sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Hamburg - O Encontro de Uma Década

Viajamos para Hamburg no dia 20, chegando lá por volta das oito da noite. A gente demorou para se arrumar e descer do trem, o que causou um dos maiores sustos da viagem até então: eu consegui descer, mas quando a Liliane estava quase descendo – eu já me preparava para descer sua bagagem – eles fecharam a porta do trem comigo do lado de fora e ela do lado de dentro. Pelo vidro, nos olhamos meio apavorados. Sabíamos que nossos celulares não estavam funcionando bem na Alemanha; mas havíamos já combinado que, em situações de imprevistos, deveríamos agir o mais logicamente possível. Assim sendo, o trem partiu, tendo eu avisado uma funcionária que estava do lado de dentro mais adiante. Ela disse para eu procurar o serviço de auxílio. Eu ri de nervoso, sem saber bem o que fazer, o que era um serviço de auxílio e se eles entenderiam inglês, considerando que era urgente demais. Achei logo uma senhora que auxiliava os passageiros e expus a situação claramente. Ela disse que a próxima parada seria em três minutos e que então ela poderia voltar. O problema é se ela saberia disso também.
Do lado de dentro do trêm, a Liliane procurava se comunicar com várias pessoas, alguns que falavam inglês e outros que não. Afinal, acabaram ajudando-a a voltar até a estação central de Hamburg, onde eu a esperava.
O encontro com a Katrin foi engraçado. Eu estava preocupadíssimo com essa história de perder a Liliane de vista sem saber se ela conseguiria voltar, se deveríamos nos encontrar no hostel ou na estação. Imaginei que o mais lógico seria esperar na estação. Por um milagre, a ligação completou e conseguimos nos falar por alguns segundos, o suficiente para dizer que ela já estava em outro trem. Foi só então que fui procurar a Katrin.
Passamos um pelo outro sem nos reconhecermos algumas vezes. Mas quando vi que aqueles cabelos absurdamente loiros estavam andando em círculos, achei melhor tentar a sorte. Fui atrás dela, mas ela subiu uma escada rolante. Alcancei-a até um degrau abaixo, e ela olhou para trás. Estava na cara que éramos nós, de fato. As bochechas brancas da alemãzinha estavam mais vermelhas que molho de tomate com pimentão. Expliquei o incidente do trem e esperamos lá até que a Liliane nos encontrasse. Ela foi para casa, pois, e nós para o Hostel. Este hostel era definitivamente bem capitalista. Tudo lá era pago, até o café-da-manhã; isso fez com que a qualidade dele fosse levemente acima da maioria.
Pela noite, combinei de me encontrar com a Katrin na estação central. De lá, fomos até uma área da cidade onde havia bares portugueses. Ela disse que seu pai havia sugerido isso para que eu me sentisse mais em casa. Eu ri, simpaticamente, muito embora estivesse um pouco contrariado; ora, eu sou brasileiro, não português. No entanto, quando chegamos lá e eu pude ler entre as placas cheias de tremas e palavras enormes os dizeres “Casa do Pescador”, “Peixe Grande”, “Recanto da Harmonia”, entre outras coisas do gênero… senti-me como se estivesse cruzando a fronteira Brasil-Alemanha. Os cardápios eram todos em português! Foi totalmente interessante, apesar de que, por algum motivo, fomos parar num outro bar não português em que um bando de alemão assistia um jogo do Bayer de Munique aos berros num telão. Conversamos muito e bebi muita cerveja.
A cerveja na Alemanha não é só magnífica: é muito barata. Eu não consegui parar de tomar. É como se fosse um suco; tem de tudo que é tipo, gosto, cor, força, textura, teor alcoólico. Eu provei dezenas... até anotei algumas, para caso alguém queira se arriscar; entretanto, não sei dizer a ordem de preferência entre elas, já que só anotei os nomes. Segue abaixo algumas marcas que degustei ao longo de toda o território alemão:
Bitburguer Pilsen; Paulaner Hefe Weisbier Naturbur; Weizen Dunkel; Beck’s Gold; Astra; Jever Lime; Jever; Holsten; Einbecker Ur-Bock; Berliner Bürguerbrau; Tannen Zapfle Rothaus Pils; Berliner Kindl Bock Hell; Chiemseer Hell; Hugustinerbrau München Lagerbier Hell; Efes Pilsener.
P.S.: algumas eu não anotei.
P.S.2: se forem escolher só uma, abusem da Paulaner de trigo. Vem meio litro por um preço muito barato (chega a assustar) e tem um sabor especialíssimo.
Depois de algumas horas botando a conversa em dia – pela primeira vez em 10 anos pessoalmente – resolvemos voltar. Fomos até o hostel, onde ela esperou pelo pai na frente. Conheci o simpático velho alemão lá mesmo, vindo com seu carro luxuoso, apesar de serem de uma família de classe média para os padrões alemães. Deu-me as boas-vindas com aquele jeito friamente educado, clássico dos germânicos e com o qual já estamos nós, gaúchos, bem acostumados.
No dia seguinte, encontramo-la na estação para fazer um BusTour. Eu já havia percebido que, sempre que chegávamos à estação, uma música clássica muito agradável estava tocando, normalmente a mesma e, peculiarmente, só do lado de fora.
- Isso é uma maneira – disse-me a Katrin – que a prefeitura achou para afastar os moradores de rua que dormiam na estação, causando uma má imagem aos estrangeiros que aqui chegavam. Eles acreditam que, tocando as mesmas músicas clássicas repetidamente, eles iriam surtar e procurar outro lugar para se abrigar.
Eu olhei ao meu redor. Nem foi preciso perguntar se funcionou – não vi um mendigo sequer, tanto de dia quanto de noite. Ela me disse que funcionou a médio prazo, bem melhor do que se calculava. E a dúvida que me corroía era: será que eu não iria aguentar também? Porque a vontade que eu tinha era de passar o dia ali embaixo, lendo um livro e escutando aquelas obras que encantam qualquer pessoa a quem lhe agrade uma velha música bem feita.
O clima não ajudou durante nossa estadia em Hamburg, tendo chovido a mais ou menos dois ou três graus positivos todos os dias e noites. Talvez seja por isso que o BusTour tenha sido um tanto falhado. Pela noite, fomos ao Red Light District de Hamburg. Não tem muito a ver com o de Amsterdã, porém também há um conteúdo sexual explícito, conquanto sem as clássicas vitrines de prostitutas. Aparentemente, a vida noturna da cidade é lá. Entramos num barzinho onde tomei um litro de cerveja de trigo, e me saiu tão barato quanto se eu comprasse água no Brasil. Não satisfeito, comi uma tal de Bratkartoffeln, que se resume em batatinhas assadas ou cozidas (não sou muito bom em distinguir) cortadas em pequenos pedaços, misturados com pedacinhos de bacon frito, cebola frita e outros vegetais que não sei o nome. Foi a melhor refeição que fiz no país, e uma das melhores da Europa. Ao retornar para o Hostel, resolvi provar a cerveja Aster, de Hamburg, tendo ido para rua, onde fumava um russo que imigrou para a cidade a fim de buscar emprego. Arrependi-me de ter ido para frente do hostel no momento em que ele veio falar comigo em alemão. Já me defendi na hora, dizendo que eu não falo alemão. Mas ele insistiu, dizendo que se eu falava que não sabia falar alemão, eu sabia no mínimo um pouco, tendo seguido o diálogo mais obscuro da minha vida, o qual me fez sentir um Neandertal em processo de aprendizagem de comunicação. Eu entendi que ele era russo, que não falava inglês, e ele entendeu que eu era brasileiro e que não falava alemão. Logo que isso ocorreu, ele sorriu orgulhoso e proferiu as seguintes palavras: “F*da car*lho trabalho pra burro!”. Depois de rir alto, perguntei como ele tinha aprendido isso; ele explicou que trabalha junto de um português que considera seu irmão, e que, quando este fica irritado, sai esbravejando essas palavras. De repente, começou a me convidar para ir a um bordel. Eu falei que não, obrigado, que ficaria ali no hostel, e ele começou a insistir, apontando para a rua e desenhando um corpo feminino com as mãos. Eu já estava cheio quando um táxi apareceu subitamente, e ele entrou neste, apressado, sem dizer uma palavra. “Gente estranha”, pensei. Talvez por isso se chamem “estrangeiros”.
O dia 22 de janeiro foi nublado e um pouco chuvoso. Encontramo-nos os três novamente na estação e, de lá, fomos fazer um passeio de barco – um BoatTur. Nada muito especial, mas mais confortável que o Bus. O divertido mesmo é que fiquei ensinando à Katrin as frases em português que ela deveria dizer no vídeo que eu gravei para o trote dos calouros. Até o final daquela noite ela deveria aprender a seguinte frase: “bixo não é gente, bixo não é nada, bixo toma trote, veterano dá risada”. Depois de inúmeras de tentativas repetidas e várias horas (tendo ela levado para casa a frase anotada para decorar até a noite), nos encontramos pelas 20h e fomos a um bar no centro. Comemos o mesmo Bratkartoffeln, porém bem menos saboroso que o primeiro. Depois de algumas cervejas, soltou-se e gravou o vídeo. Gravamos várias vezes até acertar, e ficou muito legal. Num futuro distante, postá-lo-ei aqui.
Ela me deu um presente de despedida, um livro com fotos de Hamburg e uma dedicação muito bonita. “Para que tu vejas como é a cidade com o clima bom!”, explicou preocupada. De fato a cidade não é algo que recomendo a turistas, já que Berlim é muito mais encantadora; no entanto, eu só havia ido lá mesmo para conhecê-la, missão que foi cumprida com vigor.
O pai dela nos buscou numa rua próxima e me levou até o hostel. Lá, despediu-se de mim com o mesmo jeito típico, mas extremamente polido e educado. Desejaram-me uma boa continuação de viagem e que mais encontros desses fossem executados ao longo dos anos que nos seguirão. 
Vê-la entrando no carro com seus cabelos louros e sua pele pálida, ouvir o som da porta do carro se fechando e sentir o frio e o vento carregando a chuva gélida até meu rosto fez eu realizar que aquilo era verdade. Refleti sobre quantas pessoas têm a chance de conhecer um amigo que mora em outro continente, e, antes que me emocionasse muito, entrei no hostel.

No elevador, um alemão tentou falar comigo. Eu repeti que não sei falar alemão, mas, consoante já esperava, o cara insistiu. O que há de errado com essa gente? Eu não estou sendo humilde quando digo que não falo sua língua – eu realmente não falo. O problema maior é que eles se frustram quando eu paro de responder. O fato é que, com o tempo, as poucas palavras que entendi não fazem mais sentido no contexto, e tudo fica muito confuso e cansativo… enfim, ele falou sozinho por alguns andares. Ainda assim, disse-lhe o formal adeus alemão quando desci, tendo-me respondido com entusiasmo, como se tivéssemos conversado por todo o trajeto.
Na manhã seguinte, a frustração da Katrin por não ter nevado em Hamburg enquanto eu estive lá – uma vez que, desde que éramos crianças, eu a dizia que nunca havia visto nevar – caiu céu abaixo, quando senti os primeiros flocos gelados descerem das nuvens até meu rosto.

Depois de 10 anos do episódio em que lhe contei jamais ter visto neve, tendo ela me dito “vem a Hamburg um dia e eu te mostro!”… a ironia fez-me ver neve pela primeira vez na vida justamente em Hamburg.

E foi sob esse episódio nostálgico que rumamos a Berlim.


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