“Em Amsterdã, você pode fazer o que quiser, você pode ser você mesmo. Ninguém liga. Você pode se sentir em liberdade para fazer tudo que você não pode ou não tem coragem no lugar de onde veio”
Essas palavras sábias foram adaptadas do discurso ouvido numa lanchonete , proferido por um viking barbudo, gordo e gigante para quatro francesinhas indefesas – as quais já estavam sentadas ali antes dele no dia 8 de janeiro.
Quando saímos da estação, no dia 5 de janeiro de 2012, quinta-feira, demorei para assimilar a vista. Foi como chegar num outro planeta. A cidade de Amsterdã é linda por si só: a liberdade que provém dela é só um pequeno plus. Vejam as fotos para ter uma breve e insignificante ideia do que é a arquitetura medieval reproduzida e mantida em larga escala, adaptada aos dias de hoje e misturada com a tecnologia dos transportes. Não se vê na Amsterdã central algum prédio novo. No entanto, não há nada arcaico. Tudo funciona, mas tenham em mente que funciona há mais de quatrocentos anos. Apesar de o povo ser pouco receptivo, são muito prestativos. Além do quê, só houve uma única vez em que encontrei alguém lá que não falava inglês. E foi ele que veio até mim, pedindo informação.
Quando saímos da estação, no dia 5 de janeiro de 2012, quinta-feira, demorei para assimilar a vista. Foi como chegar num outro planeta. A cidade de Amsterdã é linda por si só: a liberdade que provém dela é só um pequeno plus. Vejam as fotos para ter uma breve e insignificante ideia do que é a arquitetura medieval reproduzida e mantida em larga escala, adaptada aos dias de hoje e misturada com a tecnologia dos transportes. Não se vê na Amsterdã central algum prédio novo. No entanto, não há nada arcaico. Tudo funciona, mas tenham em mente que funciona há mais de quatrocentos anos. Apesar de o povo ser pouco receptivo, são muito prestativos. Além do quê, só houve uma única vez em que encontrei alguém lá que não falava inglês. E foi ele que veio até mim, pedindo informação.
O hostel, como vários ambientes na cidade, fede à maconha. Ou melhor, cheira à maconha, porque a maconha de Amsterdã não fede. É comum a mistura com tabaco, mas a grande maioria das pessoas a utiliza pura, conforme vem, naturalmente cultivada e extraída do solo nacional, ação mediada e controlada pelo governo. Isso quer dizer: nada de dejetos bovinos, capim, outras ervas ou outras drogas, como é comum em nosso território. O uso da maconha em amsterdã oscila de terapêutico a social, podendo ser degustada a droga em qualquer local que permita (e são vários), ou ainda, pasmem, nas ruas. O efeito que isso gera é que se vê de tudo na cidade, principalmente de noite – nada parece realmente fazer sentido; tem gente pulando sozinho na madrugada fria, gente urinando em mictórios abertos fornecidos pelo governo, outros sentados no chão observando o céu, centenas de gargalhadas sem motivo, danças aleatórias sem música, pessoas sem noção de espaço/tempo e, por vezes, pessoas sem noção de que existem, mas isso não cheguei a ver – mais um importante extrato do discurso do viking. Ele também disse que inúmeras pessoas acabam indo a Amsterdã e não saem mais. Ou porque se apaixonaram, ou porque morreram – tendo citado os casos de morte acidental devido ao abuso de drogas e à perda de propriocepção.
O hostel ficava no coração da cidade histórica, logo ao lado do famoso Bairro Vermelho (ou Red Light District, para os íntimos). A prostituição em Amsterdã é famosa há centenas de anos, tendo tentado contê-la sem sucesso os protestantes durante as reformas. Hoje, a prostituição legalizada também é centenária e restringe-se ao Bairro Vermelho, no qual, através das vitrines, podes escolher a prostituta que mais te atrai – como fazemos nas vitrines das padarias, decidindo o doce que vamos comer. Trata-se de um conjunto de ruazinhas históricas na maioria das quais mal passam dois homens lado a lado. As vitrines são portas, e dentro delas estão as mulheres seminuas (ou praticamente nuas) que, quando te veem, te chamam com muito vigor, oferecendo-se com esforço, abrem a porta, batem no vidro com as unhas, gritam. O valor é por volta de R$ 150,00, variando entre europeias e latinas, a grande maioria (pelo menos da parte em que estive) composta por mulheres atraentes. É claro que, mais adiante, há as gordinhas, velhas e até algumas coisas bizarras, mas como qualquer serviço, é preciso um padrão para se comparar.
Na frente do Hostel há um canal (várias ruas são assim), onde nadam patos e cisnes fantásticos!
No dia seguinte ao da chegada (6/1), fomos ao museu da Anne Frank, a criança judia morta nos campos de concentração que escrevia um diário enquanto se escondia agonizantemente dos nazistas com sua família em uma casa de Amsterdã. O museu é na sua casa. É arrepiante andar por onde essa criança andou, ver o banheiro intacto, o local onde ela ouviu a notícia no rádio sobre os ingleses, as escadinhas que ela subia, o sótão – único local onde ela podia ver a luz do sol durante esses anos de confinamento. A experiência é muito válida, e fiquei me lamentando por não ter lido o livro antes da visita; é algo que certamente farei.
Tentamos ir ao palácio, mas estava fechado. Fomos até a praça famosa, onde há a frase típica da cidade: I AMsterdan. Ao lado, uma pista de patinação no gelo fez minha alegria por mais de uma hora. Também fez roxos no meu joelho, mas não precisamos entrar em detalhes. Por aquela noite, saí sozinho para explorar a cidade. Peguei o Tram e fui em direção sul até uma das últimas paradas, procurando um bar recomendado. Enquanto eu ia andando na rua histórica e escura com o mapa em mãos, um indivíduo nórdico me parou e disse algo incompreensível. Pedi que repetisse três vezes, meio impaciente, até entender que era um singelo “Can I help you?”. No último, finalmente entendido, ele completou com “vejo que você tem um mapa nas mãos, talvez precisasse de ajuda”.
Se alguém fizer isso convosco em Amsterdã, principalmente nos confins do Red Light District, é melhor abrir o olho: muito provavelmente é alguém querendo vos vender cocaína. Nem toda droga é legalizada em Amsterdã, e é preciso lembrar que o tráfico também existe e também é um problema, como em qualquer lugar; o fato é que a liberação da maconha auxiliou e muito para reduzir os índices de traficância, e quem negar isso é hipócrita.
Mas não era esse o caso; o sujeito realmente queria me ajudar. A prestação de auxílio aos estrangeiros da parte dos holandeses também é famosa, conquanto sejam eles um povo de certa forma menos acolhedor que os mais sulinos. Para reconhecer um holandês, verifique seu tamanho e sua palidez – os outros 50% são turistas.
Depois de exagerar o dado acima para tornar o relato mais interessante, digo que neguei a ajuda e me encontrei. Uma das atrações mais interessantes da cidade é conversar com as pessoas. As experiências que as pessoas te contam em uma só conversa valem ouro. Algumas que recordo envolvem a crença de que se é um cogumelo, a dúvida se está ou não nevando sobre a própria cabeça, o medo de ser confundido com um terrorista, o esquecimento da legalização em pleno uso, mas cada pessoa relata um ponto, uma sensação e uma opinião diferentes.
Na volta para o hostel, o motorista do bus noturno deixou que eu não pagasse o tíquete que comprei. “You can keep it for tomorrow”, disse e piscou, não validando o meu ticket para que eu pudesse o utilizar no dia seguinte (fato que nunca ocorrera, tendo sido indiferente sua gentileza). Todos os ônibus noturnos levam (pelo menos foi o que me disseram) à DAM – um lugar ao qual dubiamente associei um serviço ferroviário. A verdade é que sua única utilidade para mim era como referência – ficava a duas ruas do hostel Bulldog. A questão é: para qual direção?
Amsterdã não é uma cidade gigante. De fato, diz-se que Roterdã é maior. No entanto, há um labirinto frenético e avermelhado traçado pelo Red Light entre as ínfimas avenidas cortadas pelas centenas de canais. Para que te percas, basta não ter um mapa: e eu, naturalmente, o perdi durante essa noite. Não só perdi o mapa como me perdi por quase duas horas, apesar de ter descido a duas ruas da desejada cama. Chegou ao ponto de eu decidir pegar um táxi – os quais se oferecem semelhante às prostitutas – até a DAM e recomeçar a tentativa, sob a ciência prévia de que estava a apenas duas ruas (e não duas quadras) do meu destino. Não demorou muito para que eu me desencontrasse de novo. Na minha cabeça, surgiu a voz do Lucas Floriano (não sei bem por quê) dizendo a seguinte frase: “Meu, tu é o único cara que eu conheço que pega um táxi e continua perdido!”, mas meu consolo é que um dia será ele. Um dia (duas horas depois de decidir ir para casa), me achei.
Amsterdã não é uma cidade gigante. De fato, diz-se que Roterdã é maior. No entanto, há um labirinto frenético e avermelhado traçado pelo Red Light entre as ínfimas avenidas cortadas pelas centenas de canais. Para que te percas, basta não ter um mapa: e eu, naturalmente, o perdi durante essa noite. Não só perdi o mapa como me perdi por quase duas horas, apesar de ter descido a duas ruas da desejada cama. Chegou ao ponto de eu decidir pegar um táxi – os quais se oferecem semelhante às prostitutas – até a DAM e recomeçar a tentativa, sob a ciência prévia de que estava a apenas duas ruas (e não duas quadras) do meu destino. Não demorou muito para que eu me desencontrasse de novo. Na minha cabeça, surgiu a voz do Lucas Floriano (não sei bem por quê) dizendo a seguinte frase: “Meu, tu é o único cara que eu conheço que pega um táxi e continua perdido!”, mas meu consolo é que um dia será ele. Um dia (duas horas depois de decidir ir para casa), me achei.
Na manhã seguinte, fizemos um passeio de barco pelos canais de Amsterdã. Foi bem bonito e é recomendado. Vê-se inclusive alguns pontos turísticos a serem visitados depois, como a biblioteca pública, que merece um parágrafo só dela mais adiante. Vê-se ainda por lá o restaurante Chinês flutuante – um gigantesco palácio oriental do qual tampouco deixaremos de falar mais adiante. Veem-se os cruzamentos dos canais, os milhares de houseboats – barcos nos quais as pessoas moram –, o museu da Anne Frank por fora, várias construções típicas medievais, paisagens diversificadas. A cidade é encantadora e apaixonante, sendo seu estilo o mais europeu possível. Aquém do Red Light, a maioria das casas ainda é avermelhada, principalmente as antigas. Na faixada de várias, há o ano em que foram construídas, assim como em alguns canais. É admirável notar que o europeu sabe o valor do passado e da história já há muitos séculos. Quando descemos do barco, fomos até o museu NEMO, mas estava fechado. A biblioteca pública, casualmente, estava logo ao lado.
A biblioteca comporta muitos e muitos andares em um prédio moderno por dentro e por fora, com duas linhas de elevadores, um restaurante grande e um serviço de internet disponível a quem quiser. Não só isso: logo na entrada há um piano de altíssima qualidade, que me encantou como um doce a uma criança. Ao seu lado, os dizeres: “se você é um pianista experiente, sinta-se à vontade para tocar este piano”. As únicas regras eram que o tempo máximo era de meia hora e somente uma vez ao dia. Eu só não descumpri ambas porque só notei o piano na saída, mas a primeira regra foi descumprida tanto nesse dia quanto no posterior, quando voltamos lá e toquei mais uma vez por um tempo no mínimo duas vezes maior. Foi interessante ver pessoas estranhas tirando foto deste momento, mas não entendi muito bem o motivo – tendo em vista que, pelo menos de onde venho, fotos não capturam som. Entretanto, essas reações aleatórias são motivadoras. Ao final dos dois dias, fui elogiado por algumas pessoas, o que me deixou muito feliz e satisfeito, tendo matado as saudades mais uma vez. Era o segundo piano europeu que eu havia tocado – e o melhor até então. Fui embora da biblioteca um pouco mais feliz.
E foi nesse clima que entramos no restaurante chinês, também do lado – como quase tudo na Europa. De fato é lindo, principalmente por dentro. Uma vovó chinesa foi acolher nosso pedido e, tendo eu escolhido, após muito esforço, ela me adverte: “não! Você não vai gostar disso!”. Surpreso pela opinião espontânea, perguntei-lhe por quê, tendo-me explicado de uma maneira muito convincente: “Porque é muito chinês!”. Preferi acreditar na velhinha e trocar meu pedido. Não é nada mal ir a um lugar onde já conhecem seu gosto previamente. Fiquei com medo de ela me proibir de tomar suco de laranja também, mas isso não aconteceu.
Ainda naquela noite, estávamos no hostel quando a simpática e loura atendente (uma holandesa polentuda de 1,80 que volta e meia fechava o seu próprio baseado) entrou no quarto. “Lucas? Tem um amigo seu esperando lá embaixo”. Eu não entendi, e ela repetiu: “ele disse que te conhece! Disse seu nome e seu quarto!”. Como assim, me conhece? Eu sequer havia pronunciado meu nome desde que chegara naquela cidade! Desci levemente apavorado, sem saber o que esperar.
Quando chego lá, um senhor de uns cinquenta anos lança um olhar de censura sobre mim e sobre a atendente, fazendo um não com a cabeça. A alemoa trocou o número do quarto, e casualmente havia um Lucas em ambos.
Enfim, desci para comer algo. E isso me lembra uma observação muito peculiar: a indústria alimentícia da Holanda é tão desenvolvida quanto a da maconha. Creio que não é preciso refletir muito para entender, mas logo que se chega lá percebe-se o número absurdo de fastfoods comparado ao restante da Europa, ao lado de restaurantes que concorrem na mesma rua – vários são de culinária Argentina –, e não é difícil encontrar umas batatinhas te esperando em uma esquina. Porém, comi dentro do hostel mesmo. Pensei: “vou experimentar algo diferente desse cardápio, talvez algo típico”. Encontrei um tal de Hambúrguer Royal, em que iria tudo dentro. Eu não sei por que diabos eu escolhi algo que tenha tudo dentro, quando não como quase nada, mas enfim – já fui lhes alertando que não gosto de maionese nem de mostarda, e o cozinheiro perguntou: “e o resto, vai?” tendo eu afirmado com a cabeça. Quando o hambúrguer chegou, dei aquela mordida esperançosa, sem nem imaginar que a sensação gastronômica que teria seria uma das piores da minha vida. À mordida, seguiu-se uma sensação de mastigar a morte. Eu engoli a seco aquele pedaço mórbido de hambúrguer e o abri. Quando vi o que tinha dentro, pensei a seguinte frase: “isso só pode ser dejeto humano”. É bem verdade que a frase se organizou com palavras um pouco diferentes do que as transcritas aqui, mas a ideia é semelhante. Havia pedaços de feijão marrom com um molho denso e gosmento, e o sabor era de cominho – algo que deveria ser proibido de se ingerir. Antes que eu passasse mal, evitei a segunda mordida, tendo comido só as batatinhas por volta. Logo após, vi uma cena admirável. Um sujeito se aproximou do bar, chamou a garçonete, pediu dois drinks. Enquanto ela os preparava, ele deu em cima dela rapidamente. Ela riu, fingiu se ofender de brincadeira e ele insistiu. Quando ela finalmente terminou os dois drinks, ele apontou para um deles, oferecendo a ela mesma. O cara é um mestre. É uma pena que não tenha funcionado, tendo ele levado os drinks até uma outra mesa onde havia uma outra mulher, reiniciando o truque.
No dia seguinte, fomos no museu do Rembrandt. Totalmente indicado a quem pisar na cidade. É um retrato fidelíssimo de uma casa medieval holandesa de luxo, com os móveis, objetos e outros artefatos dispostos igualmente à época em que o pintor lá morava. O pintor foi muito reconhecido em sua época, ainda em vida, tendo conseguido dinheiro suficiente para comprar uma das casas mais luxuosas da época. No entanto, atolou-se em dívida antes de pagá-la, tendo sido obrigado a sair de lá, buscar uma outra residência e, falindo, todos os objetos dele foram arrecadados pelo banco. Ao fazer isso, o banco proferiu um relatório minucioso de tudo que havia dentro da residência. Séculos mais tarde, tendo como base esse relatório e até mesmo os retratos efetivados pelo próprio pintor, buscaram-se os móveis originais e reconstruiu-se a casa do pintor praticamente igual. Havia camas por toda a casa, a maioria embutida em armários, e todas muito pequenas – dormiam sentados na época por receio de deficiência circulatória cerebral. A cozinha gigantesca, a sua sala de curiosidades (na qual disparei o alarme tentando tirar uma foto mais de perto), a sala em que imprimia suas obras em metal com a ajuda de um moinho pequeno, a sala onde seus alunos pintavam, a sala onde ele próprio pintava... tudo isso e muito mais nos espera neste que foi um dos museus mais interessantes em que já estive. Na sua sala de pintura, havia uma senhora explicando como eram feitas as tintas que usava. Algumas vinham de rochas; uma dessas rochas, azulada, era muito, muito cara, tanto na época quanto hoje, sendo o azul pouco utilizado por Rembrandt; quando o utilizava, era de uma fonte bem mais simples – motivo pelo qual quase todos os azuis de suas obras já desapareceram hoje. Outro pintor contemporâneo a ele utilizava esse azul sem limites – no entanto, morreu na miséria e jamais teve as posses que Rembrandt adquirira ainda jovem.
Saindo de lá, estava contando pelas ruas à Liliane sobre a história do hambúrguer. Quando proferi as palavras “daí pedi sem maionese e sem mostarda”, um velhinho holandês que passava por ali se pronunciou: “that’s portuguese, isn’t it?!” (isso é português, não é?), tendo eu perguntado como ele sabia. “Pelo som”, respondeu, voltando ao que estava fazendo. Fico imaginando quantos brasileiros de sua idade reconheceriam o holandês falado nas ruas, principalmente sob o contexto de maionese e mostarda.
Pela última noite da cidade, voltávamos pelo Red Light até o hostel quando dois negros gigantes consultaram uma prostituta na sua vitrine, perguntando sobre o preço para dois, sendo a resposta: “100 euros”. Então um deles se aproximou dela e perguntou algo em voz baixa, tendo ela respondido “então seriam 500 euros”. Ele deu um berro: “500 EUROS?’’, e saiu gargalhando muito alto.
A vida em Amsterdã é outra, tanto a noturna quanto a diurna. O fato é que, alheio a qualquer conceito ou preconceito, a cidade é divertidíssima, seja você um simpatizante das drogas, um tarado incontrolável ou apenas um amante de belas paisagens.
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