domingo, 22 de janeiro de 2012

Bruxelas - A Capital da Europa (9/1 a 13/1)

Dia 9 de janeiro de 2012:
Logo na estação central de Bruxelas já vi, no banheiro, uma mulher belga xingando uma faxineira, dizendo que ela sequer sabe falar francês direito, que voltasse ao seu país. A outra, em sua defesa, acusou-a de racismo. A ironia é que ambas são da mesma raça (se é que esse é o termo). De qualquer forma, percebi que seria um lugar de fácil comunicação. Grande parte da população (a grande maioria dos que conheci) falava francês E inglês, muito embora houvesse lá os nórdicos camuflados falando um flamenco ameaçador. Eles evitam o termo “neerlandês” – que, na realidade, é sinônimo de flamenco –, mas não entendi se o fazem por tradição ou por orgulho. Antes de continuar o relato, um pequeno resumo do país.
A Bélgica tem dois idiomas oficiais: o neerlandês (no norte do país) e o francês (no sul). Na capital, Bruxelas, falam-se ambas as línguas – inclusive veem-se placas de rua, anúncios, outdoors, tudo nas duas línguas, um ao lado do outro, e muitas vezes repetindo a imagem, trocando só o idioma. É engraçado ver dois idiomas tão absurdamente opostos lado a lado. Talvez seja por isso que haja tanta tendência separatista – as pessoas não se entendem. Certa vez, numa aula de geopolítica do cursinho, lembro-me de ter ouvido que, no norte, as pessoas aprendem o francês como segunda língua, enquanto no sul eles se negam a aprender o flamenco/neerlandês. Franceses... sempre mais rebeldes.
Fomos na famosa catedral que sequer me lembro por dentro, mas era bonita por fora. Já estou farto de igrejas. No hostel, havia uns argentinos gente boa – leia-se: não eram portenhos. Eram de Santa Fé, perto de Rosário. Eram um casal e mais um solteirão. Mais à noite, no bar do hostel, o casal dançou um tango cantado à garganta pura por um outro cara. Foi o tango mais bem dançado que já vi, tendo-me feito parar o que estava fazendo e observar cada movimento. Talvez pelo fato de eles se gostarem, além de saberem dançar bem – o fato é que o hostel parou para observar o espetáculo.
Dia 10/1: Bruxelas não é nem de perto tão bonita quanto Amsterdã. Pelo contrário  - a cidade é, de certa forma, feia. Mas simpática. É um local onde tu te sentes bem inexplicavelmente. O céu é cinza, as construções também, mas há uma paz lá que ninguém sabe de onde vem. As pessoas são menos nórdicas, mais baixas, menos louras e mais simpáticas. Diz-se lá que a cidade é a capital da Europa, mas que não se deve esperar muita euforia e ufanismo por isso (para quem não sabe, é a sede do Parlamento Europeu, onde foi fundada a União Europeia. Fomos ver o símbolo da cidade: a estátua do menino urinando. Esperava, como todo turista, algo gigantesco, mas é tão insignificante que passamos por ela sem notar enquanto a procurávamos. Ao lado, uma loja de chocolates vendia uma réplica achocolatada da estátua umas dez vezes maior. Após, fomos ao museu da música, casualmente encontrado na rua. Apesar de desorganizado, ver aqueles instrumentos medievais e antigos foi excitante para um músico e curioso. Não aguentei quando vi um cravo do século XVI, tendo tocado um acorde de lá menor nele, apesar dos avisos. Não demorou para que uma voz lá do fundo me advertisse: “HEY! DON’T TOUCH!”. No andar de cima, toquei novamente um cravo ainda mais velho, mas o som era tão alto que fugi para o terceiro andar antes que alguém me achasse. Após, fui ao palácio real – longa caminhada – para descobrir sem muita alegria que ele é fechado a visitas. Imaginei que seja porque a família real belga ainda mora lá, mas prefiro não afirmar. Por fora, é lindo – tanto quanto o castelo de Versalhes, ou mais. Os jardins e a arquitetura preservam a ideia medieval de opulência real. Havia dois guardas reais marchando com uma espingarda cano fino em direções opostas na frente da porta principal, tão concentrados que fingiram não se incomodar com a minha filmagem. Na volta ao hostel, conheci um galego (espanhol da região da Galícia, acima de Portugal). O cara era muito estranho e fedia a urina seca, mas descobri algumas curiosidades com ele. A língua é mais semelhante ao castelhano, mas há muito de português nela; diz-se lá que o galego é o pai do português e o irmão do espanhol. Que são muito menos separatistas que a Catalúnia. Disse também que, com seus pais, fala galego, mas com seus irmãos, castelhano. E que com algumas pessoas os idiomas são misturados. Vai entender...
No bar do hostel, provei umas das melhores cervejas da minha vida. Os nomes eram: Caracole, Forestine, Barbar e mais duas ótimas que esqueci. Tanto as do tipo Blonde quanto as do tipo Blanche são melhores que as Pilsen e as Weiss comercializadas no Brasil (mesmo as de nível), no entanto ainda há um terceiro tipo lá (eu não sei por que raios não anotei), mais morena, amarga, típica do país, e foi o que mais gostei (se não me engano, a Barbar é desse tipo). O guia de Bruxelas no hostel escrito por nativos dizia: “os turistas sentem gosto de urina nela, mas eles não sabem de nada”. Se urina fosse assim, seria muito bem vendida no mercado. A cerveja desce como se fosse um alimento, um chocolate líquido, algo nobre, respeitoso, gélido e amargo. A pergunta que fica é “como podem considerar aquelas latinhas que se toma no Brasil como cerveja?”. Não que não tenhamos também cervejas ótimas – as artesanais em geral são muito boas, algumas bem próximas desse nível, mas... bom, só provando para entender. E não me venham com Leffe; na Bélgica é sabido que boa parte da fábrica é brasileira, e ninguém a considera típica por lá. Enquanto na França a grande experiência que tive foi gastronômica (croissants, gateau bretain e pain au chocolate), a cerveja belga me deixou curioso para provar a Alemã. Realmente quero ver se pode haver algo melhor que isso em se tratando desta bebida mágica.
Creio que é um costume europeu invadir a calçada com o carro. No dia 11, quarta-feira, vimos isso mais uma vez enquanto íamos ao Hôtel de Ville. Apesar de interessante por fora, não recomendo entrar, muito menos fazer a visita guiada; perdemos quase duas horas em meio a belgas idosos sendo guiados por uma velhinha neurótica que só falava francês. Ela explicou todos os quadros, todas as tapeçarias e cada canto dos aposentos que passamos, lembrando sempre que não deveríamos tocar, respirar, andar, sentar, mexer, falar. Fiquei meio tenso com o tempo e desliguei o “lado bilíngue”, não prestando atenção em quase nada que ela falava do meio até o final. Após essa tortura, fomos ao átomo gigante. Outra observação importante é que o europeu tem o costume de levar seus cães para todo lugar, incluindo prédios públicos e até o metrô. Neste metrô, vi um cão lindo sentado ao lado da dona, tentando se equilibrar. Procurei conversar com ele, mas os cães da Bélgica não entendem português…
Chegando no Átomo gigante, construído na década de 50, se não me engano, num local muito afastado da cidade, descobrimos que ele estava fechado para reforma até o dia 13. Voltamos meio desolados, mas de cabeça erguida, afinal somos brasileiros. Enquanto, na volta do hostel, eu fazia por passatempo a prova deste ano da UFRGS de biologia (que se tornou muito mais fácil com os conhecimentos de medicina), duas paulistas vieram até mim, convidando-me para sair. Muito simpáticas e bem bonitas – tanto que achei que fossem brasileiras. Uma inclusive era loira e tinha olhos verdes. Aproveitei a companhia para seguir a indicação da Natália – levei-as ao Delirium, um bar que, segundo me parecia ter ouvido, “tem três andares, milhares de cervejas, uma delas é do elefantinho, é lindo, lindo, demais!!!”. É claro que a Natália exagerou um pouquinho, mas tudo bem; de fato o lugar tem três andares, embora o terceiro seja... o banheiro. As milhares de cervejas são menos de uma centena e grande parte não era belga; a cerveja “do elefantinho” era uma pilsen bem sem graça, e eu espero do fundo do coração que a Natália nunca leia isso. Mas depois de provar o terceiro copo de 1L de cerveja diferente, o bar tornou-se um ambiente muito divertido; fora a companhia, que estava ótima. É uma pena que o Brasil seja tão grande, pois, caso contrário, tenho a impressão de que seríamos um grande grupo de amigos com diferenças insignificantes, e não um território infinito com diversos povos unidos pelo futebol e pelo feijão com a arroz. De todos os brasileiros que conheci até agora na Europa, só teve um grupo que não gostei, lá em Madri, antes ainda dos nordestinos. Brasileiro definitivamente tem o seu diferencial, e foi preciso sair do país para que eu notasse e me orgulhasse disso.
Voltamos, eu e as duas gurias, e ficamos mais um tempo no hostel, conversando, etc.
No dia seguinte (12/1/12), fomos a Bruges, uma cidadezinha próxima muito simpática, bem medieval, onde o filme “Na Mira do Chefe” foi gravado. Queríamos dar uma volta de carruagem, e uma grega veio me perguntar como fazia justamente enquanto eu tentava descobrir. Quando vimos, estávamos nós dois e três gregas dentro de uma carruagem andando pelas ruas de Bruges – ideia da própria grega. Elas eram muito engraçadas; pareciam aquelas bruxinhas de filme infantil, que não fazem mal a ninguém, sendo apenas atrapalhadas ao fazerem seus feitiços porcamente. A aparência também não deixava por menos, exceto uma, que era mais normal; mas as três eram muito divertidas – me lembraram brasileiras. Passaram o tempo todo fazendo piada, e eu mal conseguia diferenciar seu sotaque no inglês do próprio grego, que é uma língua muito estranha. Para que a mulher da carruagem não percebesse que não nos conhecíamos, uma delas disse que eu era o marido dela. Passaram a chamar a Liliane de sogra. A senhora belga nórdica que nos levava acreditou piamente na história, mas certamente pensou “onde esse guri estava com a cabeça...?”.
Passamos quase cinco horas conversando num restaurante, eu e a Liliane. Às vezes é necessário tirar um tempo nessas jornadas infindáveis para trocar uma ideia, em detrimento de perder algo. A verdade é que, sabendo aproveitar essas pausas, ganha-se ainda mais. E foi com essa sensação que voltamos ao hostel; no entanto, o que seria mais uma noite agradável em Bruxelas foi a mais complicada da viagem: no quarto outrora quase vazio, uniram-se ao galego fedido mais três indivíduos – um velho fumante com um cheiro ardido de sei lá o quê, um gordo que roncava mais que motor de fusca e um terceiro cara que, sinceramente, já nem sei como contribuía  com a cena lastimável. Eu só consegui dormir abrindo a janela e usando tapadores de ouvido. O frio invadiu o quarto, mas preferi passar frio do que sentir aquele cheiro o resto da noite. Quanto aos roncos, viraram ruídos ao fundo com o meu ultra power protetor auricular. Apesar disso, a noite não fora nada agradável.
Na manhã do dia 13/1, rumamos de volta a Paris para o que seria o fim de semana mais marcante de toda a viagem até então.




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