Eu ia começar dizendo que hoje foi um dia atípico, mas o que é um dia típico quando se trata de uma Eurotrip?
Assim que acordei, peguei a garrafinha d'água que deixei ao lado da cama e parecia que a tinha tirado da geladeira. Isso me fez entender por que quase nada vem gelado, nem mesmo das máquinas de bebida. Sábado mesmo, pela noite, eu fui beber uma cerveja e o negócio explodiu quando abri, de tão quente - mas consegui ser discreto, e só um japinha notou (e daí, pensei, ninguém vai entender o que ele diz mesmo). O banho matinal demora umas oito pressionadas para esquentar. Eu disse pressionadas porque o chuveiro aqui é um botão, semelhante àquelas torneiras de shopping, o que te obriga a tomar banho de costas pressionando o botão a cada 60 segundos.
Percebemos hoje o que pode vir a ser um costume espanhol: aborrecer-se ao dizer um não. Até agora, quase todas as respostas negativas às informações que pedi vieram seguidas de um ar indignado. Por exemplo, quando pedi um segundo copo de suco no café da manhã. "No! Sólo un vaso por persona!" disse o senhor que servia sucos no café da manhã, fechando a cara. Eu agradeci e saí. Mais tarde, quando chegamos em Ávila ao meio dia em ponto e com fome, entramos num restaurante de um espanhol típico (quase um toureiro), e perguntei se já havia almoço. "Cómo! No hay! Almuerzo sólo más tarde!" respondeu o dono um tanto indignado, como se fosse algo absurdo alguém querer comer ao meio dia. E é. Hoje percebemos que o que falam da Espanha é verdade: eles comem mais tarde e fecham as lojas logo após o almoço por um BOM tempo.
Mas não é daí que meu relato começará.
Dentro do metrô, lotado segunda de manhã, os acentos preferenciais estavam ocupados por um cara meio Latino (o cantor, mesmo, com brinco e ar de peruano malandro) e seu filho, um projeto de Latino. Não dissemos nada, até por sermos estrangeiros. No entanto, quando um senhor (de uns 70 anos ou mais) percebeu que os dois não deram lugar à Liliane, começou a xingar pai e filho em voz alta dentro do metrô. "HAY QUE TENER EDUCACIÓN!", dizia o velhinho, e com razão. Ainda assim os dois não levantaram, tendo o pai rido com desdém. Nisso, uma jovem sentada perto dali (num assento normal) ofereceu o lugar à ela. Cena interessante, essa.
Ao chegarmos na estação para pegar o trem até Ávila - cidade histórica com muralhas do séc. XII onde Sta. Teresa viveu -, tentei comprar uma água numa dessas máquinas frescas. Não havia o furo típico de colocar moedas, mas sim uma espécie de círculo levemente afundado onde se encaixava a moeda de forma tosca. Mas tosco mesmo foi como eu me senti quando, depois de VÁRIAS tentativas, acabei desistindo da água, triste e indignado. De pronto fui atingido pela síndrome do brasileirismo, sentindo-me inferior, como um macaco que não consegue utilizar a ferramenta que o pesquisador lhe oferece. Foi para vencer esse fracasso que tentei novamente, numa máquina exatamente igual do segundo andar. Em poucos segundos, descobri que o problema estava na primeira máquina, danificada, e não na minha falta de experiência tecnológica.
Ao contrário do metrô, cuja didática pode ser compreendida até por uma criança, o trem intermunicipal não é tão simples. Precisei insistir para entender que era preciso pegar dois trens, e que o primeiro não aparecia no visor com o mesmo nome que dizia no bilhete, e ainda que este estava atrasadíssimo. A verdade é que nós só conseguimos fazer isso porque um senhor viu minha cara de "o que é um trem?" e resolveu me ajudar aleatoriamente, por vários minutos, até nos colocar dentro da via que levava ao trem. Há gente boa no mundo todo, mas os espanhois definitivamente se destacam, talvez pelo seu jeito quase-latino de ser.
A partir de então, colamos numa mulher que disse ir a Ávila. Ela estava preocupada com o atraso do primeiro trem, dizendo que normalmente o segundo está esperando os passageiros deste no último ponto. Mas quando ela foi confirmar, disseram-na que não tinham certeza por causa do atraso, e por isso ela decidiu descer várias estações antes, nos aconselhando a fazer o mesmo. No entanto, assim que descemos atrás dela, ela tentou voltar num pulo só para dentro do trem ao ser informada que o de Ávila estaria sim nos esperando, mas a porta havia fechado com nós três do lado de fora, numa estação estranha no meio da zona rural espanhola.
Foi aí que o Homem Trem apareceu para nos socorrer. Tratou-se de um fiscal, ou qualquer coisa do tipo, que notou nosso arrependimento de boas-vindas e fez uma porção de sinais absolutamente estranhos ao lado da porta do trem quilométrico, fechando e abrindo os braços, de modo que, milagrosamente, a porta se abriu. Entramos de novo como se fosse uma brincadeira infantil.
O outro trem nos deixou em Ávila, uma cidade bonita e pequena, com uma parte histórica riquíssima. Assim que chegamos, vimos um carro de autoescola estacionando de um jeito bem peculiar (manobrou habilmente com duas rodas em cima da calçada). Eu já estava comentando, porém, o quanto a cidade deixava a desejar, até eu conseguir um mapa e entender que não se tratava de uma muralha, mas sim de quatro muralhas delimitando a parte medieval, a Ávila antiga, do tempo de Sta. Teresa, ou ainda séculos antes: do feudalismo, enfim. Quando eu descobri que 'passar pelos portões' significava 'sair do mundo contemporâneo e entrar na Idade Média em apenas alguns passos', a coisa começou a ficar muito interessante.
Não tem muito como descrever a sensação que é ver na tua frente algo que existe há mais tempo do que o conhecimento do teu próprio continente. As fotos infelizmente não possuem o poder de transmitir a energia histórica dos locais; elas podem te mostrar o desfecho de uma sequência de fatos incríveis, mas é o contato físico, próximo e pessoal que te dará a noção em proporções reais de como a história deste planeta é impressionante.
Quando eu notei que precisava de um mapa (após diversas consultas à pequena população, sendo que a maioria não sabia quase nada), tive a sorte de ver dois franceses passando por nós com um. Aproveitei para proferir minhas primeiras palavras na língua. Disseram-me para ir até o final de uma rua e contornar a catedral, de forma que acharia um local com guia turístico e mapas. Lá me fui.
Lá chegando, tive que descer três andares para que achasse uma alma viva. E bem viva - a linda espanhola me foi muito útil, com sua paciência e simpatia, dando-me um mapa muito completo e várias dicas. Peguei um elevador e saí entre o lado externo da parte medieval e as montanhas comunais (creio), que hoje já não possuem árvore alguma.
Foi aí, no fim da tarde, que meu pé começou a doer.
Caminhar a manhã e a tarde inteiras num frio de quatro graus com uma bota apertada no dorso não faz bem, e quando finalmente chegamos ao hostel, eu mal conseguia caminhar. Mas agora estou melhor, não há de ser grave.
Isso explica o motivo de me verem tão ativo aqui no blog e na internet. Eu estou tendo muito tempo livre para postar fotos e relatos aqui em Madrid; contudo, espero que isso mude quando cruzarmos a fronteira.
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