Sexta feira, 13 de Janeiro de 2011
Quando chegamos a Paris, pelo fim da manhã, a Andreia (prima da Liliane que nos hospedara na Bretanha) nos esperava na estação. Ela iria viajar também e aproveitou para nos dar um abraço. Não só isso – me deu um pacote generoso de Gateau Bretão, que não resistiu nem ao fim de semana. Tomamos um café, os três, e depois nos despedimos; rumamos ao hostel St. Christopher de novo – aquele que é um bar/restaurante/boate/casa de shows/lan house/centro de informações turísticas E hostel ainda por cima –, tendo lá almoçado. Mais tarde, fui buscar a Júlia na Gare do Nord. Além de amiga, a moça em questão é minha veterana e madrinha na faculdade, sem citar a monitoria de anatomia (que ela dá muito bem, por sinal). É a simpatia em pessoa. Havíamos combinado de nos encontrar em Paris ainda no Brasil – veio estudar inglês em Londres durante essas férias. Fomos ao hostel e, de lá, rumamos ao Champs Elysées. Fizemos uma caminhada longa de uma ponta à outra, basicamente, tendo visto o obelisco e sua primeira visão da torre ao longe. Foi interessante ver a expressão dela ao vê-la pela primeira vez – muito parecida com a minha, ao descer a rodovia que liga Bordeaux a Paris. Não demorou muito para que eu descobrisse uma paixão da Ju: tirar fotos. O ponto positivo é que eu me descobri um fotógrafo amador em potencial. Não por talento, mas por prática: tirei várias fotos da futura médica, aprendendo a satisfazer a modelo com o tempo ao evitar algumas práticas, como: cortar a cúpula das igrejas, ignorar o teto dos monumentos, pegar mais o chão do que o necessário, esquecer os joelhos dela, etc. No último dia, já estava honrando a Escola Neocontemporânea Viamonense de Fotografia – mas muito longe dos japas. Como me disse o Diogo uma vez, “se tu queres uma foto perfeita, chame um japonês”. Eles se jogam no chão se for preciso, tiram várias fotos, mudam zoom, ângulo, foco e, por fim, ainda perguntam se estamos satisfeitos. E o melhor, segundo minha exigente veterana, é que não cobram nada por isso.
Afinal, pouca coisa não é cobrada na Europa. Foi preciso muita conversa para convencer os lugares a aceitar que ela não pagasse (por ser estudante na Europa). Mas com muito esforço e paciência, deu para poupar uma boa quantia. Depois do Champs Elysées, fomos em direção à roda gigante e entramos, ao fim da tarde, no parque que está justaposto a ela. O sol já havia se posto quase totalmente. Depois de sentarmos lá e observar a escuridão tomar conta, fomos convidados a nos retirar por um guardinha que estava fechando o jardim. Achamos a saída e fomos jantar. Após, vimos a Igreja de Madalena (o que eu julguei ser o Pantheon a princípio). Obviamente estava fechada, mas a vimos por fora. Voltamos ao hostel. No banheiro masculino, uma oriental saiu de uma das cabines ignorando o fato de eu estar lá. Isso me lembrou o primeiro dia que estive naquele hostel, quando quase me banhei no banheiro feminino por engano – o que não foi bem uma novidade para mim. “I’m afraid you’re in the men’s restroom...”. “O QUÊ?” respondeu a oriental apavorada. “Eu não sabia! Desculpa!”, tendo eu respondido calmamente que estava tudo bem, que era só para sua informação, mas que eu não me importava. De fato, não vejo problema nisso; acredito que a única razão para separarem-se os banheiros é que o homem, em geral, é um bicho porco. Contei para ela rapidamente sobre minha experiência na outra vez para que ela se sentisse menos envergonhada e saí de lá o mais logo possível.
Na manhã seguinte, enquanto a Liliane fora ao Museu do Louvre, eu e a Júlia fomos a Versalhes. Em ambos os lugares gasta-se o dia inteiro para uma visita decente. Almoçamos já na cidade de Versalhes e, só então, adentramos o palácio. Por ser a segunda vez, pude ver com mais detalhes tudo que já tinha visto, além de dar espaço a outras experiências visuais que passaram em branco na primeira visita; de tal modo, recomendo impetuosamente duas visitas a Versalhes, se possível for. Em primeiro lugar, fomos comprar os tickets. Depois de uma fila pródiga e de uma conversa tendenciosa com o atendente, conseguimos dois mapas em português e um ingresso gratuito à estudante. “É uma pena que não sou estudante também”, pensei levemente contrariado com as regras impostas, muito embora meu ego já estivesse acariciado por tê-lo convencido de franquear ao menos um ingresso.
Vimos primeiro os aposentos da Madame Adelaide, que, conforme fui informado, era amante do rei. Vimos em seguida os enormes apartamentos reais, que não ganham em nada do palácio de Madri. A sala do trono deste, aliás, era muito superior à do Luís XIV; talvez fosse por isso que eles brigavam tanto. A verdade é que a grande beleza de Versalhes está... no resto. Sim, o resto – os jardins, o grande canal, o Grand e o Petit Trianon – criados basicamente para as traições reais e para fugir-se das tediosas regras da nobreza –, as terras de Maria Antonieta, as casinhas seculares perdidas ao longo dos lagos habitados por cisnes e patos de cabeça verde, o templo do amor, os velhinhos atrapalhando fotos, as áreas proibidas, o sorvete...
Queríamos ver o pôr do sol onde marcava um sorvete no mapa. Era um laguinho muito bonito, com mais cisnes, onde provavelmente havia uma barraquinha de sorvete. No entanto, por volta das 17h (quando os sinais do pôr-do-sol tornavam-se evidentes), já estávamos longe demais, e resolvemos cortar caminho... e é claro que nos perdemos. Subimos e descemos morrinhos, passamos por hortas, atravessamos cercas proibidas e andamos vários minutos em um local não permitido, até finalmente acharmos um caminho legalizado de novo. Um verdadeiro Bad Boy... e uma Bad Girl em potencial, é claro.
Quando chegamos ao sorvete do mapa, a noite já havia caído. Mas foi bonito igualmente. Versalhes é um lugar inspirador, recomendado a qualquer pessoa que desfrute de um mínimo de sensibilidade, seja ela artística ou emocional. Ou ambas.
Quando o cisne estava cansando de nossa presença, voltamos à entrada da cidade e pegamos o trem de volta a Paris. Ao menos essa era a ideia; não obstante, enquanto nos divertíamos brincando de contar em francês, acabamos descendo várias paradas depois, já em outra cidade da periferia; pedindo algumas informações, fomos auxiliados por um senhor sinistro (como todos naquela estação). Chegamos ao hostel naquela noite com a certeza de que quem tem boca vai a... Paris.
Jantamos algo no hostel mesmo, ouvimos os relatos invejáveis do museu do Louvre e, mais à noitinha, saímos para caminhar pelo canal próximo dali. A união do frio e do vento gélido em frente a um desvio do Sena é um dos fatores que te fazem tremer incessantemente numa noite de inverno em Paris. Paralelo a isso, é um sublime e inspirador estímulo àqueles que dele desfrutam. Versalhes é um lugar ímpar, de fato; no entanto, somos nós mesmos que arquitetamos nosso templo – seja ele onde for.
Quando nossa homeostase já estava comprometida pelo frio, decidimos que era hora de voltar ao hostel.
Na manhã seguinte, fomos às catacumbas. O lugar é meio arrepiante, mas é mais pelo desejo dos planejadores do que por algum encanto pessoal do cemitério subterrâneo. As dezenas de degraus descendentes, as grades separando pequenas jaulas, os corredores escuros, os milhares de crânios dispostos em cima uns dos outros, alguns em formatos geométricos (até em coração, como bem percebeu a Júlia), as frases em latim ou em francês sobre filosofia fúnebre, as goteiras assombrosas vindas de sabe-se lá onde... tudo isso dava um ar de filme de terror; todavia, a parte que deveria nos causar mais espantos (as ossadas) já nos era mais do que trivial – era matéria de prova no ano anterior.
De lá, fomos ao arco do triunfo. Subimos; conforme eu me certificaria mais tarde, a vista é inferior à da torre, muito embora eu tenha pensado justamente o contrário enquanto estava nas alturas do arco triunfal que Napoleão ergueu aos seus soldados vencedores. E por falar nele, fomos até o museu da Armada, em Les Invalides, onde se encontra o imponente túmulo de Napoleão. É engraçado imaginar que, dentro daquele caixão gigantesco elevado a vários metros de altura está enterrado um sujeito de 1,50m que dominou a Europa há cerca de duzentos anos.
Após, alugamos uma bicicleta – faça isso. É um jeito barato, simples e muito gratificante de conhecer a cidade. Infelizmente, não pensamos nisso antes; a bicicleta pode ser alugada na rua mesmo (através de uma maquininha) e devolvida em vários pontos semelhantes ao que se pega. Aconselha-se entretanto pedir ajuda a um nativo, pois pode parecer meio difícil de início lidar com a máquina de locação. Enfim, demos um passeio enquanto tínhamos tempo – as reservas para a torre Eiffel eram para as 16:30. Pedimos para um japonês tirar uma foto nossa – são os melhores fotógrafos. Vimos um jardim em frente a torre muito bonito, com chafarizes e estátuas interessantes, uma bela escadaria e uma vista privilegiada da torre. Na hora exata, subimos ao segundo andar da torre Eiffel. Depois de um tempo, subimos ao terceiro andar. Lá encontram-se bonecos de cera (creio) perfeitos representando Thomas Edson, o Sr. Eiffel (esqueci o primeiro nome) e uma mulher que sequer vi o nome. Pareciam tão reais que levei alguns segundos para entender que não eram.
Comemos algo lá mesmo e voltamos ao hostel. No metrô, um sujeito desses chatos veio me pedir para passar pela portinha comigo, sem pagar. A reação que eu tive foi meio atípica; fingindo não entender francês direito, falei palavras soltas sem uma ordem coerente, o que, para ele, deve ter soado mais ou menos assim: “dar vai não, passar eu por baixo talvez também ela com”. E ele arregalou os olhos: “O quê?!” e eu continuei a tática com muita seriedade: “dar não vai, eu com ela, depois também passar”. O cara me olhou incrédulo, entendendo que eu era estrangeiro e fez uma expressão do tipo “Ah!”, meio indignado, saindo e tentando passar com outro cara. Desde então, quando contei o que tinha feito, ela ainda ri de mim; mas, bem ou mal, a tática funcionou.
No hostel, conversamos um pouco e caímos no sono. Era hora de subir; lá em cima, ainda mostrei-lhe a linda escaleta (ou melódica, como chamam aqui) que havia comprado em Barcelona; ela tocou um pouco, até uma oriental irritada nos censurar. Dormimos.
Na manhã de segunda-feira, dia 16, fomos aos Jardins de Luxemburgo. É um dos locais mais charmosos que vi na cidade, bem aconselhado a quem busca um novo alento às inspirações efêmeras – aliás, a cidade é ideal para isso.
Na minha segunda visita a Paris, pude confirmar algo que já havia preconizado na primeira vez que pisei na bela e famosa metrópole: as expectativas prévias podem decepcionar o turista; o ideal é ir lá sabendo que, como toda grande cidade, esta também tem seus defeitos – não é só feita de torres, monumentos e jardins românticos; o metrô não é dos melhores (aliás, comparado ao de Hamburg, é um fusca); as pessoas não são mesmo muito amigáveis (ainda que fales francês); há um trânsito complicado e vulnerável; há uma certa desorganização em vários aspectos sociais e principalmente turísticos, fazendo-me crer que, quem não fala o básico de francês, pode vir a ter sérias dificuldades de pedir informação, comer e até abrigar-se. Entretanto, temos tudo isso ainda em pior escala no Brasil; o que se esperava? O paraíso que idealizamos em nossa mente fantasiosa existe, sim, mas definitivamente não é um lugar, não é Paris – é a satisfação ao colher-se os frutos de momentos especiais sem esperar nada além do que nos já é trazido. Vivenciar isso em frente a um jardim parisiense – esse é o segredo.
Depois de sentarmos por muito tempo em frente a um laguinho à companhia de patos e de outras aves, fomos almoçar algo. Até então, havia sido o lugar de maior dificuldade para pedir-se a comida; demoramos para entender que o formoso bife de frango com queijo derretido era, na verdade, uma torrada com ovos (?). Nossa indecisão, aliada à típica indiferença parisiense, fez com que a mulher do restaurante nos ignorasse por horas. Mas o frio e a preguiça nos manteve sentados lá, esperando que a boa vontade dela surgisse espontaneamente. Se fosse no Brasil, já teríamos nos levantado e ido embora ofendidos. Mas que diferença faria fazer isso lá, uma vez que o próximo restaurante nos tratará de forma idêntica? Bom, um dia ela veio até nós, e então comemos.
Ao dobrarmos a esquina, a minha intuição atipicamente estava correta e encontramos o Pantheon. Ela queria tanto vê-lo – e, segundo lembrais, não pude nele adentrar na última visita. Fechamos o fim de semana parisiense com chave de ouro, vendo o local onde grandes nomes revolucionários se reuniam no passado. Há um pêndulo gigantesco o qual não compreendemos muito bem, mas, segundo o pouco que extraí de um vídeo próximo, indica as horas através do movimento terrestre. O local se assemelha a uma igreja, mas é muito mais interessante – uma vez que não é uma igreja. Vale a pena dedicar um tempo ao formoso monumento.
Mas evitem fazer isso quando se tem uma passagem de trem comprada para alguns minutos depois.
Quando me despedi da Júlia, no metrô, ela foi ao museu do Louvre, e eu segui ao hostel. O alívio à minha consciência veio quando soube que não fora só o meu atraso que nos fez perder o trem a Luxemburgo; a Liliane ficara quase meia hora presa no elevador. Por conta de uma confusãozinha de fuso-horário, a Ju também acabou perdendo o trem de volta a Londres, e ambos chegamos aos nossos destinos bem pela noite.
Depois de um fim de semana muito agradável, chegamos ao minúsculo país ao lado da Bélgica, entre a França e a Alemanha. Se na capital belga já era complicado entender a convivência de dois idiomas tão contrastantes, pasmem: em Luxemburgo se fala Alemão, Luxemburguês, Francês e… bom, eu me comuniquei em Português em basicamente metade da nossa estadia no medieval ducado, onde tudo se parece com castelos feudais.
Porém, isso é assunto para o próximo relato. Au revoir!
Nenhum comentário:
Postar um comentário