apertada no dorso não faz bem, e quando finalmente chegamos ao hostel, eu mal conseguia caminhar. Mas agora estou melhor, não há de ser grave.

Isso explica o motivo de me verem tão ativo aqui no blog e na internet. Eu estou tendo muito tempo livre para postar fotos e relatos aqui em Madrid; contudo, espero que isso mude quando cruzarmos a fronteira.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sábado à Noite e Domingo em Madri

Ontem à noite fui no que, se não me engano, considero a melhor festa de desconhecidos da minha vida. Ao longo da madrugada, fiz anotações no celular para que o álcool e minha memória lamentável não prejudicasse as lembranças magníficas que hoje postarei.

Ainda na tarde de ontem, fomos almoçar num restaurante com um aquário muito bonito, no qual moravam mais ou menos quatro lagostas aparentemente em paz. É um bicho muito estranho, mas bonito, e me era compreensível o fato de manterem-nas enfeitando o local. Mais tarde descobri que eles vão comê-las.
Quando fui ao banheiro deste restaurante, um cabeludo (raspado em cima) muito estranho surgiu do nada, tendo-o visto através do espelho. Alguns segundos depois, a luz apagou sozinha. Para evitar ter o mesmo destino das lagostas, virei-me de punhos erguidos até ouvir seus passos na direção oposta, tendo acendido a luz de novo. Respirando aliviado, seguimos o dia.

À noite, após a última postagem, conheci um portoalegrense muito gente fina. Faz engenharia ambiental na UFRGS, intercambista na França, férias em Madri. Mas tinha namorada. Não, não virei gay; o comentário se deu porque achava que teria companhia para entrar na festa Kapital, uma das mais famosinhas daqui. Apesar de ele não pilhar, demos umas voltas e acabamos lá em frente à boate, na qual entrei, e ele seguiu para o hostel. Pouco antes disso, um mendigo veio nos pedir dinheiro (sim!), tendo eu lhe dito que não o compreendia. Até aí, nada de diferente à nossa capital gaudéria... até que ele, no lugar de me mandar a algum lugar, abriu a boca e vagarosamente disse as seguintes palavras: "fifty cents, please". Pois é, amigos; tratava-se de um mendigo bilingue. A essa altura, eu já estava levemente alegre devido a umas cervejas com limão que bebemos no hostel antes, mas anotei na mesma hora para que essa cena jamais saia da minha memória.

A entrada na boate não é lá das mais baratas, mas... vale a pena demais. Assim que entrei, achei a fila gigantesca para guardar o casaco e duas gurias vieram conversar comigo. Na hora que perceberam meu sotaque, perguntar de onde era, e quando eu disse minha honrosa nacionalidade, já esperando seus rostos virarem ou um "ah, dale..." desapontado... elas berraram de alegria dizendo "BRASILLL!!!", e ambas começaram a cantar em alta voz, pasmem: "Nôssa, nôssa, assí bocê mi mataaa, ai si eo te pego, ai ai...!".
A minha reação foi a mesma que a de vocês. Isso me lembra quando, junto do Pablito e do Lucas, no Uruguai, tocou um clássico da música popular brasileira numa boate: "Minha Eguinha Pocotó". Conforme essas duas situções me provaram, na mesma hora criei uma teoria: as músicas que nos envergonham no Brasil são as mesmas que nos orgulham no exterior. Quando essa aberração sertaneja tocou no fim da festa, eu era o fã número um e agradeci aos céus por todas as universidades que há no sertão. Pouco mais tarde, já sem casaco, enquanto explorava os cinco ou seis andares gigantescos da casa labiríntica, um gay apertou meu braço e falou "pode tirar uma foto?". Eu entendi o mesmo que vocês, mas não: ELE tirou a foto, de mim abraçado com suas duas amigas. Foi exatamente aí que entendi que a noite prometia.

Quando subi no que achava ser o último andar (mas depois percebi que havia mais dois ou três), olhei o palco principal lá embaixo. Havia uns 4 velhos, alguns de muleta, outros de andador... e quando a música começou a bombar, eles jogaram os artefatos para o lado e começaram a dançar break loucamente, dando mortais, piruetas e essas coisas que nos fazem sentir fracos. Claramente, eram jovens fantasiados.

Peguei o drink a que tinha direito - uma tequila. "¿Quieres limón?". Respondi que sim, e então ela me deu um refri de limão. Estranho, mas interessante. Quando vi uma mulher exibindo os seios semi-nus e dançando no palco, resolvi descer. Também havia uns magrões mais fortes que Chuck Norris rebolando lá em cima, mas isso não atrapalhou em nada a visão daquela deusa madrileña. "Cara, isso é uma AULA de anatomia!", pensei e registrei no meu celular ao ver as veias safena e basílica naquele corpo semi-nu.
A partir daí, aparentemente houve um hiato alcoólico gigantesco que me proibiu de fixar as memórias no celular; porém, bem mais tarde, resolvi comprar um chiclé. Só havia no último andar, e foi por isso que descobri a existência dos outros três pisos, cada um mais estranho que outro, com diversos compartimentos em várias cores, luzes, estilos... coisa de louco. Quando comprei o chiclete, resolvi ir ao banheiro, mas antes ajudei uma espanhola bêbada a subir a escada. O banheiro, genialmente, é misto. Na fila, já dentro, ajudei uma outra espanhola bêbada a vomitar. Neste momento, registrei as seguintes palavras: "Gente mais louca que no beco, berrando e batendo na porta". Do nada, o bolo de pessoas perto da porta onde eu estava se abriu. "Pronto, é briga", pensei, até que vi duas espanholas dançando algo que julguei ser flamenco, muito alegres, enquanto os caras aplaudiam no ritmo. Genial, pensei.

No troco da cerveja (que lá dentro custa 8 euros, o maior roubo da história alcoólica), me deram uma nota de 10 euros partida pela metade. Sacanagem pura. Não aceitaram em lugar nenhum, obviamente...
Falando sobre isso com um espanhol meio burro (que não falava quase nada de inglês), quando agradeci algo no final, ele me respondeu confiante: "of nothing!". O mendigo o deixou no chinelo.
A cada meia hora, um barulho de tiro de canhão ecoava pelo prédio enquanto o salão era coberto de gelo seco. Mais tarde, até o final, sentei com um grupo de espanhóis gente finíssima (dois caras e... umas seis gurias). Esse foi o grande momento da noite, mas cesso por aqui meu relato.

Hoje, após uma ressaca fenomenal, fomos a alguns pontos turísticos de Madri. El Paseo del Prado é magnífico, tendo um museu perfeito! O Museo del Prado contém infinitas obras, tanto quadros quanto esculturas e até algumas mesas, tudo da idade média (1400 em diante), tendo encontrado algumas peças de bem antes (1100 e, acreditem, uma escultura de 20d.C.!!! O barbudo dos milagres ainda era vivo!). Apesar dos avisos de "não toque", como um bom brasileiro, me fiz de bobo e toquei nessa escultura mais velha, o que me ligou ao passado como uma máquina do tempo. Também não se pode tirar fotos, mas dei um jeitinho, um dia posto.

Agora voltamos ao Hostel. Tem um bando de franceses falando muito rápido, de modo que não entendo praticamente nada. Eles falam alto demais também, e no momento estão tentando trovar umas brasileiras, que, como boas brasileiras, estão facilitando as coisas demasiadamente.

Madrid, 18-12-2011, 21:36h.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Primeiro dia em Madri

São 20:45h em Madri e eu acabo de descobrir que teremos companhia hoje. Quando voltamos ao hostel, havia um livro em inglês em cima de uma outra cama, e tão logo o vi, já comentei com a Liliane: "espero que seja uma striper americana". Ela riu, como de costume, e então acrescentei que, se fosse UM striper americano, eu a deixaria com ele e buscaria um outro quarto.

Mas enquanto arrumava minhas coisas, eis que ouvimos um barulho de porta se abrindo. Era ela, a simpática americana entrando sorridente em nosso quarto, já se apresentando e trocando algumas palavras de cortesia. Sorri por dentro e por fora, mas, após alguns dedos de prosa, vim-me aqui embaixo lhes postar antes de tomar um banho e iniciar a noite madrileña.

Hoje acordei absolutamente tarde (efeitos da última semana de provas, na qual dormi uma média de duas horas por noite). Por volta das 13h saímos, pegamos o metrô e fomos de Atocha até a estação Orcasitas, onde há uma loja esportista gigantesca (na qual as pessoas compram roupas de frio, basicamente). Tem de tudo, e tudo é muito mais barato do que se imagina: camisetas térmicas (a R$ 10,00 equivalentes), casacos dos mais variados tipos, mas o que mais me chamou a atenção foi uma bola de tênis. Ela era igual a todas as outras - verde, felpuda, pelúcia, marquinhas brancas... exceto por ter quase o tamanho de uma bola de futebol. Não me perguntem para que serve, mas imagino que seja... para jogar. Seja lá como.
Além disso, havia um skate com apenas duas rodas - como um patinete, mas sem guidão; também tinha raquetes de paddle (que são densas, compactas e com furos), de Badminton (incluindo a peteca de plástico, com a qual não tenho a menor habilidade, conforme puderam constatar as pessoas que passavam enquanto eu brincava de europeu esportista), uma espécie de manta de tecido, semelhante a uma manga de camiseta comprida de diâmetro bem maior. Tive que pedir ajuda para uma mulher, que me olhou com uma cara de "coitadinho, ele não sabe usar uma manta". Fez um gesto enquanto me dizia "basta ponerla". Realmente era fácil - dá para usar como manta, touca, véu, gorro, tapar o nariz, tapar as orelhas e ainda cobrir a testa como se fosse uma bandana. Claro que não sou tão criativo assim; isso tudo dizia na embalagem. E é óbvio que trouxe uma comigo.
O que não pude trazer, no entanto, foi a bola de tênis para gigantes. Mas vou superar isso.

Após sair de lá, finalmente compreendi como as pessoas vivem no frio. O fato é que, para se viver no frio, é preciso se proteger dele, coisa que não fiz na ida, nem ontem à noite. Não sei bem como acordei sem uma pneumonia, mas sei que isso não deverá mais acontecer. Comemos ainda perto da estação, que basicamente fica num bairro afastado. A atendente da mini-pizzaria demorou para me entender, até porque ela não queria me entender muito. Após nos servir, ficou conversando com um cara - ou melhor, ficou falando com um cara, pois este só a ouviu - em uma língua muito estranha. Ficamos tentando identificar qual era; no início eu achei que fosse russo, mas descartamos quando ouvi alguma palavra em latim. A Liliane achou que era catalão, mas eu achei que teríamos entendido mais coisas se fosse. Até que eu falei, meio brincando: "vai ver é romeno".
Na saída, perguntei. "Somos da Romênia", respondeu o cara enquanto a mulher respirava para falar mais.

Com bem menos frio, retornamos ao Hostel em Atocha.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Madrid

Acabamos de chegar em Madri. As pessoas são aparentemente mais simpáticas, e o aeroporto tem esteiras horizontais no meio que te incentivam a não caminhar. O taxista foi gente boa e nos informou que, no verão, a temperatura é tão absurda que já chegou a 46ºC. Essa noite, está algo como 7ºC e um vento absoluto.

Na entrada do hostel, o cara nos recebeu em português brasileiro. Não, ele não é brasileiro.
A verdade é que ele é de Portugal, mas, segundo o próprio, as novelas da globo modelaram seu sotaque. O quarto é simplesmente muito bom, limpo e com banho quente.

Ao meu lado, neste momento, muita gente loira conversa em inglês. Paradoxalmente, o sotaque deles passa longe do que vemos em filmes americanos.

São quase quatro horas agora, e vou achar algo para comer. Adiós!

Escala em Roma

Por volta de meia-noite saímos de Porto Alegre, chegando em São Paulo pouco depois. A empresa que nos vendeu a passagem de SP até Roma dizia que o segundo embarque era às 5:25h. Por falta do que fazer, fomos mais cedo fazer o check-in (bem mais cedo), e acabamos descobrindo que o horário certo era às 3h. Por muito pouco a eurotrip não terminou em São Paulo mesmo.

Mas tudo deu certo, e após dez horas de viagem (com direito a computador de bordo com games, um mapa interativo e um cobertorzinho de lã), chegamos na maravilhosa cidade de Roma, mas somente em escala, ou seja, ainda vos escrevo do aeroporto, enquanto a companhia brinca de mudar o portão do voo para Madri a cada meia hora. O aeroporto Fiumicino de Roma é bonito, muito bonito. Mas é absolutamente complicado se achar dentro dele. Quando descemos, não havia ninguém para nos indicar o caminho, e tampouco era este fácil de se deduzir, tendo dois corredores opostos com os mesmos dizeres em cima. Dei uma volta longa atrás do portão D5, mas só achava G. O mapa também era muito pouco claro. Vi uma moça da companhia que voamos passando muito rápido e passei a segui-la pedindo por informação. Notei que estava sendo ignorado e insisti em voz alta, até que ela, sem parar de andar, respondeu-me em um inglês com sotaque de Super Mário: "sinto muito, eu estou com pressa, não posso falar". Confesso que gostei de ser cortado ridiculamente por essa descendente de César. Voltei um pouco mais feliz ao ponto em que estávamos, até que percebemos, muito tempo depois, que os metrôs do corredor atrás de nós poderiam ser úteis.

Quando chegamos no portão D5, aguardamos até trocarem para D6, e aparentemente trocariam de novo, mas por alguma razão ainda apostamos no D6. Tem gente de todo lugar do mundo, mas o que mais me chamou a atenção foi uma família de brasileiros, cujos filhos ficavam brigando em voz alta e a mãe e o pai não faziam muito para intervir. A nacionalidade deve ser coincidência.

Para fazer uma ligação à mama mia, tentei trocar 10 euros numa loja de chocolates. A moça, contrariada, me deu uma nota de 5 e mais cinco moedas de 1 euro, balbuciando algumas palavras brabas em italiano, mas sinto que foi só por vício. Liguei para a minha mãe por 3 euros achando tudo muito barato, uma vez que a máquina não me pediu para inserir mais moedas. Ao fim de dois minutos, a ligação caiu para sempre. Foi nessa hora que realizei que havia gastado quase 10 reais, mas pelo menos comuniquei-me com o novo mundo.

As pessoas na Itália são sim meio estressadas, mas... ainda assim, mesmo dentro do aeroporto, essa bota tem o seu charme.