quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Chegada na Alemanha (Trier - Colônia - Bonn)

Ao chegar em Trier, um tio de bigode extravagante veio ter conosco em alemão. Senti-me um inútil pela primeira vez na viagem. Não sabia ainda, mas passaria por momentos parecidos várias vezes, até conseguir pegar a lógica básica da “troca de ideias” desse povo germânico. Descemos do trem em Trier, dia 18, e fomos direto à Porta Negra – uma construção pouco mais recente que o nascimento do cabeludo milagroso. Pouco antes, vi uma loja de pianos. Nunca havia visto nada parecido; eram dezenas de pianos, uns valendo mais que apartamentos aí. Quando a velhinha disse que eu poderia me sentir à vontade e tocar se quisesse, eu me senti num parque de diversões. Toquei mais de uma hora em todos os pianos que consegui. Foi revigorante. Já havia tocado em três pianos europeus antes disso: um no hostel em Toulouse, um na biblioteca pública de Amsterdã e outro num restaurante de Bruges, onde fui convidado por um músico italiano que lá trabalhava (momento brilhante que esqueci de postar antes). Mas esses pianos alemães lavaram minha alma.
Não dormimos em Trier, afinal não há muito o que fazer lá. Logo viajamos a Colônia e, assim que chegamos, fui pedir ajuda para o local de informações da estação. Queríamos adiantar a compra dos bilhetes de trem para Hamburg, na sexta-feira, dia 20. Então, naturalmente, pensei “vou ser educado e perguntar, em alemão, se ela fala inglês”. Lembrando que meu alemão é “a la homem das cavernas”. A conversa que se seguiu, se traduzida, soaria mais ou menos assim:
- Boa noite! – disse eu, empolgado.
- Bom DIA. – respondeu a velhinha alemã com cara de contrariada.
- Bom dia. Eu não falo alemão muito bem, você fala inglês?
- Não.
- Hã... não?
- Não, só alemão. Tente em alemão mesmo.
Nessa hora eu gelei de cima a baixo, mas tentei manter a calma e respirei fundo:
- Ok, eu... quero... ir... Hamburg.
- Ah, ok, quer ir a Hamburg hoje?
- Sim... NÃO! Hoje não, ontem! Não, ontem NÃO! Amanhã... desculpa, UM DIA!
- Certo, você quer ir para Hamburg, mas não hoje...
- Sim!
- Você precisa comprar os bilhetes.
Então me concentrei muito e formulei a brilhante frase:
- Quem... posso... comprar?
- Desculpe?
- Quem eu posso comprar?
- Quem?
- É, quem eu posso comprar os bilhetes?
A confusão que eu fiz é até explicável: em inglês, os pronomes “quem” e “onde” são respectivamente traduzidos por “who” e “where”. Em alemão, por algum motivo diabólico, houve uma inversão, sendo respectivamente traduzidos por “wer” e “wo”. Eu queria perguntar “onde posso comprar?”, mas, pensando em inglês, disse “wer kann ich kaufen?”, o que, traduzindo, soaria como “quem posso eu comprar”. É óbvio que ela entendeu, mas queria me sacanear – fato percebido quando ela não conteve o sorrisinho no canto do rosto. Um outro atendente que estava só observando e rindo achou que a tortura tinha sido bastante e resolveu se intrometer:
- Ok, você pode falar inglês com a gente. Era só brincadeira.
“Vou levar esses arianos pro Zorra Total” – pensei meio indignado. Mas no fim das contas, acho que faria o mesmo; deve ter sido engraçado ver um brasileiro tentando “comprar alguém” na estação de trem.
Saindo da estação, a visão da catedral gigantesca e estilizada logo à esquerda me fez sentir um pecador. Fomos pegar um táxi com as bagagens até o hostel, como de costume. No entanto, ao entrarmos no carro, depois de organizarmos todas as mochilas e malas no porta-malas, o motorista perguntou onde íamos...
- Como assim?! Essa rua é aqui atrás! Não precisa de táxi para ir lá! – e, virando-se para outro taxista, continuou – eles querem ir na rua de trás!
Um pouco mais aborrecido com esses colonos, fomos a pé até a rua de trás.
No dia seguinte fomos de Colônia  a Bonn, uma cidadezinha próxima dali onde simplesmente Beethoven nascera. Fomos lá especialmente para isso e visitamos a sua casa. Não preciso dizer o que foi aquilo. A Liliane chegou a chorar. Os instrumentos que ele tocara, os artefatos que utilizara quando descobriu sua surdez, as cartas de negação e de infelicidade conforme ia piorando sua audição... O trecho mais marcante foi o que ele escrevera ao seu irmão, dizendo a sua angústia quando alguém ouvia de longe o som de uma flauta que ele não escutava, ou quando chamavam seu nome e ele não ouvia. Ele demonstrava vergonha de sua condição e uma inconformidade absoluta; o áudio-guia fornecido para nós mostrava trechos de suas canções seguidas de como ele as escutava ao longo dos anos. Aos quase quarenta, já eram ruídos ínfimos e confusos demais. Ainda assim, ele seguia compondo. Grande Beethoven; eu toquei no cravo que ele tocava durante a infância. Por sorte ninguém me viu, senão creio que seria duramente advertido, ou quiçá expulso. Talvez deportado. Ok, chega de drama.
No dia seguinte, 20 de janeiro, visitamos a Catedral e, após, viajamos para Hamburg, sobretudo para que eu conhecesse a minha amiga virtual, Katrin, a qual conheci jogando xadrez online com uns 12 anos de idade, há mais ou menos 10 anos atrás, e com quem vim praticando inglês desde minha infância até os tempos recentes. O combinado é que eu a encontraria na estação central, já que chegaríamos mais ou menos ao mesmo tempo (ela vinha de Kiel, uma cidade mais ao norte). É claro que um imprevisto avassalador aconteceu, mas isso é assunto do próximo post. Auf Wiedersehen!

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