Foi somente na volta para o hostel que as coisas melhoraram.
Vimos ruas magníficas ao estilo neoeuropeu, gigantes e super bem organizadas, com um trânsito completo (e complexo) para ciclistas. Também veio à tona as belas construções, prédios, shoppings e essas coisas que as cidades grandes têm. Visitamos o bairro gótico, que de fato é como se fosse uma cidade medieval (e de certa forma é). Recuperamos o guia que havíamos esquecido em Madri – um exatamente igual, mas em espanhol, o que a essas alturas já nos é indiferente. Na frente da catedral gótica havia um grupo de jovens manos dançando de uma forma assustadoramente hábil. Chegamos ao hostel no fim daquela tarde e começamos a arrumar a bagagem para a viagem da manhã seguinte enquanto decidíamos pela primeira vez o que faríamos na noite de natal. Eu nunca fui apegado a datas, e felizmente ninguém no hostel era – até porque grande parte era dos hóspedes era de orientais, que não comemoram o natal. Pela primeira vez, pude procrastinar o peso que é saber que é natal, o símbolo de uma religião criminosa e a afirmação de uma sociedade desigual; não precisei lembrar que, enquanto milhares de crianças ganham presentes, outras milhões sentem a dor do estômago vazio – realmente só me lembrei disso uma vez naquele dia, e foi somente após o pôr-do-sol, no nosso quarto, arrumando as malas e decidindo o que teríamos no jantar. Foi quando a Flávia, a morena italiana, resolveu pedir uma tesoura emprestada. Não sei bem o que ela queria com isso, mas a ideia dela funcionou radicalmente. Em alguns minutos, estávamos cozinhando juntos, eu e a bolonhesa (não é o nome do prato, estou falando da italiana, de Bologna). A ironia é que eu estava de fato preparando um macarrão à bolonhesa (até eu mesmo ri, agora que me dei conta disso). Talvez seja por isso que ela tentava insistentemente me avisar que esse prato era típico na sua terra, repetindo um nome intraduzível enquanto apontava a panela. A grande dificuldade da noite é que ela mal falava inglês, ou seja, passei a noite arriscando um italiano gaudério que de certa forma funcionou bem, graças às novelas da globo (e ao Super Mário, talvez). A bella ragazza não apenas me ajudou a cozinhar e a lavar, como tornou a “ceia” algo mais familiar, devido talvez à minha descendência (?). Antes disso, na hora de comprar os ingredientes, fomos em alguns mercados de paquistaneses (os únicos abertos na hora da ceia de natal). No açougue, o cara negou me vender um coelho em vez de carne moída (até agora não entendi bem por quê), o que estragou meus planos de comer um coelho por natal do ano passado em diante. No de verduras, o cara sequer falou conosco (pode-se entender isso como profissionalismo paquistanês, talvez). No último, onde compramos o restante, o paquistanês da vez parecia ser um sujeito de bom coração (apesar de ter a mesma expressão dos outros dois: nenhuma). Ele ficou me perguntando sobre a vida, de onde era, quando cheguei e quando ia voltar. Nesse momento, pareceu levemente abatido. Foi quando eu parei para pensar no quão difícil deve ser para esses imigrantes. Preconceito, crise, esperanças e sonhos destruídos pela traição do sistema, famílias deixadas à mercê de uma situação bélica agressiva e miserável. Quando perguntei se ele voltaria também, disse-me que sim, daqui a uma semana. Fiquei feliz por ele, mas não sei se ele também o está. Por algum motivo, deu-me ao fim da conversa e da compra um pacote de um salgadinho apimentado de presente. Agradeci assim que entendi. Era um presente de natal. Como o filho que provavelmente eu o estava lembrando, sorri profundamente sensibilizado, mas com certa distância, conforme permitia a situação.
Ofereci a janta para todos no hostel (americanos, australianas, alguns brasileiros, vários orientais, uns turcos e nós três), mas todos agradeceram, já tendo jantado. Comíamos nós três, até que chegou um sujeito com um cabelo engraçado. Gente boa, o Vinícius – porto-alegrense que veio a Lisboa há anos, tendo pegado o sotaque de uma forma que até Cabral invejaria. Aceitou juntar-se conosco, e então jantamos.
Mais tarde, liguei para minha família, matando as saudades e lembrando-me da importância que a maioria das pessoas dá ao natal (o suposto nascimento de um suposto filho de um suposto deus). Então nos preparamos e fomos sair, eu, a Flávia e o Vinícius. Rachamos um táxi até quase a praia, onde havia uma festa. Esperamos mais de meia hora na fila, sem entender por que metade das pessoas da fila entrava e a outra metade permanecia do lado de fora do local. Quando chegamos, o careca e mal-encarado segurança nem explicou o motivo, só disse que não entraríamos. Ainda culpo o cabelo extravagante do amigo Vinícius desta vez, mas a verdade é que eles restringem a entrada de uma forma ridícula e aparentemente ilegal em Barcelona. Eu realmente tentei, Vitória, explorar a noite “maravilhosa” de Barcelona, mas aparentemente a cidade tampouco foi com a minha cara. Seguimos caminhando pela beira do mediterrâneo enquanto o Vinícius explicava o motivo de seu desprezo aos portugueses, o que confesso ter sido muito interessante, mas... enquanto me contava rápida e incansavelmente sua vida em português, a pobre italiana ficava caminhando ao lado, quieta, sem entender mais do que alguns substantivos soltos volta e meia, momentos em que ela ria.
O amigo lusogauchesco queria muito sair, apesar do inconveniente. Por outro lado, eu e a Flávia queríamos voltar ao hostel (...). Quando educadamente despistei nosso novo amigo, que acabou indo procurar uma festa, seguimos pelas ruas de Barcelona . Ela tentava me convencer a ir a Bologna, dizendo que seria nossa guia – momento em que descobri que ela não tem facebook, tendo (estranhamente) me passado seu telefone. Talvez o flerte funcionasse tal qual seu país: à moda antiga. De qualquer forma, gostei, conquanto soubesse desde já que nosso último contato seria lá mesmo em Barcelona. Tentamos pegar o metrô, mas ele estava fechado; então pegamos um táxi. Finalmente o taxista era catalão. E a mudança foi imediata: estava ouvindo um pop estilo Michael Jackson e inclusive me passou o nome, dizendo que eu precisava escutar, e que era da sua geração. Não parou de falar um minuto, mas foi super gente boa e tudo que falava era interessante. A italiana estava muito quieta no banco de trás. “Tutto bene?”, perguntei, e ela, sorrindo, respondeu: “tutto bene”. Parecia gostar quando me via tentando falar seu idioma. E eu definitivamente gostava de tentar falar seu idioma. A partir de então, o taxista passou a pensar que éramos ambos italianos, apesar de estar falando castelhano com ele. Este sujeito me contou, no fim da corrida, o que considerei a informação mais valiosa do local. Ele me falou que todos os catalães têm como língua mãe o catalão E o castelhano, e que, vejam bem, se tu (catalão) conheces alguém também catalão e falam primeiro em catalão, falarão nessa língua o resto da vida; se, no entanto, falarem em castelhano, falarão espanhol pelo resto de suas amizades. Contou-me inclusive de casos em que essas relações se intercruzavam, estando entre três amigos, de modo que ainda assim respeitavam tal regra tradicional de não mudar o idioma (cada par falava entre si no idioma que se conheceram simultaneamente). Apesar de muito interessante, achei pouco usual, mas cultura é cultura “e vice-versa”.
Descemos do táxi e fomos até o andar inferior do hostel, onde havia um violão e um sofá (perfeito cenário). Toquei algumas músicas do Bon Jovi e Aerosmith porque já sabia de antemão que ela os adorava; segui astutamente com More Than Words e terminei com uma Tarantella improvisada, e acho que foi aí que a ganhei; parece ficção de blogueiro, mas foi ela que veio até mim. Se a Irina estiver lendo isso, dirá que “sou podre”. Mas o fato é que a música é um belo - e por que não inocente - recurso.
Na manhã seguinte, ela também acordou para se despedir. Donna mia, a Europa é surpreendente!
Embarcamos num trem não muito bom, mas de longe melhor que qualquer transporte brasileiro em se tratando de segurança, ecologia e pontualidade. Destino: França!
seu podre ¬¬
ResponderExcluirhashashas sai daí irina
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