Nosso turismo em Barcelona foi levemente fracassado, ora devido à má-impressão que tivemos da cidade, ora por conta da cidade em si. Após as críticas indignadas de alguns amigos sobre minhas impressões de Barcelona, resolvi seguir o que restava dos conselhos: sair à noite. Antes disso, havíamos jantado num lugar turco de péssimo atendimento. O cara, de fato turco, riu com desdém quando eu lhe perguntei como era feito uma espécie de panqueca com mil verduras dentro e pedaços desfiados de “pollo o ternera”, como se fosse obrigação mundial conhecer sua culinária que, ao meu ver, soou pobre e de péssimo gosto. Apesar disso, comemos lá. Resultado: ambos passamos mal alguns minutos após.
Nessa noite de sexta-feira – o dia mundial para sair-se – eu fui andando até a Rambla (avenida gigante onde dizem ser o “point”). Até chegar lá, porém, tive de entrar em uma ruazinha história na qual havia faltado luz. Sombras de pessoas de toda sorte passam por mim, mas o pior era quando eu passava por elas. Cruzando uma outra rua histórica, dessa vez com luz (mas não menos apavorante), uma prostituta me assediou em inglês. Mesmo agradecendo e negando educadamente, a sedutora africana me seguiu numa tentativa insistente até quase a Rambla, e só parou quando eu disse, impaciente, depois de diversas negações: “Look, I’m brazilian, I can have sex whenever I want, so just leave” (sou brasileiro, e lá temos sexo a hora que quisermos). Ela riu e aceitou o grande exagero que proferi como verdade absoluta. Fiquei mais tranquilo, porque jurava que ela ia chamar “os manos de Barcelona”, ou qualquer coisa do gênero. A cidade, além de totalmente sombria e de certa forma apavorante, está repleta de imigrantes estranhos, os quais comandam o comércio e os táxis –principalmente indianos e paquistaneses. A propósito, nunca vi tanto árabe junto; a grande maioria fala espanhol quase fluente, não obstante o sotaque, e alguns se camuflam tão bem que eu só descubro que não são de lá porque... me perguntam se eu sou de lá.
O fato é que a Rambla estava tão movimentada quanto o início da Ipiranga numa segunda-feira de madrugada ao ápice do inverno gaúcho. As pessoas que estavam lá à uma da manhã eram basicamente esses estrangeiros assustadores tentando me vender coisas aleatórias, as quais neguei veementemente. Até que me refugiei dentro de um bar cujo atendente era, graças a Deus, brasileiro – mais um nordestino me acolhendo nesta terra castelhana. Entrei lá com os batimentos acelerados, pupilas provavelmente dilatadas e estou me segurando para não dizer outros adjetivos que caracterizariam o meu medo. Tudo acabou quando comprei uma cerveja do pernambucano. O cara não só me deu entradas grátis para duas festas, como me garantiu que o máximo de perigo que há nas redondezas é o de alguém te encher o saco até tu comprares algo, e que, não se dando bola, tudo ficará bem. Saí de lá de peito estufado, sentindo-me imbatível e sem medo algum dos olhares ameaçadores que me lançavam, volta e meia, antes de me oferecerem cervejas quentes e outros artefatos que sequer sei o nome.
Tratei de procurar a praça que continha uma dessas discotecas na qual entraria grátis. Demorei uns quinze minutos até chegar lá, não só pela distância, mas pela falta de gente aparentemente confiável para pedir informações. Finalmente cheguei lá e achei a festa.
O que aconteceu, querida Vitória, é que o simpático segurança espanhol olhou para mim de cima a baixo e disse: “vestido assim tu não entras aqui”. Eu pedi que repetisse. Quando realmente o assimilei, pensei “eu devo ter rasgado a minha roupa sem perceber!”, e ME olhei de cima abaixo. Eis o que verifiquei: um dos melhores blusões que já vesti até hoje (inclusive comprado lá!), uma calça jeans negra intacta e botas espanholas cuja unidade vale o par dos meus tênis. Eu estava vestido como um europeu. Talvez até demais. Quando o questionei o motivo, ele me respondeu sem vontade “estás muito montanhazinha, tu vais para a montanha? Não vê que aqui todo mundo é esporte?”. Confesso que ser comparado com uma montanha pela primeira vez na vida não foi de todo ruim. O fato é que, olhando as pessoas que saíam para fumar, não notei muita diferença entre mim e eles, mas resolvi não discutir. A Paula já havia me comentado de uma festa em Berlim em que o segurança escolhe quem deve entrar ou não sem um critério definido; este pelo menos teve a decência de criar um. Concluí que devia haver muito homem lá dentro, ou que ele não queria ninguém entrando de graça lá (mostrei o vale grátis que ganhei antes de ele me barrar). Seja como for, voltei para a Rambla. Sem mais o que fazer e levemente perdido, resolvi andar no mesmo sentido que duas das poucas meninas bonitas que vi em Barcelona em todo o período que passei lá; a diferença entre a beleza madrilena e barcelonesa é algo descomunal (em se tratando tanto de mulheres quanto de paisagem). Quando elas entraram em alguma outra rua, notei que estava num lugar meio deserto e peguei um táxi até o hostel, ainda mais decepcionado com a terra do melhor time do mundo.
Desta vez passei a noite no quarto do andar debaixo, que abrigava, além de mim e da Liliane, um gaúcho com um sotaque totalmente português (mora lá) e duas europeias bem interessantes. Notado isso, dormi.
OBS: uma das duas estava roncando.
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