sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Toledo, Última Noite em Madri e Chegada em Barcelona

PS: ainda estou sem "til", o que explicará a possível falta a seguir.

Na quarta fomos a Toledo - que cidade magnífica! As ruazinhas sao tao estreitas que nao passam um carro e um homem lado a lado. No entanto, as pessoas sao bem mais acessíveis, e sabendo um pouco de espanhol, pode-se perder à vontade. Criminalidade: zero, tal qual Ávila e a maioria das outras cidades. Madri me pareceu tao segura que andei pela madrugada sozinho depois de várias cervejas, mas isso é a segunda parte do relato.
Fomos de ônibus até Toledo, e apesar de chegarmos bem tarde (cinco e pouco), deu para ver a catedral e ter uma noçao boa de como é a cidade de dia. A parte antiga (onde passamos a maior parte do tempo) praticamente nao mudou desde a Idade Média, podendo-se ver ainda ganchos de ferro para prenderem-se os cavalos em algumas esquinas, ruas sem saída, entrada de ruas com portoes gigantes, portas de madeira multicentenária, entre outras maravilhas da antiguidade que só se vê no velho mundo.
A catedral me pareceu o edifício mais antigo que já estive até hoje. Ela é totalmente medieval, com pouquíssimas inovaçoes. Apesar de ser proibido, tirei várias fotos, além de, com certa ajuda judiciária, abrir o órgao sagrado do salao musical e tirar uma foto dele. Esse foi o grande momento de Toledo.
Tanto a ida quanto a volta foram absolutamente pontuais, tendo o ônibus partido ao mesmo momento em que o relógio marcou que este sairia (acabei de ser extremamente redundante, eu sei).

Quando chegamos em Madri de novo, resolvi que ia lavar a roupa na máquina. Nao quero falar muito sobre isso porque ainda estou envergonhado, mas ter resolvido fazê-lo sozinho me custou um dicionário de francês-português E o dobro do preço da lavagem, já que, como nao dava para abrir a máquina e tirar o maldito dicionário, tivemos que esperar os 30min terminarem e recomeçar a lavagem. Sentindo-me um imbecil, fui até a área comum e um sujeito veio falar comigo em francês. Apesar da surpresa, consegui me virar bem, e mantivemos um diálogo relativamente longo. Era do mesmo programa da noite passada, de levar os estrangeiros boêmios para um turismo festivo por aí. No mesmo segundo hostel da noite anterior, estava lá, sem ter jantado basicamente nada, quando encontrei um grupo de brasileiros. Nao só brasileiros: estudantes de medicina. Nao só estudantes de medicina brasileiros: eles eram de Natal! Eu nunca havia conhecido nenhum estudante de medicina acima do Paraná (e mesmo assim, só pelo Intermed), muito menos do Nordeste!
Disseram-me ser do sétimo semestre (chamam de período), e quando contei que ia para o segundo, chamaram-me de "calouro" (que traduzi como bixo). Apesar do gelo inicial, normal entre qualquer relaçao interpessoal, em poucos minutos o grupo de dois caras e várias gurias me acolheu de uma forma que poucas vezes já havia visto - todos muito legais, sem exceçao, e sem aquelas frescuras que grupos de estudantes de medicina normalmente têm. As meninas eram bonitas. Conforme fomos bebendo cerveja E tequila (quase forçados pelos "guias" do pubcrawl), fomos sendo levados para outros bares e festas dos quais pouco me lembro. Só sei que, nao lembro bem quando, acabei ficando com a japinha/brasileira do grupo. A experiência foi de fato estranha - devido a tanta combinaçao (nordestina, japonesa, quase doutoranda na UFRN e com um sotaque engraçado), ela era basicamente uma estrangeira para mim. Entre os pubs, o cara que havia falado comigo em francês a noite toda (tendo eu descoberto mais tarde que é venezuelano) tocava seu violao, e sabendo que isso ocorreria, levei comigo o meu precioso Matófono (instrumento artesanal de sopro que comprei no Uruguai a menos de R$ 10,00). Quando toquei junto dele pelas ruas, o cara se apaixonou pelo instrumento de uma forma que me o quis comprar por 50 euros (quase R$ 150,00). Alguém arrisca o que eu fiz?

Na manha seguinte eu acordei ainda alcoolizado. Nao me lembrava como havia chegado no hostel, nem que havia ainda entrado na internet após isso, fatos que foram sendo acrescentados à minha memória de ressaca lentamente ao longo do dia seguinte. Quando pegamos o Renfe até Barcelona, eu fiquei apavorado com a qualidade do serviço, sendo este melhor que o dos avioes daqui. Deram-nos "o melhor amendoim do mundo", e logo entendi por quê. O sabor refrescante continha algo de chocolate, porém numa combinaçao especialíssima. O almoço também nao foi dos piores, apesar de ser bem pouco. Com certeza foi a viagem mais confortável que já fiz na vida, além de ter durado pouco mais de duas horas (o trem vai a mais de 300km/h). Ao longo do caminho, a paisagem excêntrica mistura as fazendas ibéricas, ruínas medievais e o mediterrâneo, este mais perto do destino. Foi só entao que pude me considerar sóbrio novamente, mas é claro que ninguém desconfiara de nada.

Desde o início, Barcelona nao nos chamou muita atençao. Peço perdao a quem ama essa cidade, mas realmente nao vi nada demais... é só uma cidade grande e moderna, relativamente bem organizada, mas nao chega aos pés de Madri em beleza, conteúdo histórico, simpatia e principalmente: segurança. Desde o início nos alertaram por escrito que a cidade é perigosa, e reforçaram o pedido de "cuidado com seus bolsos, pois aqui há truques realmente ótimos para roubar o turista!". Nao demos muita bola, afinal somos brasileiros. Entretanto, mais tarde soubemos que um indiano (colega de quarto) foi roubado exatamente com um desses truques. O hostel, apesar de nao chegar aos pés do outro em qualidade, é tao receptivo que poderíamos abraçar os funcionários. O dono (pelo menos parece ser o dono) é um português também, jovem e gordinho, muito gente boa. O cara da manha também é muito legal, tendo conversado horas com a Liliane e dado várias dicas para o futuro da viagem. Pela noite de quinta, em Barcelona, estávamos nos preparando para os três lances de escada quando o português foi antes de nós no quarto pedir educadamente para que uma loira sei lá daonde trocasse para a cama de cima, porque um dos hóspedes estava com a perna machucada. Ela respondeu calmamente: "I don´t really want it, sorry" (eu realmente nao quero fazer isso, sinto muito). Depois de muito transtorno, conseguiu uma cama para a Liliane no quarto abaixo. Mais tarde, conheci o outro colega de quarto, que era um indiano muito engraçado, seco e de uns 2m de altura, com uma cara e um sotaque no inglês que nao lhe poderiam acarretar outra nacionalidade. Quando soube que íamos ao jogo do Barcelona, resolveu nos acompanhar muito feliz. E foi.

O estádio nao é muito grande, nem o campo, mas tem ótima qualidade e é caro. Talvez porque compramos com cambistas... a verdade é que nao sei quanto custa um jogo desse nível no Brasil. Só sei que valeu a pena; o Barça ganhou do L´Hospitalet de NOVE a zero. A torcida é muito boa, ao contrário do que eu imaginava; o time nao foi o titular, mas alguns estavam em campo, como o Iniesta, o Xavi (se nao me engano, acho que o vi lá), o Puyol (que é IGUAL ao PS3 e nao deixou ninguém passar por ele), e mais um ou outro que acabei esquecendo. Nao, o Messi nao entrou. Mas creio que nao foi necessário. Repito: foi NOVE a zero.

Na volta, descobrimos que o metrô fecha à meia-noite. Pegamos um táxi com o indiano, que reconheceu o motorista como paquistanês e começaram a conversar numa língua que sequer sei o nome. Se eu soubesse a nacionalidade do motorista, teria um medo real de que essa conversa terminasse em morte (culpa do Prof. Fábio Catani). Mas foi tudo bem.

A temperatura em Barcelona está tao quente quanto à do outono gaúcho. O sono e a leve decepçao com a cidade me fizeram dormir cedo. E acordar tarde. Bem tarde.

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