Antes disso, dois momentos esquecidos em Paris, ainda da última noite: primeiro, eu estava com um grupo de brasileiros no qual havia uma paulista meio antipática. Pelo que entendi, ninguém se conhecia antes dali (havia um de cada estado, e um médico recém formado pela PUCRS honrando junto de mim o sangue gaudério na cidade da frescura). Numa hora dessas, estávamos conversando – eu e a paulista – e ela veio me perguntar algo do tipo: “você veio pra Paris ver o quê?”, e, antes que eu sequer pensasse numa resposta macabra, um outro cara (de Goiás se não me engano) se prontificou a fazer o serviço que eu não faria por normas de conduta; estufou o peito e gritou: “A TUA CARA DE IDIOTA!”. Foi difícil conter o riso, e, apesar de exagerada e pouco polida, a resposta gerou risos gerais, e a paulista baixou a bola pelo resto da noite. O outro fato olvidado no relato precedente se refere ao meu primeiro atendimento no exterior (e aqui dou margem a outro exagero, antes que alguém se alerte) – uma menina se jogou no chão ao fim da noite em frente ao elevador. Atrás dela, um cara tentando ajudá-la a segurava pelo pescoço, como uma gravata. Eu e o formando da PUCRS fomos correndo até o local (sem saber muito bem o que fazer, da minha parte ao menos). Quando ela começou a vomitar, o formando se afastou um pouco e eu me ajoelhei na frente dela, afastando suas pernas e segurando seu cabelo. O outro cara ainda segurava o pescoço dela, o que me fez gritar – HEY MAN, DON’T TOUCH HER FUCKIN’ NECK! Cena mais máscula que a Europa já viu. O cara tirou a mão do pescoço dela apressado, e ela pôde vomitar decentemente. Minha mão ficou vomitada por um tempão, até eu perceber que era hora de lavá-la. E o nojo? Morreu na sala de anatomia.
E após esse conto de vanglória, inicio o relato sobre um dos pontos mais curiosos da viagem: a estadia na terra dos Celtas.
No dia 3/1/2012 chegamos no aeroporto de Lorient por um avião do tamanho de um ônibus. Era o jeito de maior custo/benefício que encontramos de visitar a amável prima da Liliane (Andréa) e seu engraçadíssimo marido português-francês (Armando) – ótimos anfitriões! Se alguém tem dúvidas sobre a culinária típica francesa ou portuguesa, pergunte ao casal – pela primeira vez na vida eu gostei de absolutamente tudo que provei fora de casa. Além da comida, fomos muito muito bem recebidos pelos dois, que nos deram as boas-vindas várias vezes, e sempre muito elegantemente. Além disso, ainda ganhei da Andréa um livro de conjugação em francês (aliás, o francês dela me soou melhor do que o das francesas que conheci - se é que isso é possível).
Logo na primeira noite, fizemos uma refeição tradicional que durou algumas horas. Para quem não sabe (como eu, antes desse episódio), a tradicional refeição francesa envolve um aperitivo, uma entrada, o prato principal, uma rodada de queijos e finalmente a sobremesa. É por isso que não são pratos absurdamente volumosos, como estamos acostumados – mas, ao contrário do que se pensa, sai-se da mesa mais do que satisfeito. Inicialmente, serviram-nos um aperitivo (que eu julgava ser a entrada). Nele haviam batatinhas, presuntos de variados tipos, um salame estilizado e umas sementes que eu nunca havia visto na vida (tremoço, ou algo assim), que lembram grãos de milho gigantes e salgadinhos. Uma champanhe para inaugurar as boas-vindas gastronômicas foi aberta enquanto pulávamos a entrada ao saber que o prato principal seria algo muito apetitoso. Logo chegou o formoso Saucisse de Martin au Gratin (escusando-me de uma possível confusão quanto ao local ou à escrita – lembro que vem de uma região francesa perto de Genebra); baseava-se em uma linguiça tradicional francesa cozida junto de batatas ao leite sob queijo gratinado – um prato do qual certamente sentirei falta. Não tanto quanto o Gateau Bretão, é claro, mas isso é outra história. Na rodada de queijos, eu já estava absolutamente cheio, mas tradição é tradição (e vice-versa, é claro). Pus-me a comer os queijos mais diversificados que já vi, de cujos nomes jamais me lembrarei. Essa talvez tenha sido a experiência menos atrativa, mas ainda assim muito interessante – uma questão de costume, de fato. A sobremesa dessa vez tampouco pôde ser aproveitada (um mousse de chocolate muito bonito). A falta de prática me obrigou a pular duas etapas do ritual – erro que eu não cometeria de novo.
Após dormir numa cama de princesa com travesseiro de gatinho – muito confortável, por sinal -, tomamos o café da manhã com a melhor coisa que já me ocorreu nesta Europa: a descoberta do Gateau Bretão. Eu não sei como vivemos sem isso no Brasil. Trata-se de um bolinho de consistência levemente torrada (bem levemente), com um sabor único que, de longe, lembra uma “cueca virada” ou uma rosquinha de vinagre, mas essa comparação é até uma ofensa à qualidade do produto, que obviamente importei. O problema é que, segundo fomos informados, não só é francês: é bretão. Aquele que quiser o gateau bretão de tal sabor (com cujo pacote terminei logo em Amsterdã), terá que fazer uma viagem aquém de Paris. Depois desse hiato culinário (mais um), saímos junto da Andrea no dia seguinte em direção à praia. Vimos o atlântico do lado oposto; por conta do clima, a beleza foi comprometida, mas de fato é uma paisagem totalmente diferente do que a outra margem à qual estamos acostumados. Após, fomos ver algo que, sem dúvida, me marcou consideravelmente. Trata-se dos megalitos celtas de vários milênios antes de Cristo dispostos em um vasto campo entre as minúsculas cidadelas da Bretanha. Por algum motivo não bem compreendido até hoje, os indivíduos enterravam pedras gigantescas em uma distância uniforme umas das outras, relativamente alinhadas e de certa forma semelhantes. Alguns agregados de pedra são facilmente associados a túmulos; outros, acredita-se que relembram locais sagrados ou homenageiam santidades. A verdade é que ninguém jamais saberá o que aquele mundo de rochas alinhadas significa. Como um bom brasileiro, subi em uma das maiores pedras para tirar uma foto. Com o vento forte da Bretanha, quase foi a minha última subida, mas consegui recompor o equilíbrio antes de ter que usar o plano requerido. Claramente fora um aviso dos deuses celtas: era hora de descer. E desci.
Se alguém lembra de Asterix e Obelix, saibam que eles habitavam essa região, e inclusive pode-se achar semelhanças entre os hábitos, cultura, culinária e quiçá as próprias pedras carregadas?
Após, fomos numa cidadela medieval cujo nome infelizmente não me recordo, mas hei de me certificar. Sem sombra de dúvidas, foi o lugar mais medieval que já estive neste continente. Antigamente, a ponte pela qual passei era aquelas elevadas manualmente, e a ínfima cidade (ainda hoje) é totalmente flutuante. As muralhas protegiam dos ataques ingleses nas diversas invasões ao longo dos séculos passados. Canhões encontrados no fundo d’água cercante foram restaurados e repostos no local original. Cada pedaço das muralhas, cada parede, cada casa com suas centenas de anos dizia uma história; um mundo inspirador que já se extinguiu há muito tempo, mas cujas marcas ainda o ilustram diante de nossos olhos. Era noite, e o comércio (que ocupa as casas arcaicas) felizmente já estava fechado, de modo que a caracterização medieval pôde ser melhor preservada. Antes de ir embora, me meti numa ruazinha entre a muralha oeste e umas construções de uns quinhentos anos.
A janta dessa vez foi mais controlada. Primeiro, uma cerveja portuguesa muito boa me foi oferecida. Após o mesmo aperitivo (mas dessa vez com direito a vinho do Porto), provamos uma iguaria: fígado de pato em pasta (não bem como o patê que conhecemos). Tentando ignorar os métodos de preparo, percebi que, junto com pão, eu poderia comer isso todo dia no café da manhã. E ao final dessa entrada, dois pratos nos aguardavam – primeiro, um francês, que se baseava num molusco (encontrado numa concha) frito com um molho de temperos bons. Definitivamente refinado. À Liliane lembrou uma mistura de peito de frango com camarão – pensamento que, ao ser exposto, não foi perdoado pelo muito bem humorado Armando, que passou a noite toda repetindo com seu sotaque português “estamos a comer o frango-camarão”, “muito interessante esse animal, o frango-camarão”, “por favor, gostaria de comprar um frango-camarão!”. Depois fizemos uma associação da iguaria inventada com nosso próximo destino: Amsterdã. Ele imitando alguém fumando é uma cena digna de filme de humor. Antes de nos servir o fígado de pato (Foie gras), nos alertou que não era para fumar, mas para comer. Aliás, eles nos contando a experiência deles em Amsterdã foi excelente. E depois de uma rodada leve de queijos e de um mousse de chocolate ótimo, nos despedimos.
Na manhã seguinte, depois de agradecer a perfeita recepção que o jovem e muito afetuoso casal nos proporcionou, partimos para Amsterdã. A cidade do pecado.
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