Ontem à noite fui no que, se não me engano, considero a melhor festa de desconhecidos da minha vida. Ao longo da madrugada, fiz anotações no celular para que o álcool e minha memória lamentável não prejudicasse as lembranças magníficas que hoje postarei.
Ainda na tarde de ontem, fomos almoçar num restaurante com um aquário muito bonito, no qual moravam mais ou menos quatro lagostas aparentemente em paz. É um bicho muito estranho, mas bonito, e me era compreensível o fato de manterem-nas enfeitando o local. Mais tarde descobri que eles vão comê-las.
Quando fui ao banheiro deste restaurante, um cabeludo (raspado em cima) muito estranho surgiu do nada, tendo-o visto através do espelho. Alguns segundos depois, a luz apagou sozinha. Para evitar ter o mesmo destino das lagostas, virei-me de punhos erguidos até ouvir seus passos na direção oposta, tendo acendido a luz de novo. Respirando aliviado, seguimos o dia.
À noite, após a última postagem, conheci um portoalegrense muito gente fina. Faz engenharia ambiental na UFRGS, intercambista na França, férias em Madri. Mas tinha namorada. Não, não virei gay; o comentário se deu porque achava que teria companhia para entrar na festa Kapital, uma das mais famosinhas daqui. Apesar de ele não pilhar, demos umas voltas e acabamos lá em frente à boate, na qual entrei, e ele seguiu para o hostel. Pouco antes disso, um mendigo veio nos pedir dinheiro (sim!), tendo eu lhe dito que não o compreendia. Até aí, nada de diferente à nossa capital gaudéria... até que ele, no lugar de me mandar a algum lugar, abriu a boca e vagarosamente disse as seguintes palavras: "fifty cents, please". Pois é, amigos; tratava-se de um mendigo bilingue. A essa altura, eu já estava levemente alegre devido a umas cervejas com limão que bebemos no hostel antes, mas anotei na mesma hora para que essa cena jamais saia da minha memória.
A entrada na boate não é lá das mais baratas, mas... vale a pena demais. Assim que entrei, achei a fila gigantesca para guardar o casaco e duas gurias vieram conversar comigo. Na hora que perceberam meu sotaque, perguntar de onde era, e quando eu disse minha honrosa nacionalidade, já esperando seus rostos virarem ou um "ah, dale..." desapontado... elas berraram de alegria dizendo "BRASILLL!!!", e ambas começaram a cantar em alta voz, pasmem: "Nôssa, nôssa, assí bocê mi mataaa, ai si eo te pego, ai ai...!".
A minha reação foi a mesma que a de vocês. Isso me lembra quando, junto do Pablito e do Lucas, no Uruguai, tocou um clássico da música popular brasileira numa boate: "Minha Eguinha Pocotó". Conforme essas duas situções me provaram, na mesma hora criei uma teoria: as músicas que nos envergonham no Brasil são as mesmas que nos orgulham no exterior. Quando essa aberração sertaneja tocou no fim da festa, eu era o fã número um e agradeci aos céus por todas as universidades que há no sertão. Pouco mais tarde, já sem casaco, enquanto explorava os cinco ou seis andares gigantescos da casa labiríntica, um gay apertou meu braço e falou "pode tirar uma foto?". Eu entendi o mesmo que vocês, mas não: ELE tirou a foto, de mim abraçado com suas duas amigas. Foi exatamente aí que entendi que a noite prometia.
Quando subi no que achava ser o último andar (mas depois percebi que havia mais dois ou três), olhei o palco principal lá embaixo. Havia uns 4 velhos, alguns de muleta, outros de andador... e quando a música começou a bombar, eles jogaram os artefatos para o lado e começaram a dançar break loucamente, dando mortais, piruetas e essas coisas que nos fazem sentir fracos. Claramente, eram jovens fantasiados.
Peguei o drink a que tinha direito - uma tequila. "¿Quieres limón?". Respondi que sim, e então ela me deu um refri de limão. Estranho, mas interessante. Quando vi uma mulher exibindo os seios semi-nus e dançando no palco, resolvi descer. Também havia uns magrões mais fortes que Chuck Norris rebolando lá em cima, mas isso não atrapalhou em nada a visão daquela deusa madrileña. "Cara, isso é uma AULA de anatomia!", pensei e registrei no meu celular ao ver as veias safena e basílica naquele corpo semi-nu.
A partir daí, aparentemente houve um hiato alcoólico gigantesco que me proibiu de fixar as memórias no celular; porém, bem mais tarde, resolvi comprar um chiclé. Só havia no último andar, e foi por isso que descobri a existência dos outros três pisos, cada um mais estranho que outro, com diversos compartimentos em várias cores, luzes, estilos... coisa de louco. Quando comprei o chiclete, resolvi ir ao banheiro, mas antes ajudei uma espanhola bêbada a subir a escada. O banheiro, genialmente, é misto. Na fila, já dentro, ajudei uma outra espanhola bêbada a vomitar. Neste momento, registrei as seguintes palavras: "Gente mais louca que no beco, berrando e batendo na porta". Do nada, o bolo de pessoas perto da porta onde eu estava se abriu. "Pronto, é briga", pensei, até que vi duas espanholas dançando algo que julguei ser flamenco, muito alegres, enquanto os caras aplaudiam no ritmo. Genial, pensei.
No troco da cerveja (que lá dentro custa 8 euros, o maior roubo da história alcoólica), me deram uma nota de 10 euros partida pela metade. Sacanagem pura. Não aceitaram em lugar nenhum, obviamente...
Falando sobre isso com um espanhol meio burro (que não falava quase nada de inglês), quando agradeci algo no final, ele me respondeu confiante: "of nothing!". O mendigo o deixou no chinelo.
A cada meia hora, um barulho de tiro de canhão ecoava pelo prédio enquanto o salão era coberto de gelo seco. Mais tarde, até o final, sentei com um grupo de espanhóis gente finíssima (dois caras e... umas seis gurias). Esse foi o grande momento da noite, mas cesso por aqui meu relato.
Hoje, após uma ressaca fenomenal, fomos a alguns pontos turísticos de Madri. El Paseo del Prado é magnífico, tendo um museu perfeito! O Museo del Prado contém infinitas obras, tanto quadros quanto esculturas e até algumas mesas, tudo da idade média (1400 em diante), tendo encontrado algumas peças de bem antes (1100 e, acreditem, uma escultura de 20d.C.!!! O barbudo dos milagres ainda era vivo!). Apesar dos avisos de "não toque", como um bom brasileiro, me fiz de bobo e toquei nessa escultura mais velha, o que me ligou ao passado como uma máquina do tempo. Também não se pode tirar fotos, mas dei um jeitinho, um dia posto.
Agora voltamos ao Hostel. Tem um bando de franceses falando muito rápido, de modo que não entendo praticamente nada. Eles falam alto demais também, e no momento estão tentando trovar umas brasileiras, que, como boas brasileiras, estão facilitando as coisas demasiadamente.
Madrid, 18-12-2011, 21:36h.
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