quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Berlim, A Neve e As Bolas Foras

Quando eu vesti a luva na estação de trem, senti pela primeira vez uma peça de roupa naturalmente quente. Durante a viagem, um velho alemão falava aos berros no telefone, o que irritou profundamente uma senhora pomposa, tendo ela pedido silêncio através do clássico “shh!”. Mas foi um “shh!” tão forte e constrangedor, que não só o velho calou-se, como todo o vagão. Ela falou duas palavras de explicação, voltou-se novamente ao marido e continuou conversando em voz baixa como se nada tivesse acontecido. A partir daí, fiquei com um medo considerável de falar alto perto de senhoras pomposas da Alemanha.
Segunda-feira, dia 23 de janeiro, noite. Chegamos em Berlim e fomos direto ao Hostel. Pediram-nos que nos sentássemos por alguns minutos antes de “conversarmos”. Não entendíamos por que ele era considerado um dos dez melhores hostels do mundo, se era tão pequeno. Até que o sujeito veio nos receber. O cara era simplesmente genial. Nos deu uma explicação de meia hora sobre TUDO que poderia ser dito acerca do hostel e dos serviços ao redor; eu não fazia ideia de como o atendimento poderia ser tão completo, e certamente isso nos fez formar toda uma imagem positiva da cidade. Na cozinha, mostrou-nos os lugares das coisas e após explicou que era preciso lavar e secar, “mas primeiro lavar, e só então secar”. Fomos ver o memorial ao muro de Berlim, sob o qual fica um cemitério da grande guerra.
No dia seguinte, acordei tarde devido ao tempo gasto observando os novos calouros no grupo. A Liliane havia saído e nos comunicamos por mensagem, tendo ela dito onde estava. Eu estava sentado na sala comum do hostel quando o cara engraçado chegou e simplesmente disse: “é melhor tu almoçares antes que tu morras”. Por recém ter acordado, assustei-me um pouco, mas logo entendi a brincadeira. Então esperei um pouco e fui olhar o mapa para achar a Porta de Brandenburguer; não a localizando, aproveitei que o sujeito estava passando perto de mim e falei “excuse me...”, tendo ele respondido na mesma hora “não!”, e continuou andando. Então, voltou: “OK, brincadeira. Como posso ajudar?”.
Perdi-me de uma forma radical, tendo demorado quase uma hora para chegar ao local que era muito próximo do hostel. Isso se deve ao fato de que o mapa é muito complicado e... ok, deve-se ao fato de eu costumar me perder mesmo, mas que o mapa é complicado, é! Não teve uma vez em que achei as ruas que ele disse. Enfim, encontrei uma médica espanhola simpaticíssima na rua com quem conversei um bom tempo até encontrar a direção.
                Quarta-feira fomos ao campo de concentração de Sachsenshausen. Foi muito interessante; vi os locais onde eles tomavam banho de manhã, a enfermaria, o local de pesquisas médicas, entre outros. Numa máquina dessas de comprar coisas, tentei comprar algo e a máquina me roubou 3 euros. Andei vários minutos até a entrada do campo e reclamei, tendo eles ligado para o fabricante e falado com ele por muito tempo (não entendi por quê). Desligando, o cara me deu 3 euros e mais um pacotinho de cookies. Nada que uma cara de indignado e uma conversa longa não resolva.
À noite, resolvi fazer um pubcrawl. Mas não qualquer pubcrawl: ele se chamava Anti-Pubcrawl. A ideia era andar pelos bares mais obscuros da cidade, onde os turistas só chegam se estiverem perdidos ou através desse evento. Foi na ida, esperando o metrô, que surgiu uma ideia musical maravilhosa, cujo início registro neste momento. Quando cheguei ao bar de saída, já conheci dois brasileiros (eles estão por toda a parte), um chileno e um holandês muito gente boa. Também tinha uma australiana totalmente louca e mais uns vinte estrangeiros que não sei de onde eram. Um dos brasileiros era uma figura peculiar: o cara era um mineiro tão delicado que parecia muito gay (até começar a falar de mulher). Ele estava viajando há muito tempo e não sabia uma palavra de inglês, mas jurava falar espanhol. Não demorou muito para que eu percebesse que seu espanhol é igual ao meu tcheco. Ele chegava para qualquer estrangeiro e dizia bem devagar, palavra por palavra, com aquele sotaque mineiro exageradamente meigo e um sorriso exorbitante na cara:
- Oi, tipo, olha só, eu não english. Falas espanhol?
E normalmente a pessoa respondia “hey... no, sorry”.
- Ok, você... fala english. Eu... respondo espanhol, ok?
Numa dessas, eu estava ao seu lado, tendo ele olhado para mim e se justificado: “porque eu até entendo um pouquin, véi!”. Eu achei que o caso não podia ser tão grave e que eu estava subestimando o rapaz, até que ele me veio com essa:
- Olha só, como é que é “de onde você vem” em inglês? Porque eu vivo perguntando pras pessoas mas acho que tá errado, porque elas nunca entendem, e eu tenho que repetir devagar!
Eu tentei segurar, mas fiz a pergunta.
- Como tu acha que é?
- Assim, eu normalmente digo “what you are country”, mas acho que não tá bem certo, né?
Eu não consegui não rir, mas ele não se ofendeu. Incrédulo, expliquei o clássico “where are you from” (aprendido antes da sétima-série de qualquer colégio), palavra por palavra para o sujeito, sem esperança de que ele entendesse. Fomos a um bar obscuro no qual a atração principal era uma mesa de ping pong. Não se jogava como normalmente, porém – era quase um ritual. Tu alugavas tua raquete (dinheiro devolvido após uso) e entrava numa fila que circulava a mesa. As regras (que eu não sabia) eram as seguintes: as pessoas jogavam nos dois lados, sempre circulando a mesa, batendo na bolinha o mais levemente possível, e quem errasse ia saindo, até que só sobrava os dois finalistas – que então disputavam uma partida normal. Eu achava, porém, que bastava entrar no círculo e ir jogando. Não só continuei após errar (o que ninguém percebeu), como, quando a bola veio alta e lenta para mim, eu a isolei o mais forte que consegui, tornando impossível para o outro jogador.
O bar todo olhou para mim.
O sentimento que tive era o de que iria ser esfaqueado por todos os cantos; então, olhei com uma cara de culpado, sorrindo timidamente, e pedi desculpas em voz alta, indo atrás da bolinha. A porcaria da bolinha foi tão longe que ninguém achou, tendo demorado vários minutos para que fosse substituída. Apesar disso, o meu adversário do momento saíra do círculo, e meus companheiros do pubcrawl me obrigaram a voltar ao círculo, dizendo que eu era “o candidato a vencedor mais polêmico”. Levemente envergonhado, perdi logo na sequência, saindo de fininho para que me esquecessem logo. Tudo voltou ao normal, e eu continuei vivo.
Logo após, fomos para um outro club onde completei o ciclo de furos da noite. Ainda me arrepio de lembrar do maior furo da minha existência. Neste club havia um cadeirante que, do nada, ao iniciar uma música, levantou-se e começou a dançar enlouquecidamente. Todo mundo gritava “MILAGRE! MILAGRE!”. Minutos após, outro cara se sentou lá e levantou de novo. “MILAGRE!”. Nós concluímos (juntos, juro) que a cadeira era de brincadeira – uma atração especial daquele club, como a mesa era do outro, feita para que as pessoas se sentassem e levantassem após. Quando passados alguns minutos, depois de alguns goles de Jagermeister (bebida muito interessante, por sinal), vimos outro cara sentado na cadeira de rodas. Não demorou para que eu tivesse a brilhante ideia de “salvá-lo”.
- E aí cara, eu vim te salvar. Levanta daí, AGORA!
Ele olhou para mim meio sem entender e respondeu:
- Cara, eu não posso.
                Uma lágrima quase escorreu do meu rosto.
                Depois fomos no último club, um lugar sinistro perto do qual nos tentaram vender cocaína e outras drogas que sequer entendi quais eram. Lá dentro, um traficante veio conversar comigo, perguntando como eu estava, de onde era, tentando eu desviar sem demonstrar muito medo, mas na primeira pergunta que fiz... “hey, don’t ask me ANYTHING”.
                Eu levantei daquele lugar, despedi-me dos brasileiros, do chileno e do holandês e peguei um táxi para o hostel, temendo verdadeiramente pela minha vida. Eu não sei bem como, mas conversei com o taxista em alemão por uns 15min, chegando a responder de onde era, o que fazia, há quanto tempo estudava e que de fato considerava interessante a ideia de um dia vir estudar por aqui. Eu juro que não sei como isso aconteceu, mas nos comunicamos por horas de alguma forma milagrosa... (tá, chega de falar em milagre).
                No dia seguinte, meus pés estavam machucados pela noite anterior. Tive de ficar no hostel. Na sexta-feira fomos ao zoológico. Bem recomendado; lembrou-me muito o jogo Zoo Tycon, com terrenos adaptados a cada animal, uma ótima infraestrutura e tudo bem sinalizado (inclusive, entre as placas, havia uma apontando para o zoológico de Los Angeles, dando ainda a quilometragem em milhares). Há uma sala de insetos na qual as formigas disfrutam de canos transparentes que percorrem todo o teto. É o zoológico mais antigo da Europa, datando do século XIX. Vale a pena conferir.
Àquela noite, a sala comum do hostel parecia uma taverna, estilo Álvares de Azevedo. Havia um chinês, um tcheco, duas australianas, um australiano, um casal gay de italianos, uma espanhola e um francês com um cabelo emblemático. Bebemos muitas cervejas, todos, enquanto conversávamos. Quando acabaram, fomos buscar mais, eu e o chinês, uma figura simpática e magricela que me explicou dezenas de coisas sobre seu país. Disse que fala mandarim e cantonês, um dos idiomas nacionais mais falados. Explicou-me a diferença entre o “sim”e “não” em mandarim comparados a outras línguas – quem quiser saber, pergunte-me pessoalmente –, deu-me uma aula de escrita em mandarim (o que me fez perceber que há, sim, uma lógica!), ensinou-me um pouco sobre sua política e seus políticos e, após só restarmos os dois na sala comum, contou-me que era alérgico a álcool. Vi o sujeito ficar inchado e aumentar a respiração. Verifiquei seus batimentos, que estavam muito acelerados. Enquanto eu procurava números de ambulância sem dizer, ele garantiu que ia ficar bem, que já tinha passado por isso antes, tendo eu o xingado por não me dizer nada de antemão. Esvaziei a garrafa d’água que tinha comprado, tendo ele tomado tudo; fiz ele jogar o café que tinha preparado fora; ofereci um tijolo de nutella que havia comprado e, não satisfeito, fiquei acordado quase duas horas até que os batimentos do oriental voltassem ao normal. Já estava dormindo sentado quando percebi que ele não iria morrer aquela noite. Ou ao menos não por causa daquilo.
No dia seguinte, sábado, 28 de janeiro, fomos a Potsdam ver o palácio. Totalmente sonolento, tentei dormir no metrô, mas uma voz feminina esbravecida começou a berrar subitamente. Apavorado, observei a alemã gritar algo incompreensível para todos, pensando “a quem ela está xingando a essa hora?!”, mas, quando ela finalmente parou de xingar... quase todos aplaudiram vigorosamente. Só então percebi que era um poema. Não sei bem por quê, mas dei uma moedinha para ela também.
Quando chegamos em Potsdam, nos perdemos feio. Ao achar o Palácio, horas depois, já não dava tempo de subir nele. No caminho, vi um lago congelado pela primeira vez; tentei quebrar o gelo de tudo que é forma, jogando pedras enormes, mas nada. No entanto, a Liliane não permitiu que eu caminhasse em cima dele. Frustrado, continuei tacando pedras sem sucesso. Outros brasileiros que passavam por lá chegaram a arriscar, tendo partido o gelo, e, por pouco, não ficaram por ali mesmo. A neve cobriu o chão em pouco tempo, e o cenário mudou radicalmente.
Pela noite, gravei um vídeo com o chinês para o trote dos bixos na matrícula. Nele, o jovem oriental dizia “Acetilcolina, eu estudei e passei na medicina!”. Nos despedimos, pois eu partiria na manhã seguinte a Praga; depois disso, fui ao banheiro e logo entrei no quarto, sendo que, bem nessa hora (na madrugada escura), quando abri a porta do quarto, o chinês estava parado de pé de frente a ela, dentro do quarto. Eu dei um pulo para trás. Por algum motivo, a cena me lembrou do filme “O Grito”. Ele começou a rir muito, e fez menção de que iria checar meus batimentos, como se a história da noite anterior tivesse se invertido. Rimos bastante, despedimo-nos novamente e, pois, dormi. O chão da cidade adormecera coberto pela neve branca e fina – cena de beleza ímpar e exuberante.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Hamburg - O Encontro de Uma Década

Viajamos para Hamburg no dia 20, chegando lá por volta das oito da noite. A gente demorou para se arrumar e descer do trem, o que causou um dos maiores sustos da viagem até então: eu consegui descer, mas quando a Liliane estava quase descendo – eu já me preparava para descer sua bagagem – eles fecharam a porta do trem comigo do lado de fora e ela do lado de dentro. Pelo vidro, nos olhamos meio apavorados. Sabíamos que nossos celulares não estavam funcionando bem na Alemanha; mas havíamos já combinado que, em situações de imprevistos, deveríamos agir o mais logicamente possível. Assim sendo, o trem partiu, tendo eu avisado uma funcionária que estava do lado de dentro mais adiante. Ela disse para eu procurar o serviço de auxílio. Eu ri de nervoso, sem saber bem o que fazer, o que era um serviço de auxílio e se eles entenderiam inglês, considerando que era urgente demais. Achei logo uma senhora que auxiliava os passageiros e expus a situação claramente. Ela disse que a próxima parada seria em três minutos e que então ela poderia voltar. O problema é se ela saberia disso também.
Do lado de dentro do trêm, a Liliane procurava se comunicar com várias pessoas, alguns que falavam inglês e outros que não. Afinal, acabaram ajudando-a a voltar até a estação central de Hamburg, onde eu a esperava.
O encontro com a Katrin foi engraçado. Eu estava preocupadíssimo com essa história de perder a Liliane de vista sem saber se ela conseguiria voltar, se deveríamos nos encontrar no hostel ou na estação. Imaginei que o mais lógico seria esperar na estação. Por um milagre, a ligação completou e conseguimos nos falar por alguns segundos, o suficiente para dizer que ela já estava em outro trem. Foi só então que fui procurar a Katrin.
Passamos um pelo outro sem nos reconhecermos algumas vezes. Mas quando vi que aqueles cabelos absurdamente loiros estavam andando em círculos, achei melhor tentar a sorte. Fui atrás dela, mas ela subiu uma escada rolante. Alcancei-a até um degrau abaixo, e ela olhou para trás. Estava na cara que éramos nós, de fato. As bochechas brancas da alemãzinha estavam mais vermelhas que molho de tomate com pimentão. Expliquei o incidente do trem e esperamos lá até que a Liliane nos encontrasse. Ela foi para casa, pois, e nós para o Hostel. Este hostel era definitivamente bem capitalista. Tudo lá era pago, até o café-da-manhã; isso fez com que a qualidade dele fosse levemente acima da maioria.
Pela noite, combinei de me encontrar com a Katrin na estação central. De lá, fomos até uma área da cidade onde havia bares portugueses. Ela disse que seu pai havia sugerido isso para que eu me sentisse mais em casa. Eu ri, simpaticamente, muito embora estivesse um pouco contrariado; ora, eu sou brasileiro, não português. No entanto, quando chegamos lá e eu pude ler entre as placas cheias de tremas e palavras enormes os dizeres “Casa do Pescador”, “Peixe Grande”, “Recanto da Harmonia”, entre outras coisas do gênero… senti-me como se estivesse cruzando a fronteira Brasil-Alemanha. Os cardápios eram todos em português! Foi totalmente interessante, apesar de que, por algum motivo, fomos parar num outro bar não português em que um bando de alemão assistia um jogo do Bayer de Munique aos berros num telão. Conversamos muito e bebi muita cerveja.
A cerveja na Alemanha não é só magnífica: é muito barata. Eu não consegui parar de tomar. É como se fosse um suco; tem de tudo que é tipo, gosto, cor, força, textura, teor alcoólico. Eu provei dezenas... até anotei algumas, para caso alguém queira se arriscar; entretanto, não sei dizer a ordem de preferência entre elas, já que só anotei os nomes. Segue abaixo algumas marcas que degustei ao longo de toda o território alemão:
Bitburguer Pilsen; Paulaner Hefe Weisbier Naturbur; Weizen Dunkel; Beck’s Gold; Astra; Jever Lime; Jever; Holsten; Einbecker Ur-Bock; Berliner Bürguerbrau; Tannen Zapfle Rothaus Pils; Berliner Kindl Bock Hell; Chiemseer Hell; Hugustinerbrau München Lagerbier Hell; Efes Pilsener.
P.S.: algumas eu não anotei.
P.S.2: se forem escolher só uma, abusem da Paulaner de trigo. Vem meio litro por um preço muito barato (chega a assustar) e tem um sabor especialíssimo.
Depois de algumas horas botando a conversa em dia – pela primeira vez em 10 anos pessoalmente – resolvemos voltar. Fomos até o hostel, onde ela esperou pelo pai na frente. Conheci o simpático velho alemão lá mesmo, vindo com seu carro luxuoso, apesar de serem de uma família de classe média para os padrões alemães. Deu-me as boas-vindas com aquele jeito friamente educado, clássico dos germânicos e com o qual já estamos nós, gaúchos, bem acostumados.
No dia seguinte, encontramo-la na estação para fazer um BusTour. Eu já havia percebido que, sempre que chegávamos à estação, uma música clássica muito agradável estava tocando, normalmente a mesma e, peculiarmente, só do lado de fora.
- Isso é uma maneira – disse-me a Katrin – que a prefeitura achou para afastar os moradores de rua que dormiam na estação, causando uma má imagem aos estrangeiros que aqui chegavam. Eles acreditam que, tocando as mesmas músicas clássicas repetidamente, eles iriam surtar e procurar outro lugar para se abrigar.
Eu olhei ao meu redor. Nem foi preciso perguntar se funcionou – não vi um mendigo sequer, tanto de dia quanto de noite. Ela me disse que funcionou a médio prazo, bem melhor do que se calculava. E a dúvida que me corroía era: será que eu não iria aguentar também? Porque a vontade que eu tinha era de passar o dia ali embaixo, lendo um livro e escutando aquelas obras que encantam qualquer pessoa a quem lhe agrade uma velha música bem feita.
O clima não ajudou durante nossa estadia em Hamburg, tendo chovido a mais ou menos dois ou três graus positivos todos os dias e noites. Talvez seja por isso que o BusTour tenha sido um tanto falhado. Pela noite, fomos ao Red Light District de Hamburg. Não tem muito a ver com o de Amsterdã, porém também há um conteúdo sexual explícito, conquanto sem as clássicas vitrines de prostitutas. Aparentemente, a vida noturna da cidade é lá. Entramos num barzinho onde tomei um litro de cerveja de trigo, e me saiu tão barato quanto se eu comprasse água no Brasil. Não satisfeito, comi uma tal de Bratkartoffeln, que se resume em batatinhas assadas ou cozidas (não sou muito bom em distinguir) cortadas em pequenos pedaços, misturados com pedacinhos de bacon frito, cebola frita e outros vegetais que não sei o nome. Foi a melhor refeição que fiz no país, e uma das melhores da Europa. Ao retornar para o Hostel, resolvi provar a cerveja Aster, de Hamburg, tendo ido para rua, onde fumava um russo que imigrou para a cidade a fim de buscar emprego. Arrependi-me de ter ido para frente do hostel no momento em que ele veio falar comigo em alemão. Já me defendi na hora, dizendo que eu não falo alemão. Mas ele insistiu, dizendo que se eu falava que não sabia falar alemão, eu sabia no mínimo um pouco, tendo seguido o diálogo mais obscuro da minha vida, o qual me fez sentir um Neandertal em processo de aprendizagem de comunicação. Eu entendi que ele era russo, que não falava inglês, e ele entendeu que eu era brasileiro e que não falava alemão. Logo que isso ocorreu, ele sorriu orgulhoso e proferiu as seguintes palavras: “F*da car*lho trabalho pra burro!”. Depois de rir alto, perguntei como ele tinha aprendido isso; ele explicou que trabalha junto de um português que considera seu irmão, e que, quando este fica irritado, sai esbravejando essas palavras. De repente, começou a me convidar para ir a um bordel. Eu falei que não, obrigado, que ficaria ali no hostel, e ele começou a insistir, apontando para a rua e desenhando um corpo feminino com as mãos. Eu já estava cheio quando um táxi apareceu subitamente, e ele entrou neste, apressado, sem dizer uma palavra. “Gente estranha”, pensei. Talvez por isso se chamem “estrangeiros”.
O dia 22 de janeiro foi nublado e um pouco chuvoso. Encontramo-nos os três novamente na estação e, de lá, fomos fazer um passeio de barco – um BoatTur. Nada muito especial, mas mais confortável que o Bus. O divertido mesmo é que fiquei ensinando à Katrin as frases em português que ela deveria dizer no vídeo que eu gravei para o trote dos calouros. Até o final daquela noite ela deveria aprender a seguinte frase: “bixo não é gente, bixo não é nada, bixo toma trote, veterano dá risada”. Depois de inúmeras de tentativas repetidas e várias horas (tendo ela levado para casa a frase anotada para decorar até a noite), nos encontramos pelas 20h e fomos a um bar no centro. Comemos o mesmo Bratkartoffeln, porém bem menos saboroso que o primeiro. Depois de algumas cervejas, soltou-se e gravou o vídeo. Gravamos várias vezes até acertar, e ficou muito legal. Num futuro distante, postá-lo-ei aqui.
Ela me deu um presente de despedida, um livro com fotos de Hamburg e uma dedicação muito bonita. “Para que tu vejas como é a cidade com o clima bom!”, explicou preocupada. De fato a cidade não é algo que recomendo a turistas, já que Berlim é muito mais encantadora; no entanto, eu só havia ido lá mesmo para conhecê-la, missão que foi cumprida com vigor.
O pai dela nos buscou numa rua próxima e me levou até o hostel. Lá, despediu-se de mim com o mesmo jeito típico, mas extremamente polido e educado. Desejaram-me uma boa continuação de viagem e que mais encontros desses fossem executados ao longo dos anos que nos seguirão. 
Vê-la entrando no carro com seus cabelos louros e sua pele pálida, ouvir o som da porta do carro se fechando e sentir o frio e o vento carregando a chuva gélida até meu rosto fez eu realizar que aquilo era verdade. Refleti sobre quantas pessoas têm a chance de conhecer um amigo que mora em outro continente, e, antes que me emocionasse muito, entrei no hostel.

No elevador, um alemão tentou falar comigo. Eu repeti que não sei falar alemão, mas, consoante já esperava, o cara insistiu. O que há de errado com essa gente? Eu não estou sendo humilde quando digo que não falo sua língua – eu realmente não falo. O problema maior é que eles se frustram quando eu paro de responder. O fato é que, com o tempo, as poucas palavras que entendi não fazem mais sentido no contexto, e tudo fica muito confuso e cansativo… enfim, ele falou sozinho por alguns andares. Ainda assim, disse-lhe o formal adeus alemão quando desci, tendo-me respondido com entusiasmo, como se tivéssemos conversado por todo o trajeto.
Na manhã seguinte, a frustração da Katrin por não ter nevado em Hamburg enquanto eu estive lá – uma vez que, desde que éramos crianças, eu a dizia que nunca havia visto nevar – caiu céu abaixo, quando senti os primeiros flocos gelados descerem das nuvens até meu rosto.

Depois de 10 anos do episódio em que lhe contei jamais ter visto neve, tendo ela me dito “vem a Hamburg um dia e eu te mostro!”… a ironia fez-me ver neve pela primeira vez na vida justamente em Hamburg.

E foi sob esse episódio nostálgico que rumamos a Berlim.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Chegada na Alemanha (Trier - Colônia - Bonn)

Ao chegar em Trier, um tio de bigode extravagante veio ter conosco em alemão. Senti-me um inútil pela primeira vez na viagem. Não sabia ainda, mas passaria por momentos parecidos várias vezes, até conseguir pegar a lógica básica da “troca de ideias” desse povo germânico. Descemos do trem em Trier, dia 18, e fomos direto à Porta Negra – uma construção pouco mais recente que o nascimento do cabeludo milagroso. Pouco antes, vi uma loja de pianos. Nunca havia visto nada parecido; eram dezenas de pianos, uns valendo mais que apartamentos aí. Quando a velhinha disse que eu poderia me sentir à vontade e tocar se quisesse, eu me senti num parque de diversões. Toquei mais de uma hora em todos os pianos que consegui. Foi revigorante. Já havia tocado em três pianos europeus antes disso: um no hostel em Toulouse, um na biblioteca pública de Amsterdã e outro num restaurante de Bruges, onde fui convidado por um músico italiano que lá trabalhava (momento brilhante que esqueci de postar antes). Mas esses pianos alemães lavaram minha alma.
Não dormimos em Trier, afinal não há muito o que fazer lá. Logo viajamos a Colônia e, assim que chegamos, fui pedir ajuda para o local de informações da estação. Queríamos adiantar a compra dos bilhetes de trem para Hamburg, na sexta-feira, dia 20. Então, naturalmente, pensei “vou ser educado e perguntar, em alemão, se ela fala inglês”. Lembrando que meu alemão é “a la homem das cavernas”. A conversa que se seguiu, se traduzida, soaria mais ou menos assim:
- Boa noite! – disse eu, empolgado.
- Bom DIA. – respondeu a velhinha alemã com cara de contrariada.
- Bom dia. Eu não falo alemão muito bem, você fala inglês?
- Não.
- Hã... não?
- Não, só alemão. Tente em alemão mesmo.
Nessa hora eu gelei de cima a baixo, mas tentei manter a calma e respirei fundo:
- Ok, eu... quero... ir... Hamburg.
- Ah, ok, quer ir a Hamburg hoje?
- Sim... NÃO! Hoje não, ontem! Não, ontem NÃO! Amanhã... desculpa, UM DIA!
- Certo, você quer ir para Hamburg, mas não hoje...
- Sim!
- Você precisa comprar os bilhetes.
Então me concentrei muito e formulei a brilhante frase:
- Quem... posso... comprar?
- Desculpe?
- Quem eu posso comprar?
- Quem?
- É, quem eu posso comprar os bilhetes?
A confusão que eu fiz é até explicável: em inglês, os pronomes “quem” e “onde” são respectivamente traduzidos por “who” e “where”. Em alemão, por algum motivo diabólico, houve uma inversão, sendo respectivamente traduzidos por “wer” e “wo”. Eu queria perguntar “onde posso comprar?”, mas, pensando em inglês, disse “wer kann ich kaufen?”, o que, traduzindo, soaria como “quem posso eu comprar”. É óbvio que ela entendeu, mas queria me sacanear – fato percebido quando ela não conteve o sorrisinho no canto do rosto. Um outro atendente que estava só observando e rindo achou que a tortura tinha sido bastante e resolveu se intrometer:
- Ok, você pode falar inglês com a gente. Era só brincadeira.
“Vou levar esses arianos pro Zorra Total” – pensei meio indignado. Mas no fim das contas, acho que faria o mesmo; deve ter sido engraçado ver um brasileiro tentando “comprar alguém” na estação de trem.
Saindo da estação, a visão da catedral gigantesca e estilizada logo à esquerda me fez sentir um pecador. Fomos pegar um táxi com as bagagens até o hostel, como de costume. No entanto, ao entrarmos no carro, depois de organizarmos todas as mochilas e malas no porta-malas, o motorista perguntou onde íamos...
- Como assim?! Essa rua é aqui atrás! Não precisa de táxi para ir lá! – e, virando-se para outro taxista, continuou – eles querem ir na rua de trás!
Um pouco mais aborrecido com esses colonos, fomos a pé até a rua de trás.
No dia seguinte fomos de Colônia  a Bonn, uma cidadezinha próxima dali onde simplesmente Beethoven nascera. Fomos lá especialmente para isso e visitamos a sua casa. Não preciso dizer o que foi aquilo. A Liliane chegou a chorar. Os instrumentos que ele tocara, os artefatos que utilizara quando descobriu sua surdez, as cartas de negação e de infelicidade conforme ia piorando sua audição... O trecho mais marcante foi o que ele escrevera ao seu irmão, dizendo a sua angústia quando alguém ouvia de longe o som de uma flauta que ele não escutava, ou quando chamavam seu nome e ele não ouvia. Ele demonstrava vergonha de sua condição e uma inconformidade absoluta; o áudio-guia fornecido para nós mostrava trechos de suas canções seguidas de como ele as escutava ao longo dos anos. Aos quase quarenta, já eram ruídos ínfimos e confusos demais. Ainda assim, ele seguia compondo. Grande Beethoven; eu toquei no cravo que ele tocava durante a infância. Por sorte ninguém me viu, senão creio que seria duramente advertido, ou quiçá expulso. Talvez deportado. Ok, chega de drama.
No dia seguinte, 20 de janeiro, visitamos a Catedral e, após, viajamos para Hamburg, sobretudo para que eu conhecesse a minha amiga virtual, Katrin, a qual conheci jogando xadrez online com uns 12 anos de idade, há mais ou menos 10 anos atrás, e com quem vim praticando inglês desde minha infância até os tempos recentes. O combinado é que eu a encontraria na estação central, já que chegaríamos mais ou menos ao mesmo tempo (ela vinha de Kiel, uma cidade mais ao norte). É claro que um imprevisto avassalador aconteceu, mas isso é assunto do próximo post. Auf Wiedersehen!