Quando eu vesti a luva na estação de trem, senti pela primeira vez uma peça de roupa naturalmente quente. Durante a viagem, um velho alemão falava aos berros no telefone, o que irritou profundamente uma senhora pomposa, tendo ela pedido silêncio através do clássico “shh!”. Mas foi um “shh!” tão forte e constrangedor, que não só o velho calou-se, como todo o vagão. Ela falou duas palavras de explicação, voltou-se novamente ao marido e continuou conversando em voz baixa como se nada tivesse acontecido. A partir daí, fiquei com um medo considerável de falar alto perto de senhoras pomposas da Alemanha.
Segunda-feira, dia 23 de janeiro, noite. Chegamos em Berlim e fomos direto ao Hostel. Pediram-nos que nos sentássemos por alguns minutos antes de “conversarmos”. Não entendíamos por que ele era considerado um dos dez melhores hostels do mundo, se era tão pequeno. Até que o sujeito veio nos receber. O cara era simplesmente genial. Nos deu uma explicação de meia hora sobre TUDO que poderia ser dito acerca do hostel e dos serviços ao redor; eu não fazia ideia de como o atendimento poderia ser tão completo, e certamente isso nos fez formar toda uma imagem positiva da cidade. Na cozinha, mostrou-nos os lugares das coisas e após explicou que era preciso lavar e secar, “mas primeiro lavar, e só então secar”. Fomos ver o memorial ao muro de Berlim, sob o qual fica um cemitério da grande guerra.
No dia seguinte, acordei tarde devido ao tempo gasto observando os novos calouros no grupo. A Liliane havia saído e nos comunicamos por mensagem, tendo ela dito onde estava. Eu estava sentado na sala comum do hostel quando o cara engraçado chegou e simplesmente disse: “é melhor tu almoçares antes que tu morras”. Por recém ter acordado, assustei-me um pouco, mas logo entendi a brincadeira. Então esperei um pouco e fui olhar o mapa para achar a Porta de Brandenburguer; não a localizando, aproveitei que o sujeito estava passando perto de mim e falei “excuse me...”, tendo ele respondido na mesma hora “não!”, e continuou andando. Então, voltou: “OK, brincadeira. Como posso ajudar?”.
Perdi-me de uma forma radical, tendo demorado quase uma hora para chegar ao local que era muito próximo do hostel. Isso se deve ao fato de que o mapa é muito complicado e... ok, deve-se ao fato de eu costumar me perder mesmo, mas que o mapa é complicado, é! Não teve uma vez em que achei as ruas que ele disse. Enfim, encontrei uma médica espanhola simpaticíssima na rua com quem conversei um bom tempo até encontrar a direção.
Quarta-feira fomos ao campo de concentração de Sachsenshausen. Foi muito interessante; vi os locais onde eles tomavam banho de manhã, a enfermaria, o local de pesquisas médicas, entre outros. Numa máquina dessas de comprar coisas, tentei comprar algo e a máquina me roubou 3 euros. Andei vários minutos até a entrada do campo e reclamei, tendo eles ligado para o fabricante e falado com ele por muito tempo (não entendi por quê). Desligando, o cara me deu 3 euros e mais um pacotinho de cookies. Nada que uma cara de indignado e uma conversa longa não resolva.
Quarta-feira fomos ao campo de concentração de Sachsenshausen. Foi muito interessante; vi os locais onde eles tomavam banho de manhã, a enfermaria, o local de pesquisas médicas, entre outros. Numa máquina dessas de comprar coisas, tentei comprar algo e a máquina me roubou 3 euros. Andei vários minutos até a entrada do campo e reclamei, tendo eles ligado para o fabricante e falado com ele por muito tempo (não entendi por quê). Desligando, o cara me deu 3 euros e mais um pacotinho de cookies. Nada que uma cara de indignado e uma conversa longa não resolva.
À noite, resolvi fazer um pubcrawl. Mas não qualquer pubcrawl: ele se chamava Anti-Pubcrawl. A ideia era andar pelos bares mais obscuros da cidade, onde os turistas só chegam se estiverem perdidos ou através desse evento. Foi na ida, esperando o metrô, que surgiu uma ideia musical maravilhosa, cujo início registro neste momento. Quando cheguei ao bar de saída, já conheci dois brasileiros (eles estão por toda a parte), um chileno e um holandês muito gente boa. Também tinha uma australiana totalmente louca e mais uns vinte estrangeiros que não sei de onde eram. Um dos brasileiros era uma figura peculiar: o cara era um mineiro tão delicado que parecia muito gay (até começar a falar de mulher). Ele estava viajando há muito tempo e não sabia uma palavra de inglês, mas jurava falar espanhol. Não demorou muito para que eu percebesse que seu espanhol é igual ao meu tcheco. Ele chegava para qualquer estrangeiro e dizia bem devagar, palavra por palavra, com aquele sotaque mineiro exageradamente meigo e um sorriso exorbitante na cara:
- Oi, tipo, olha só, eu não english. Falas espanhol?
E normalmente a pessoa respondia “hey... no, sorry”.
- Ok, você... fala english. Eu... respondo espanhol, ok?
Numa dessas, eu estava ao seu lado, tendo ele olhado para mim e se justificado: “porque eu até entendo um pouquin, véi!”. Eu achei que o caso não podia ser tão grave e que eu estava subestimando o rapaz, até que ele me veio com essa:
- Olha só, como é que é “de onde você vem” em inglês? Porque eu vivo perguntando pras pessoas mas acho que tá errado, porque elas nunca entendem, e eu tenho que repetir devagar!
Eu tentei segurar, mas fiz a pergunta.
- Como tu acha que é?
- Assim, eu normalmente digo “what you are country”, mas acho que não tá bem certo, né?
Eu não consegui não rir, mas ele não se ofendeu. Incrédulo, expliquei o clássico “where are you from” (aprendido antes da sétima-série de qualquer colégio), palavra por palavra para o sujeito, sem esperança de que ele entendesse. Fomos a um bar obscuro no qual a atração principal era uma mesa de ping pong. Não se jogava como normalmente, porém – era quase um ritual. Tu alugavas tua raquete (dinheiro devolvido após uso) e entrava numa fila que circulava a mesa. As regras (que eu não sabia) eram as seguintes: as pessoas jogavam nos dois lados, sempre circulando a mesa, batendo na bolinha o mais levemente possível, e quem errasse ia saindo, até que só sobrava os dois finalistas – que então disputavam uma partida normal. Eu achava, porém, que bastava entrar no círculo e ir jogando. Não só continuei após errar (o que ninguém percebeu), como, quando a bola veio alta e lenta para mim, eu a isolei o mais forte que consegui, tornando impossível para o outro jogador.
O bar todo olhou para mim.
O sentimento que tive era o de que iria ser esfaqueado por todos os cantos; então, olhei com uma cara de culpado, sorrindo timidamente, e pedi desculpas em voz alta, indo atrás da bolinha. A porcaria da bolinha foi tão longe que ninguém achou, tendo demorado vários minutos para que fosse substituída. Apesar disso, o meu adversário do momento saíra do círculo, e meus companheiros do pubcrawl me obrigaram a voltar ao círculo, dizendo que eu era “o candidato a vencedor mais polêmico”. Levemente envergonhado, perdi logo na sequência, saindo de fininho para que me esquecessem logo. Tudo voltou ao normal, e eu continuei vivo.
Logo após, fomos para um outro club onde completei o ciclo de furos da noite. Ainda me arrepio de lembrar do maior furo da minha existência. Neste club havia um cadeirante que, do nada, ao iniciar uma música, levantou-se e começou a dançar enlouquecidamente. Todo mundo gritava “MILAGRE! MILAGRE!”. Minutos após, outro cara se sentou lá e levantou de novo. “MILAGRE!”. Nós concluímos (juntos, juro) que a cadeira era de brincadeira – uma atração especial daquele club, como a mesa era do outro, feita para que as pessoas se sentassem e levantassem após. Quando passados alguns minutos, depois de alguns goles de Jagermeister (bebida muito interessante, por sinal), vimos outro cara sentado na cadeira de rodas. Não demorou para que eu tivesse a brilhante ideia de “salvá-lo”.
- E aí cara, eu vim te salvar. Levanta daí, AGORA!
Ele olhou para mim meio sem entender e respondeu:
- Cara, eu não posso.
Uma lágrima quase escorreu do meu rosto.
Depois fomos no último club, um lugar sinistro perto do qual nos tentaram vender cocaína e outras drogas que sequer entendi quais eram. Lá dentro, um traficante veio conversar comigo, perguntando como eu estava, de onde era, tentando eu desviar sem demonstrar muito medo, mas na primeira pergunta que fiz... “hey, don’t ask me ANYTHING”.
Eu levantei daquele lugar, despedi-me dos brasileiros, do chileno e do holandês e peguei um táxi para o hostel, temendo verdadeiramente pela minha vida. Eu não sei bem como, mas conversei com o taxista em alemão por uns 15min, chegando a responder de onde era, o que fazia, há quanto tempo estudava e que de fato considerava interessante a ideia de um dia vir estudar por aqui. Eu juro que não sei como isso aconteceu, mas nos comunicamos por horas de alguma forma milagrosa... (tá, chega de falar em milagre).
No dia seguinte, meus pés estavam machucados pela noite anterior. Tive de ficar no hostel. Na sexta-feira fomos ao zoológico. Bem recomendado; lembrou-me muito o jogo Zoo Tycon, com terrenos adaptados a cada animal, uma ótima infraestrutura e tudo bem sinalizado (inclusive, entre as placas, havia uma apontando para o zoológico de Los Angeles, dando ainda a quilometragem em milhares). Há uma sala de insetos na qual as formigas disfrutam de canos transparentes que percorrem todo o teto. É o zoológico mais antigo da Europa, datando do século XIX. Vale a pena conferir.
Àquela noite, a sala comum do hostel parecia uma taverna, estilo Álvares de Azevedo. Havia um chinês, um tcheco, duas australianas, um australiano, um casal gay de italianos, uma espanhola e um francês com um cabelo emblemático. Bebemos muitas cervejas, todos, enquanto conversávamos. Quando acabaram, fomos buscar mais, eu e o chinês, uma figura simpática e magricela que me explicou dezenas de coisas sobre seu país. Disse que fala mandarim e cantonês, um dos idiomas nacionais mais falados. Explicou-me a diferença entre o “sim”e “não” em mandarim comparados a outras línguas – quem quiser saber, pergunte-me pessoalmente –, deu-me uma aula de escrita em mandarim (o que me fez perceber que há, sim, uma lógica!), ensinou-me um pouco sobre sua política e seus políticos e, após só restarmos os dois na sala comum, contou-me que era alérgico a álcool. Vi o sujeito ficar inchado e aumentar a respiração. Verifiquei seus batimentos, que estavam muito acelerados. Enquanto eu procurava números de ambulância sem dizer, ele garantiu que ia ficar bem, que já tinha passado por isso antes, tendo eu o xingado por não me dizer nada de antemão. Esvaziei a garrafa d’água que tinha comprado, tendo ele tomado tudo; fiz ele jogar o café que tinha preparado fora; ofereci um tijolo de nutella que havia comprado e, não satisfeito, fiquei acordado quase duas horas até que os batimentos do oriental voltassem ao normal. Já estava dormindo sentado quando percebi que ele não iria morrer aquela noite. Ou ao menos não por causa daquilo.
No dia seguinte, sábado, 28 de janeiro, fomos a Potsdam ver o palácio. Totalmente sonolento, tentei dormir no metrô, mas uma voz feminina esbravecida começou a berrar subitamente. Apavorado, observei a alemã gritar algo incompreensível para todos, pensando “a quem ela está xingando a essa hora?!”, mas, quando ela finalmente parou de xingar... quase todos aplaudiram vigorosamente. Só então percebi que era um poema. Não sei bem por quê, mas dei uma moedinha para ela também.
Quando chegamos em Potsdam, nos perdemos feio. Ao achar o Palácio, horas depois, já não dava tempo de subir nele. No caminho, vi um lago congelado pela primeira vez; tentei quebrar o gelo de tudo que é forma, jogando pedras enormes, mas nada. No entanto, a Liliane não permitiu que eu caminhasse em cima dele. Frustrado, continuei tacando pedras sem sucesso. Outros brasileiros que passavam por lá chegaram a arriscar, tendo partido o gelo, e, por pouco, não ficaram por ali mesmo. A neve cobriu o chão em pouco tempo, e o cenário mudou radicalmente.
Pela noite, gravei um vídeo com o chinês para o trote dos bixos na matrícula. Nele, o jovem oriental dizia “Acetilcolina, eu estudei e passei na medicina!”. Nos despedimos, pois eu partiria na manhã seguinte a Praga; depois disso, fui ao banheiro e logo entrei no quarto, sendo que, bem nessa hora (na madrugada escura), quando abri a porta do quarto, o chinês estava parado de pé de frente a ela, dentro do quarto. Eu dei um pulo para trás. Por algum motivo, a cena me lembrou do filme “O Grito”. Ele começou a rir muito, e fez menção de que iria checar meus batimentos, como se a história da noite anterior tivesse se invertido. Rimos bastante, despedimo-nos novamente e, pois, dormi. O chão da cidade adormecera coberto pela neve branca e fina – cena de beleza ímpar e exuberante.